A Pessoa Total, Tricotomia ou Dicotomia? - por Anthony Hoekema
Posted by Administrador in Antropologia on 20 novembro 2009
Um dos aspectos mais importantes da visão cristã do homem é a de que devemos vê-lo em sua unidade, como uma pessoa total. Os seres humanos têm sido imaginados como consistindo de partes separadas e, algumas vezes, de partes distintas, que são, dessa forma, abstraídas da totalidade. Assim, nos círculos cristãos, tem sido crido do homem como consistindo tanto de “corpo” e “alma” como de “corpo”, “alma” e “espírito”. Tanto os cientistas seculares como os teólogos cristãos, contudo, estão reconhecendo gradativamente que tal entendimento dos seres humanos está errado, e que o homem deve ser visto como uma unidade. Visto que nossa preocupação é com a doutrina cristã do homem, devemos dar uma nova olhada para o ensino bíblico a respeito dos seres humanos, para ver se de fato isto é assim.
O que devemos observar primeiro de tudo é que a Bíblia não descreve o homem cientificamente; na verdade,
o julgamento (dos teólogos) é que a Bíblia não nos dá nenhum ensino científico a respeito do homem, nenhuma “antropologia” que deveria ou poderia estar em competição com uma investigação científica do homem nos vários aspectos de sua existência ou com a antropologia filosófica. [1]
Além disso, a Bíblia não usa uma linguagem científica exata. Ela usa termos como alma, espírito e coração mais ou menos indistintamente. Isto é por causa
das partes do corpo que são tidas, não primariamente do ponto de vista de suas diferenças ou de suas inter-relações com outras partes, mas como significando ou enfatizando os diferentes aspectos do homem total em relação a Deus. Do ponto de vista da psicologia analítica e da fisiologia, o uso do Antigo Testamento é caótico: ele é o pesadelo do anatomista quando qualquer parte pode ser entendida como sendo a totalidade. [2]
Portanto, não é impossível construir uma psicologia bíblica exata e científica. Alguns têm tentado fazer isso. Um dos mais notáveis nessa tarefa é Franz Delitzsch, cujo livro System of Biblical Psychology foi originalmente publicado em 1855. Mas mesmo Delitzsch teve que admitir que “a Escritura não é um livro escolástico [or didática] de ciência” e que “é verdade que em assuntos psicológicos, assim tão pouco quanto em assuntos éticos ou dogmáticos, a Escritura abrange (ou contém) qualquer sistema proposto na linguagem das escolas”. [3]
Em 1920, o teólogo holandês Herman Bavinck escreveu um livro entitulado Biblical and Religious Psychology (Psicologia Bíblica e Religiosa). Semelhantemente a Delitzsch, ele admitiu que
[a Bíblia] não nos fornece uma psicologia popular ou científica mais do que ela nos proporciona uma narrativa [schets] da história, geografia, astronomia ou agricultura...Mesmo se alguém desejasse tentar, seria impossível retirar da Bíblia uma psicologia que pudesse satisfazer as nossas necessidades. Porque não somente seria impossível ter uma narrativa completa de todos os vários dados, mas também as palavras que a Bíblia usa, tais como espírito, alma, coração e mente, foram emprestadas da linguagem popular dos judeus daqueles dias, ordinariamente possuindo um conteúdo diferente daquele que associamos com esses termos, e nem sempre usados no mesmo sentido. As Escrituras nunca usam conceitos abstratos e filosóficos, mas sempre falam a rica linguagem do dia a dia. [4]
Embora não derivemos uma antropologia ou psicologia científica exata da Bíblia, podemos aprender da Escritura muitas verdades importantes a respeito do homem. Na verdade, isso é o que tentamos fazer nos capítulos anteriores deste livro. Deveríamos nos lembrar novamente que a coisa mais importante que a Bíblia diz a respeito do homem é que ele está inescapavelmente relacionado a Deus. Berkouwer coloca este assunto da seguinte maneira: “Podemos dizer sem medo de contradição que a coisa mais notável no retrato bíblico do homem repousa nisto: que nunca chama a atenção para o homem em si mesmo, mas exige a nossa atenção mais plena para o homem em sua relação com Deus.” [5] Podemos acrescentar que a Bíblia também dirige nossa atenção para o homem à medida em que ele se relaciona com os outros seres humanos e com a criação. [6] Em outras palavras, as Escrituras não estão primariamente interessadas nas “partes” constituintes do homem ou na sua estrutura psicológica, mas nos relacionamentos que ele mantém.
Tricotomia ou Dicotomia?
Vez por outra, entretanto, tem sido sugerido que o homem deveria ser entendido como consistindo de certas “partes” especificamente distintas. Um desses entendimentos é usualmente conhecido como tricotomia — a idéia que, segundo a Bíblia, o homem consiste de corpo, alma e espírito. Um dos proponentes mais antigos da tricotomia, como vimos, é Irineu, que ensinava que enquanto os incrédulos possuiam somente almas e corpos, os crentes adquiriam espíritos adicionais, que eram criados pelo Espírito Santo. [7] Um outro teólogo que usualmente está associado com a tricotomia é Apolinário de Laodicéa, que viveu de 310 a aproximadamente 390 AD. A maioria dos intérpretes atribuem a ele a idéia de que o homem consiste de corpo, alma e espírito ou mente (pneuma ou nous), e que o Logos ou a natureza divina de Cristo tomou o lugar do espírito humano na natureza humana que Cristo assumiu. [8] Berkouwer, contudo, assinala que Apolinário desenvolveu primeiro a sua cristologia errônea em um contexto de dicotomia. [9] Mas J. N. D. Kelly diz que é uma questão de importância secundária se Apolinário era um dicotomista ou tricotomista. [10]
A tricotomia foi ensinada no século XIX por Franz Delitzsch, [11] J. B. Heard, [12] J. T. Beck, [13] e G. F. Oehler. [14] Mais recentemente tem sido defendido por escritores como Watchman Nee, [15] Charles R. Solomon (que afirma que através do seu corpo, o homem relaciona-se com o ambiente, através de sua alma com os outros, e do seu espírito com Deus), [16] e Bill Gothard. [17] É interessante observar que a tricotomia é também defendida na antiga e na nova Scofield Reference Bible. [18] A despeito deste apoio, devemos rejeitar a visão tricotomista da natureza humana.
Primeiro, ela deve ser rejeitada porque ela parece fazer violência à unidade do homem. A palavra em si mesma sugere que o homem pode ser separado em três “partes”: a palavra tricotomia é formada de duas palavras gregas, tricha, “tríplice” e temnein, “cortar. Alguns tricotomistas, incluindo Irineu, até sugeriram que certas pessoas tinham os seus espíritos cortados, enquanto que outras não.
Segundo, devemos rejeitá-la porque ela freqüentemente pressupõe uma antítese irreconciliável entre espírito e corpo. Realmente, a tricotomia originada na filosofia grega, particularmente na concepção de Platão, que possuia também um entendimento tríplice da natureza humana. Herman Bavinck levanta uma discussão útil deste assunto no seu livro Biblical Psychology. Ele assinala que em Platão e em outros filósofos gregos havia uma aguçada antítese entre as coisas visíveis e as invisíveis. O mundo como substância material não foi criado por Deus, diziam os gregos, mas sempre esteve contra ele. Um poder intermediário se fazia necessário para que pudesse haver ligação entre o mundo e Deus, e, assim, haver harmonia entre eles — este era o mundo da alma. A idéia do homem, encontrada no pensamento grego, pensa Bavinck, é semelhante: o homem é um ser racional que possui razão (nous), mas ele é também um ser material que tem um corpo. Entre esses dois deve haver uma terceira realidade que age como mediador: a alma, que é capaz de dirigir o corpo em nome da razão. [19]
A Bíblia, contudo, não ensina qualquer tipo de distinção aguda entre espírito (ou mente) e corpo. Segundo as Escrituras, a matéria não é má porque foi criada por Deus. A Bíblia nunca denigre o corpo humano como uma fonte necessária do mal, mas o descreve como um aspecto da boa criação de Deus, que deve ser usado no serviço de Deus. Para os gregos o corpo era considerado “uma sepultura para a alma” (soma sema) que o homem alegremente abandonava na morte, mas esta idéia é totalmente estranha às Escrituras.
Devemos rejeitar também a tricotomia porque ela faz uma aguda distinção entre o espírito e a alma que não encontra suporte algum nas Escrituras. Podemos ver isto mais claramente quando observamos que as palavras hebraica e grega traduzidas como alma e espírito são freqüentemente usadas indistintamente nas Escrituras.
1. O homem é descrito na Bíblia tanto como alguém que é corpo e alma como alguém que é corpo e espírito: “Não temais aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma” (Mt 10.28); “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor, assim no corpo como no espírito” (1 Co 7.34); “Como o corpo sem o espírito está morto, assim a fé sem as obras é morta” (Tg 2.25).
2. A dor é atribuída tanto à alma como ao espírito: “Levantou-se Ana e, com amargura de espírito, orou ao Senhor, e chorou abundantemente” (1 Sm 1.10); “Porque o Senhor te chamou como a mulher desamparada e de espírito abatido; como a mulher da mocidade, que fora repudiada, diz o teu Deus” (Is 54.6); “Agora está angustiada a minha alma” (Jo 12.27); “Ditas estas cousas, angustiou-se Jesus em espírito” (Jo 13.21); “Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava, em face da idolatria dominante na cidade” (At 17.16); “(Porque este justo [Ló], pelo que via e ouvia quando habitava entre eles, atormentava a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas daqueles)” (1 Pe 2.8).
3. O louvor e o amor a Deus são atribuídos tanto a alma como ao espírito: “A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (lc 1.46-47); “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Mc 12.30).
4. A salvação é associada tanto à alma como ao espírito: “Acolhei com mansidão a palavra implantada em vós, a qual é poderosa para salvar as vossas almas” (Tg 1.21); “...entregue a Satanás, para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo, no dia do Senhor” (1 Co 5.5).
5. O morrer é descritivo tanto como uma partida da alma como do espírito: “Ao sair-lhe a alma (porque morreu), deu-lhe o nome de Benoni” (Gn 35.18); “E estendendo-se três vezes sobre o menino, clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, que faças a alma deste menino tornar a entrar nele” (1 Rs 17.21); “Não temais os que matam o corpo e não podem matar alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28); “Nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Sl 31.5); “E Jesus clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito” (Mt 27.50); “Voltou-lhe o espírito, ela imediatamente se levantou”(Lc 8.55); “Então Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23.46); “E apedrejavam a Estevão que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” (At 7.59).
6. Aqueles que já haviam morrido eram algumas vezes chamados tanto de almas e outras vezes de espíritos: Mt 10.28, citado acima; “Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam” (Ap 6.9); “e a Deus, o juíz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados “ (Hb 12.23); “Pois também Cristo morreu...para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado em espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais noutro tempo foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé” (1 Pe 3.18-20).
Os tricotomistas freqüentemente apelam para duas passagens do Novo Testamento: Hb 4.12 e 1 Ts 5.23, para dar suporte ao seu conceito, mas nenhuma dessas passagens prova o ponto deles.
Hebreus 4.12 diz o seguinte:
Porque a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.
Estas palavras descrevem o poder penetrante da palavra de Deus. O autor de Hebreus não pretende dizer que a palavra de Deus causa uma divisão entre uma “parte” da natureza humana chamada alma e outra “parte” chamada espírito, assim como não pretende dizer que a palavra causa uma divisão entre as juntas do corpo e a medula encontrada nos ossos. A linguagem é figurativa. A cláusula seguinte aponta para o intento do autor: ele deseja dizer que a palavra de Deus discerne “os pensamentos e atitudes (ou intenções) do coração”. A palavra de Deus (seja ela entendida como a Escritura ou como Jesus Cristo) penetra nos recônditos mais interiores de nosso ser, trazendo à luz os motivos secretos de nossas ações. Esta passagem, na verdade, está em paralelo com um texto de Paulo: “[o Senhor] não somente trará à plena luz as cousas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações” (1 Co 4.5). Não há, portanto, nenhuma razão para se entender Hebreus 4.12 como ensinando uma distinção psicológica entre alma e espírito como sendo duas partes constituintes do homem.
A outra passagem é 1 Tessalonicenses 5.23, onde se lê:
O mesmo Deus da paz voz santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nossos Senhor Jesus Cristo.
Deveríamos observar primeiro que esta passagem não é uma afirmação doutrinária, mas uma oração. Paulo ora para que seus leitores tessalonicenses possam ser santificados e completamente preservados ou guardados por Deus até que Cristo volte novamente. A totalidade da santificação, pela qual Paulo ora, é expressa no texto por duas palavras gregas. A primeira, holoteleis, é derivada de holos, significando a totalidade, e telos, significando a finalidade ou o alvo; a palavra significa “a totalidade de modo que se alcance o alvo”. A Segunda palavra, holokleron, derivada de holos e kleros, porção ou parte, significa “completa em todas as suas partes”. É interessante observar que na segunda metade da passagem, ambos o adjetivos holokeron e o verbo teretheie (“possam ser guardados ou preservados”) estão no singular, indicando que a ênfase do texto está sobre a totalidade da pessoa. Quando Paulo ora pelos tessalonicenses para que o espírito, alma e corpo possam ser guardados, ele não está tentando separar o homem em três partes, mais do que Jesus pretendeu fazer em quatro partes quando disse: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força (Lc 10.27). Esta passagem, portanto, também não proporciona qualquer base para a visão tricotômica da constituição do homem. [20]
A outra idéia usualmente sustentada a respeito da constituição do homem é a chamada dicotomia — a idéia de que o homem consiste de corpo e alma. Esta visão tem sido mais largamente sustentada do que a tricotomia. Nossa rejeição de tricotomia significa que devemos optar pela dicotomia? Um número de teólogos afirma esta crença. Louis Berkhof, por exemplo, crê que “a representação dominante da natureza do homem na Escritura é claramente dicotômica”. [21]
É minha convicção, contudo, que nós deveríamos rejeitar tanto a dicotomia como a tricotomia. Como cristãos deveríamos certamente repudiar a dicotomia no sentido em que os antigos gregos a ensinaram. Platão, por exemplo, formulou a idéia de que o corpo e a alma devem ser tidos como duas substâncias distintas: a alma pensante, que é divina, e o corpo. Visto que o corpo é composto de substância inferior chamada matéria, ele é de um valor inferior à da alma. Na morte simplesmente o corpo se desintegra, mas a alma racional (ou nous) retorna “aos ceús”, se o seu curso de ação foi justo e honrado, e continua a existir para sempre. A alma é considerada uma substância superior, inerentemente indestrutível, enquanto que o corpo é inferior à alma, mortal, e condenado à destruição total. Não há no pensamento grego, portanto, lugar algum para a ressurreição do corpo. [22]
Mas mesmo à parte do entendimento grego da dicotomia, que é claramente contrário à Escritura, devemos rejeitar o termo dicotomia como tal, visto que ele não é uma descrição exata da visão bíblica do homem. A palavra em si mesma é objetável. Ela vem de duas raízes gregas: diche, significando “dupla” ou “em duas”; e temnein, significando “cortar”. Ela, portanto, sugere que a pessoa humana pode ser cortada em duas “partes”. Mas o homem nesta presente vida não pode ser separado dessa maneira. Como veremos, a Bíblia descreve a pessoa humana como uma totalidade, um todo, um ser unitário.
O melhor modo de determinar a visão bíblica do homem como uma pessoa total é examinar os termos usados para descrever os vários aspectos do homem. Antes de fazer isso, contudo, duas observações devem ser feitas: (1) Como foi dito, a preocupação primária da Bíblia não é a constituição psicológica ou antropológica do homem mas a sua capacidade inescapável de relacionar-se com Deus; e (2) devemos sempre Ter em mente que J. A. T. Robinson diz a respeito do uso que o Antigo Testamento faz destes termos: “Qualquer parte pode ser tomada pelo todo”, [23] e o que G. E. Ladd afirma a respeito do uso que o Novo Testamento faz dessas palavras: “A recente erudição tem reconhecido que termos como corpo, alma e espírito não são diferentes, faculdades separadas do homem mas diferentes modos de ver a totalidade do homem.” [24]
Com isto em mente, nós trataremos primeiro das palavras do Antigo Testamento e, então com as encontradas no Novo Testamento.
As Palavras do Antigo Testamento
Começamos com a palavra hebraica nephesh, mais comumente traduzida como “alma”. O léxico Hebraico de Brown, Driver e Briggs [25] dá dez significados para essa palavra, da qual os mais importantes para o nosso propósito são: “o ser mais interior do homem”, “o ser vivo” (usado a respeito de homens e animais), [26] “o homem em si mesmo” (freqüentemente usado como um pronome pessoal: eu mesmo, ele mesmo, etc.; neste sentido pode significar o homem como um todo), “o lugar dos apetites”, “o assento das emoções”. A palavra pode, algumas vezes, se referir a uma pessoa falecida, com ou sem meth (“morta”). É algumas vezes dito que a nephesh morre.
Está claro, portanto, que a palavra nephesh pode significar a pessoa total. Edmond Jacob diz o seguinte: “Nephesh é o termo usual para a natureza total do homem, para o que ele é e não apenas pelo que tem... Por isso a melhor tradução em muitos casos é ‘pessoa’”. [27]
A palavra hebraica seguinte é ruach, usualmente traduzida como “espírito”. O significado da raíz desta palavra é “ar em movimento”; ela é freqüentemente usada para descrever o vento. Brown-Driver-Briggs listam nove significados, incluindo os seguintes: “espírito”, “animação”, “disposição”, “espírito de vida e ser que respira morando na carne de homens e animais” (somente um exemplo deste último: Ec 3.21), “assento das emoções”, “órgão de atos mentais”, “órgão da vontade”. Ruach, portanto, sobrepõe-se em significado a nephesh. W. D. Stacey diz:
Quando a referência é feita ao homem em sua relação com Deus, ruach é o termo mais provável para ser usado..., mas quando referência é feita ao homem em relação a outros homens, ou o homem vivendo a vida comum dos homens, então nephesh é mais provável, se um termo psíquico é exigido. Em ambos os casos a totalidade do homem está envolvida. [28]
Portanto, não deve ser pensado de ruach como um aspecto separado do homem, mas como a pessoa total vista de determinada perspectiva.
Olhamos a seguir para as palavras do Antigo Testamento usualmente traduzidas como “coração”: lebh e lebhabh. Brown-Driver-Briggs dá dez significados para estas duas palavras, incluindo os seguintes: “o homem mais interior ou alma”, “mente”, “resoluções da vontade”, “consciência”, “caráter moral”, “o homem em si mesmo”, “o lugar dos apetites”, “o assento das emoções”, “o assento da coragem”. F. H. Von Meyenfeldt, em seu estudo final da palavra, conclui que lebh ou lebhabh usualmente representa a pessoa total e tem uma significação predominantemente religiosa. [29]
A palavra coração não somente é usada no Antigo Testamento para descrever o assento do pensamento, do sentimento e da vontade; é também a sede do pecado (Gn 6.5; Sl 95.8, 10; Jr 17.9), a sede da renovação espiritual (Dt 30.6; Sl 51.10; Jr 31.33; Ez 36.26), e o lugar da fé (Sl 28.7; 112.7; Pv 3.5).
Mais do que qualquer outro termo do Antigo Testamento, a palavra coração significa o homem no mais profundo centro de sua existência, e como ele é no mais profundo do seu ser. Herman Dooyeweerd, o filósofo holandês, entendeu o coração na Escritura como sendo “a raiz religiosa da existência total do homem”. [30] A filosofia que ele desenvolveu enfatiza que o coração é o centro e a fonte de toda a atividade religiosa, filosófica e moral do homem. Ray Anderson chama o coração de “o centro do eu subjetivo”. Ele é “a unidade do corpo e da alma na verdadeira ordem deles — ele é a pessoa”. [31]
Todos esses três termos examinados do Antigo Testamento, portanto, descrevem o homem em sua unidade e totalidade, embora olhando-o de aspectos ligeiramente diferentes. H. Wheeler Robinson comenta: “Não é possível fazer uma diferenciação exata das províncias cobertas pelo ‘coração’, nephesh e ruach, pela simples razão de que tal diferenciação exata nunca foi feita.” [32]
A próxima palavra é basar, usualmente traduzida como “carne”. Brown-Driver-Briggs lista seis significados, incluindo os seguintes: “”carne” (para o corpo), “parentesco de sangue”, “homem contra Deus como fraco e errante”, “raça humana”. N. P. Bratsiotis diz que basar é mais freqüentemente usado no Antigo Testamento para “o aspecto externo e carnal da natureza humana”. [33] Ele continua a dizer que quando basar é distinto do aspecto externo do homem e nephesh é entendido como sendo o aspecto interno, mesmo assim nunca devemos pensar destas palavras como descrevendo um dualismo de alma e corpo no sentido platônico.
Ao contrário, basar e nephesh devem ser entendidos como aspectos diferentes da existência do homem como uma entidade dual. É precisamente esta totalidade antropológica enfática que é determinante para a natureza dual do ser humano. Ela exclui qualquer noção de uma dicotomia entre basar e nephesh...como irreconciliavelmente opostos uma a outra, e revela o relacionamento psico-somático mútuo entre elas. [34]
A palavra basar é freqüentemente usada para descrever o homem em sua fraqueza. H. W. Wolff observa que freqüentemente basar descreve a vida humana como débil e fraca, dando como exemplo deste uso Jeremias 17.5 – “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço”. [35]
Basar pode algumas vezes denotar a pessoa total, não apenas o aspecto físico. [36] Mas ela pode também ser juntada com nephesh em maneiras que referem ao homem total. Clarence B. Bass, comentando as palavras do Antigo Testamento para “corpo”, afirma:
Corpo e alma são usados quase que indistintamente, sendo que a alma indica o homem como um ser vivo, e corpo (carne) denota-o como uma criatura corporalmente visível...Esta unidade de corpo e alma [tem] conduzido alguns escritores a concluir que o Antigo Testamento carece de uma idéia do corpo físico como uma entidade discreta...Mais propriamente, contudo, o Antigo Testamento vê o corpo e a alma como coordenadas que se interpenetram em funções para formar um todo simples. [37]
Basar, portanto, também é freqüentemente usado no Antigo Testamento para denotar a pessoa total, embora com ênfase no lado exterior.
Assim, o mundo do pensamento do Antigo Testamento exclui totalmente qualquer espécie de dicotomia ou dualismo que pinte o homem como feito de duas substâncias distintas. Como H. Wheeler Robinson diz, “a ênfase final deve cair sobre o fato de que os quatro termos [nephesh, ruach, lebh e basar]...simplesmente apresentam aspectos diferentes da unidade da personalidade.” [38]
As Palavras do Novo Testamento
A primeira palavra do Novo Testamento que examinaremos é psyche, a palavra grega equivalente a nephesh, usualmente traduzida como “alma”. O léxico do Novo Testamento Grego de Arndt-Gingrich lista um número de significados para esta palavra, alguns dos quais são: “princípio de vida”, “vida terreal”, “assento da vida mais interior do homem” (incluindo sentimentos e emoções), “a sede e o centro da vida que transcende o que é terreno”, “aquilo que possui vida: uma criatura viva” (plural, pessoas). [39]
Eduard Schweizer afirma que psyche é usado freqüentemente nos Evangelhos para descrever o homem total, [40] para representar a verdadeira vida em distinção da vida puramente física, [41] e para referir-se à existência dada por Deus que sobrevive à morte. [42] Schweizer diz que Paulo usa psyche quando se refere à vida natural e à vida verdadeira; ele freqüentemente usa a palavra para descrever a pessoa. [43] No Livro do Apocalipse psyche pode ser usada para denotar a vida após a morte (como em 6.9). [44] Está claro, portanto, que psyche, como nephesh, freqüentemente significa a pessoa total.
Agora nos voltamos para a palavra pneuma, o equivalente do Novo Testamento a ruach, que quando se refere ao homem é mais usualmente traduzida como “espírito”. O léxico de Arndt-Gingrich dá oito significados, incluindo os seguintes: “o espírito como parte da personalidade humana”, “o ego de uma pessoa”, “uma disposição ou estado de mente”. Schweizer diz que Paulo usa pneuma para as funções físicas do homem, que ele é freqüentemente um paralelo de psyche, e que pode denotar o homem como um todo, com ênfase mais forte sobre o seu psíquico do que sobre a sua natureza física. [45]
George Ladd, numa discussão da psicologia paulina, diz-nos que no pensamento de Paulo o homem serve a Deus com o espírito e experimenta a renovação no espírito. Paulo algumas vezes contrasta o pneuma com o corpo como a dimensão mais interior em contraste com lado exterior do homem (2 Co 7.1; Rm 8.10). Pneuma pode descrever a auto-consciência do homem( 1 Co 2.11). [46] W. D. Stacey argumenta que Paulo não vê o pneuma como algo que somente o regenerado tem: “Todos os homens têm pneuma desde o nascimento, mas o pneuma cristão, na comunhão com o Espírito de Deus, assume um novo caráter e uma nova dignidade” (Rm 8.10). [47]
É interessante observar que pneuma pode se referir à vida após a morte. Como já vimos, Hebreus 12.23 descreve santos mortos como “os espíritos dos justos aperfeiçoados”, e ambos, Cristo (Lc 23.46) e Estevão (At 7.59), como moribundos encomendando seus espíritos a Deus o Pai ou Deus o Filho. Cristo é também dito ter pregado aos “espíritos em prisão”, obviamente se referindo a pessoas falecidas (1 Pe 3.19).
Pneuma também é em grande parte sinônimo de psyche, as duas palavras freqüentemente usadas indistintamente no Novo Testamento. Ladd, contudo, sugere uma distinção entre elas: “O espírito é freqüentemente usado a respeito de Deus; a alma nunca é usada dessa forma. Isto sugere que pneuma representa o homem em seu lado voltado para Deus, enquanto que psyche representa o homem em seu lado humano.” [48] Em geral, eu concordo com isto, mas há duas exceções. Por exemplo, a psyche é descrita algumas vezes como louvando e magnificando o Senhor (Lc 1.46), e Tiago nos diz a respeito da palavra em nós implantada que é capaz de salvar as nossas almas (psychas, Tg 1.21). Pneuma, está claro, pode ser usado como designativo da pessoa total; como psyche, ele descreve um aspecto do homem em sua totalidade.
A próxima palavra que olharemos é kardia, a palavra do Novo Testamento equivalente a lebh e lebhabh, usualmente traduzida como “coração”. Arndt-Gingrich dá o seguinte sentido principal da palavra: “a sede da vida física, espiritual e mental”. Ele é também descrito como o centro e a fonte da totalidade da vida mais interior do homem, com seu pensamento, sentimento e vontade. O coração é também dito ser o lugar de morada do Espírito Santo.
Johannes Behm semelhantemente descreve o coração no Novo Testamento como o principal órgão da vida psíquica e espiritual, o lugar no ser humano no qual Deus testemunha de si mesmo. O coração é o centro da vida mais interior de uma pessoa: de seus sentimentos, entendimento, e vontade. O coração significa a totalidade do ser interior do homem, a parte mais profunda dele; ele é sinônimo de ego, a pessoa. Kardia é supremamente o centro no homem para o qual Deus se volta, no qual a vida religiosa está enraizada, e que determina a conduta moral. [49]
Anteriormente já observamos que lebh no Antigo Testamento é também usado para indicar o coração como a sede do pecado, a sede da renovação espiritual e o lugar da fé. Isto também é verdade de kardia. Além disso, podemos observar que as outras virtudes cristãs são descritas como kardia. O amor é associado com o coração em 2 Tessalonicenses 3.5 e 1 Pedro 1.22. A obediência é ligada ao coração em Romanos 6.17 e em Colossenses 3.22. O perdão é associado ao coração em Mateus 18.35. O coração é ligado com humildade em Mateus 11.29, e é descrito como o assento da pureza em Mateus 5.8 e Tiago 4.8. A gratidão é associada com o coração em Colossenses 3.16, e a paz é dita guardar o coração em Filipenses 4.7.
Em uma seção de sua Dogmatics na qual ele trata com “o homem como alma e corpo”, Karl Barth, falando do coração no Novo e no Antigo Testamentos, diz:
Se fôssemos verdadeiros com os textos bíblicos deveríamos dizer do coração que ele é in nuce o homem total em si mesmo, e, portanto, não somente o locus de sua atividade mas de sua essência...Assim, o coração não é meramente uma realidade mas a realidade do homem, ambos – da totalidade da alma e da totalidade do corpo. [50]
Assim, novamente aqui vemos a ênfase bíblica na totalidade do homem. Kardia significa a pessoa total em sua essência mais interior. No coração a atitude básica do homem para com Deus é determinada, seja de fé ou de incredulidade, de obediência ou de rebelião.
Embora estritamente falando o Antigo Testamento não tenha uma palavra para corpo, ele usa basar para descrever o aspecto físico do homem, sua carne. No Novo Testamento há duas palavras para corpo: sarx e soma. Arndt-Gringrich lista oito significados para sarx, usualmente traduzidos como “carne”; entre outros significados estão: “corpo”, “um ser humano”, “natureza humana”, “limitação física”, “o lado exterior da vida”, e “o instrumento desejoso do pecado” (particularmente nos escritos de Paulo).
Sarx no Novo Testamento, então possui dois significados principais: (1) o aspecto externo, físico da existência do homem — neste sentido ele pode ser usado do homem como um todo; e (2) carne como a tendência dentro do homem caído para desobedecer a Deus em todas as áreas da vida. [51] Neste segundo sentido, encontrado principalmente nas epístolas de Paulo, não devemos restringir o sentido de sarx como se referindo somente ao que usualmente chamamos de “pecados da carne” (pecados do corpo); ao contrário, deveríamos entendê-lo como referindo-se aos pecados cometidos pela pessoa total. Na lista das “obras da carne” (ta erga tes sarkos) encontrada em Gálatas 5.19-21, onde cinco de quinze dizem respeito aos pecados do corpo; o restante diz respeito ao que chamamos de “pecados do espírito”— como ódio, discórdia, ciúme, e que tais. Assim, mesmo quando a palavra sarks é usada neste segundo sentido, ela diz respeito à pessoa total, e não apenas a uma parte dela.
Agora nos voltamos para a palavra soma, usualmente traduzida como “corpo”. Arndt-Gingrich dá cinco significados, incluindo os seguintes: “o corpo vivo”, “o corpo da ressurreição”, e “a comunidade cristã ou igreja”. Clarence B. Bass, num artigo sobre o corpo nas Escrituras, também lista cinco definições da palavra soma: “a pessoa total como uma entidade diante de Deus”, “o locus do espiritual no homem”, “o homem total como destinado para a membrezia no reino de Deus”, “o veículo para a ressurreição”, e “o lugar do teste espiritual em termos do qual o julgamento acontecerá”. [52] Ele chega à seguinte conclusão:
Assim, está claro que o corpo é usado para representar a totalidade do homem, e milita contra qualquer idéia da visão bíblica do homem como existindo à parte da manifestação corporal, a menos que seja durante o estado intermediário [que é, o estado entre a morte e a ressurreição]. [53]
Podemos resumir nossa discussão das palavras bíblicas usadas para descrever os vários aspectos do homem, como segue: o homem deve ser entendido como um ser unitário. Ele tem um lado físico e um lado mental ou espiritual, mas não devemos separar esses dois. A pessoa humana deve ser entendida como uma alma corporificada ou um corpo “espiritualizado” (“animado”). [54] A pessoa humana deve ser vista em sua totalidade, não como uma composição de diferentes “partes”. Este é o ensino claro de ambos os Testamentos. [55]
Unidade PsicosomÁtica
Embora a Bíblia veja o homem como uma totalidade, ela também reconhece que o ser humano possui dois lados: o físico e o não-físico. Ele possui um corpo físico, mas ele também é uma personalidade. Ele tem uma mente com a qual ele pensa, mas também um cérebro que é parte do seu corpo, e sem o qual ele não pode pensar. Quando as coisas andam errada com ele, é necessária uma cirurgia, mas outras vezes ele pode precisar de um aconselhamento. O homem é uma pessoa que pode, contudo, ser vista de dois ângulos.
Como, então, haveremos de expressar esses “dois lados” do homem? Já observamos as dificuldades relacionadas com o termo dicotomia. Alguns tem falado de um dualismo, [56] enquanto outros preferem o termo dualidade, fazendo maior justiça à unidade do homem. Berkouwer, por exemplo, explica que “a dualidade e o dualismo não são idênticos de forma alguma, e...uma referência ao momento dual na realidade cósmica não implica necessariamente em dualismo.” [57] Semelhantemente, Anderson diz que “devemos fazer uma distinção entre uma ‘dualidade’ do ser no qual uma modalidade de diferenciação é constituída como uma unidade fundamental, e um ‘dualismo’ que opera contra essa unidade”. [58]
Minha preferência, contudo, é falar do homem como uma unidade psico-somática. A vantagem desta expressão é que ela faz plena justiça aos dois aspectos do homem, ao mesmo tempo em que enfatiza a sua unidade. [59]
Podemos ilustrar isto olhando para o relacionamento entre a mente e o cérebro. Reconhecendo que o homem deveria ser tido como uma unidade com muitos aspectos que constituem um todo indivisível, Donald M. MacKay faz três comentários significativos a respeito da relação entre mente e cérebro:
Nós não precisamos retratar a ‘mente’ e o ‘cérebro’ como duas espécies ‘substâncias” que se interagem. Não precisamos pensar dos eventos mentais e dos eventos cerebrais como dois conjuntos distintos de eventos...Parece-me suficientemente melhor descrever os eventos mentais e seus eventos cerebrais correlatos como os aspectos “interiores” e “exteriores” de uma e da mesma seqüência de eventos, que em sua plena natureza são mais ricos — tem mais para eles — do que pode ser expresso tanto numa categoria mental como física, isoladamente. [60]
Nós os estamos considerando [minha experiência consciente e as obras do meu cérebro] como dois aspectos igualmente reais de uma e da mesma unidade misteriosa. O observador externo vê um aspecto, como um padrão físico da atividade cerebral. O próprio agente conhece um outro aspecto como sua experiência consciente...O que estamos dizendo é que estes aspectos são complementares. [61]
O homem, então, existe num estado de unidade psico-somática. Assim, fomos criados, assim somos agora, e assim seremos após a ressurreição do corpo. Porque a redenção plena inclui a redenção do corpo (Rm 8.23; 1 Co 15.12-57), visto que o homem não é completo sem o corpo. O futuro glorioso dos seres humanos em Cristo inclui ambos, a ressurreição do corpo e uma nova terra purificada e aperfeiçoada. [62]
O Estado IntermediÁrio
Agora, enfrentaremos uma pergunta importante: O que dizer a respeito do período entre a morte e a ressurreição, o chamado “estado intermediário”? Quando uma pessoa morre, o que acontece? Visto que alguém não é completo sem o corpo, então uma pessoa cessa de existir até ao tempo da ressurreição? Ou ela “existe” num estado completamente inconsciente? Ou imediatamente após a morte recebe a ressurreição do corpo? Ou ela recebe uma espécie de corpo intermediário, para ser substituído mais tarde por um corpo ressuscitado?
A idéia de que o homem cessa de existir entre a morte e a ressurreição, sustentada pelas Testemunhas de Jeová e pelos Adventistas do Sétimo Dia, deve ser rejeitada como não-bíblicas. [63] A idéia de que após a morte as pessoas recebem imediatamente corpos “intermediários” também não encontra base nas Escrituras. O contraste no Novo Testamento é sempre entre o corpo presente e o corpo ressuscitado (cf. Fp 3.21; 1 Co 15.42-44). Os aderentes dessa idéia, às vezes, citam 2 Coríntios 5.1 para provar que receberemos tais corpos “intermediários”: “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus.” Mas esta passagem fala a respeito da casa eterna no céu. Se tivéssemos que entender esta “casa eterna” como se referindo a um novo corpo, ela não designaria um corpo “intermediário”, temporário. [64]
Uma outra idéia, usualmente chamada de “sono da alma”, é a de que o homem, ou sua “alma” , existe num estado inconsciente entre a morte e a ressurreição. Esta idéia tem sido sustentada por vários grupos cristãos. João Calvino escreveu sua primeira obra teológica, Psychopannychia, para combater os ensinos do sono-da-alma sustentados pelos anabatistas da sua época. [65] Mais recentemente, esta posição tem sido defendida por G. Vander Leeuw, [66] Paul Althaus [67] e Oscar Cullmann. [68]
Herman Dooyeweerd, rejeitando a dicotomia alma-corpo, afirma um novo entendimento dos dois aspectos do homem: coração e “função de capa” (functie-mantel), sendo este último termo relativo ao corpo, que é a totalidade de sua existência temporal e a estrutura inteira de todas as suas funções temporais. [69] O coração e a função-de-capa não devem ser entendidos como duas substâncias distintas dentro do ser humano, mas ao contrário, como descrevendo o homem em sua totalidade unitária.
Mas isto não responde à nossa pergunta sobre o que acontece ao ser humano entre a morte e a ressurreição. Quando a Dooyeweerd foi perguntado: Que espécie de funções podem ainda ser deixadas para a “alma” (anima rationalis separata, alma racional separada) quando ela separada de sua conjunção temporal com as funções pre-psíquicas [70] (i.e., pós a morte), sua resposta foi: “Nada” (niets!). [71] Em sua resposta, contudo, Dooyeweerd
Não nega a existência continuada da alma após a morte, nem ele apresenta o estado da alma desincorporada como sendo de inconsciência. Todavia, por privar a alma de suas funções temporais, ele parece deixar somente o mais indefinido dos aspectos no lugar das almas racionais desincorporadas. [72]
No mesmo raciocínio, Berkouwer afirma que nós não deveríamos concluir da “negativa” de Dooyeweerd de que ele rejeita a idéia da comunhão com Cristo após a morte. [73]
Quando Dooyeweerd pronunciou o seu “nada!”, ele estava respondendo a uma questão a respeito de uma idéia do homem que ele próprio não subscrevia: a de que o homem possuía duas “partes” separadas, um corpo mortal inferior e uma “alma racional” superior, indestrutível e imortal — o ensino dos filósofos gregos antigos. Assim, nós não seríamos justos com Dooyeweerd se aplicássemos suas palavras ao seu próprio entendimento do estado intermediário. Não obstante, devemos admitir que a afirmação é enigmática. Ela tem conduzido muitas a levantar questões a respeito da posição de Dooyeweerd a respeito do estado dos crentes entre a morte e a ressurreição. [74]
O ensino central da Bíblia a respeito do futuro do homem é o da ressurreição do corpo. Mas o Novo Testamento indica que o estado dos crentes entre a morte e a ressurreição é o de alegria provisória, expressa no dito de Paulo de ser “incomparavelmente melhor” do que o estado aqui na terra (Fp 1.23). Se isto é assim, a condição dos crentes durante o estado intermediário não pode ser um estado de não-existência ou de inconsciência.
Algumas vezes o Novo Testamento simplesmente diz que o crente continuará a existir neste estado de alegria provisória:
Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e de outro lado estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. (Fp 1.22-23)
Jesus, respondendo ao pecador penitente, disse: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso. (Lc 23.43)
Temos, portanto, sempre ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor; visto que andamos por fé, e não pelo que vemos. Entretanto estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor. (2 Co 5.6-8)
Na passagem aos Filipenses Paulo contrasta “o viver na carne” com “partir e estar com Cristo”, sugerindo claramente que é possível para uma pessoa não mais estar vivendo no presente corpo e, todavia, estar com Cristo — um estado que é muito melhor que o presente estado. Particularmente significativo neste ponto é a passagem de 2 Coríntios, onde Paulo contrasta o “enquanto no corpo” (endemountes en to somati) com o estar “ausente do corpo” (ekdemesai ek tou somatos). Se Paulo tivesse pretendido descrever a bênção do crente após a ressurreição, ele poderia Ter usado uma expressão como “ausentes deste corpo”, sugerindo que os crentes então estariam “habitando” um novo corpo. Mas ele simplesmente “ausentes do corpo”, dizendo aos seus leitores que ele está pensando de uma existência entre o corpo presente e o corpo da ressurreição. Observe que, em ambas as passagens, Paulo afirma que é possível para os crentes estarem com Cristo, mesmo quando eles não mais vivem em seus presentes corpos e antes deles receberem seus corpos ressuscitados.
Em outras vezes, contudo, o Novo Testamento usa as palavras “alma” (psyche) ou “espírito” (pneuma) para se referir aos crentes enquanto eles continuam a existir entre a morte e a ressurreição. A palavra “alma” é usada nas seguintes passagens:
Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma” (Mt 10.28).
Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam (Ap 6.9).
A palavra “espírito é usada nos seguintes textos:
Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados. (Hb 12.22-23)
Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais noutro tempo foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através da água. (1 Pe 3.18-20)
Assim, às vezes, o Novo Testamento diz que nós que somos crentes, continuaremos a existir num estado provisório de alegria entre a morte e a ressurreição, enquanto que em outras vezes ele diz que as “almas” ou “espíritos” dos crentes ainda existirão durante aquele estado. Mas a Bíblia não usa palavras como “alma” e “espírito” no mesmo modo que nós o fazemos; dessa forma, estas passagens estão pretendendo tão somente nos dizer que os seres humanos continuarão a existir entre a morte e a ressurreição, enquanto esperam a ressurreição do corpo. A Bíblia não nos dá qualquer descrição antropológica da vida nesse estado intermediário. Podemos especular a respeito dela, podemos tentar imaginar a que esse estado será, mas não podemos formar nenhuma idéia clara da vida entre a morte e a ressurreição. A Bíblia ensina sobre ela, mas não a descreve. Como Berkouwer diz, o que o Novo Testamento nos conta a respeito do estado intermediário não é nada mais do que um sussurro. [75]
Embora o homem exista agora no estado de unidade psico-somática, esta unidade poderá ser temporariamente rompida no tempo da morte. Em 2 Coríntios 5.8 Paulo ensina claramente que os seres humanos podem existir à parte de seus corpos presentes. O mesmo ponto é assinalado em duas outras passagens do Novo Testamento:
A fim de que sejam os vossos corações confirmados em santidade, isentos de culpa, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, com todos os seus santos. (1 Ts 3.13)
Pois se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará juntamente em sua companhia os que dormem. (1 Ts 4.14)
Ambos os textos falam a respeito dos “santos” e “daqueles que dormem com Cristo”, como existindo após a morte e antes da ressurreição — observe que a ressurreição daqueles que dormiram em Cristo é mencionada mais tarde em 1 Tessalonicenses 4.16. [76] Pode ser observado também que neste verso a expressão “mortos em Cristo” claramente sugere que os crentes falecidos ainda estão em algum estado de existência antes da ressurreição.
O estado normal do homem é o da unidade psico-somática. No tempo da ressurreição ele será restaurado plenamente ao da unidade e, assim, uma vez mais, será tornado completo. Mas nós devemos reconhecer que, segundo o ensino bíblico, os crentes podem existir temporariamente num estado de alegria provisória, mesmo fora de seus corpos presentes durante o “tempo” entre a morte e a ressurreição. Este estado intermediário e, contudo, incompleto e provisório. Nós anelamos para a ressurreição do corpo e a nova terra como o clímax final do programa redentor de Deus.
ImplicaÇÕes PrÁticas
O entendimento do homem como uma pessoa total, como foi desenvolvido neste capítulo, tem importantes implicações práticas.
Primeira, a igreja deve estar preocupada com a pessoa total. Em sua pregação e em seu ensino a igreja deve dirigir-se não somente às mentes daqueles a quem ela serve, mas também às suas emoções e suas vontades. A pregação que meramente comunica informação intelectual a respeito de Deus ou da Bíblia está seriamente inadequada; os ouvintes devem ser despertados em seus corações e movidos a louvar a Deus. Os professores na escola dominical devem fazer mais do que simplesmente dar aos alunos uma rota de “conhecimento” versos da Bíblia ou das afirmações doutrinárias; seu ensino deve exigir uma resposta que envolva todos os aspectos da pessoa. Os programas da igreja para a juventude não deveria negligenciar o corpo; os esportes e as atividades externas deveriam ser encorajadas como um aspecto da vida cristã globalizada.
Em sua tarefa evangelista e missionária, a igreja deveria lembrar-se também que ela está tratando com pessoas completas. Embora o propósito principal de missões seja confrontar as pessoas com o evangelho, de forma que elas possam se arrepender de seus pecados e serem salvas através da fé em Cristo, todavia a igreja nunca deve se esquecer que os objetos de sua empreitada missionária têm necessidades tanto físicas quanto espirituais. Com isto em mente, o fato de que o homem é um ser unitário, deveríamos evitar expressões como “salvar a alma” quando descrevendo a tarefa do missionário, e deveríamos optar por uma abordagem holística ou abrangente em missões. Esta abordagem, que algumas vezes é conhecida como “o ministério da palavra e das ações”, direciona o missionário a estar preocupado não somente a respeito de ganhar convertidos para Cristo, mas também em melhorar as condições de vida desses convertidos e seus vizinhos, trabalhando em áreas como agricultura, dietética e saúde. O estabelecimento de escolas para a educação cristã dos nacionais e a manutenção de clínicas e hospitais tanto para o cuidado da saúde rotineira como da emergencial, entretanto, não deve ser considerado como estranho à província da atividade missionária da igreja, mas como um aspecto essencial dela. Arthur F. Glasser, ex-deão da Escola de Missões Mundiais do Seminário Teológico Fuller (California), diz que na tarefa como missionários cristãos,
O desenvolvimento da fé individual e interior deve ser acompanhado por uma obediência solidária e exterior ao mandato cultural extensamente detalhado na Santa Escritura. O mundo deve ser servido, não evitado. A justiça social deve ser promovida, e as questões de guerra, racismo, pobreza e desequilíbrio econômico devem se tornar uma preocupação ativa e participativa daqueles que professam crer em Jesus Cristo. Não é suficiente que a missão cristã seja redentora; ela também deve ser profética. [77]
A escola deveria também estar preocupada a respeito da pessoa total. Embora um dos principais propósitos da escola seja a instrução intelectual, o professor nunca deveria esquecer que o aluno que está ensinando é uma pessoa total. A escola, portanto, não deveria treinar apenas a mente, mas deveria apelar para as emoções e vontade, visto que o ensino eficaz deve produzir no aluno tanto o amor pela matéria como um desejo de aprender mais a respeito dela. Além disso, as escolas deveriam evidenciar uma preocupação pelo corpo assim como pela mente. Os esportes de espectadores, no qual poucos jogam e muitos meramente observam, têm o seu lugar, mas muito mais importante para o corpo discente como um todo é um bom programa de educação física, com uma ênfase nos esportes de jogos internos que envolvam todos os estudantes.
O conceito da pessoa total tem também implicações para a vida de família. Os pais crentes ficarão preocupados em ensinar a seus filhos a respeito de Deus, em treiná-los na vida cristã, e a discipliná-los em amor quando carecem disto. Mas os pais devem também estar preocupados a respeito de assuntos como uma dieta saudável e própria para o cuidado do corpo. Está sendo cada vez mais reconhecido hoje que um programa regular de exercício físico é essencial para uma boa saúde; os pais, portanto, deveriam tentar ensinar a seus filhos o cuidado do corpo, não somente por preceito mas também pelo exemplo.
Além disso, o conceito da pessoa total tem implicações para a medicina. Em reconhecimento do fato de que o homem é uma unidade psico-somática, a ciência médica desenvolveu recentemente uma abordagem chamada medicina holística. [78] A medicina holística tem sido definida como “um sistema de saúde que enfatiza a responsabilidade pessoal para a própria saúde e empenha-se por um relacionamento cooperativo entre todos os envolvidos em proporcionar cuidados de saúde.” [79] Os praticantes da saúde holística “enfatizam a necessidade da busca pela pessoa total, incluindo condição física, nutrição, maquiagem emocional, estado espiritual, valores de estilo de vida e ambiente.” [80]
Num livro fascinante entitulado Anatomy of an Illness (“Anatomia de uma Doença”) Norman Cousins faz um comentário de que um dos aspectos mais importantes na recuperação de uma doença está na “vontade de viver”: “A vontade de viver não é uma abstração teórica, mas uma realidade fisiológica com características terapêuticas.” [81] Cousins relata que centenas de médicos lhe têm dito que “nenhum remédio que eles podem dar aos pacientes foi tão potente como o estado de alma que um paciente traz para sua própria doença.” [82] Segundo Cousins, nos exercícios de graduação da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins em 1975, o Dr. Jerome D. Frank disse aos graduandos “que qualquer tratamento de uma doença que não ministre também ao espírito humano é grosseiramente deficiente.” [83] A Conclusão é clara: A cura e a manutenção da saúde física envolve a pessoa total. Médicos, enfermeiras, pastores e pacientes devem sempre ter isto em mente. [84]
Finalmente, o conceito da pessoa total tem implicações importantes para a psicologia e para o aconselhamento. Estudos recentes de psicologia têm levado a uma nova ênfase na totalidade do homem — uma ênfase que é chamada algumas vezes de “teoria organísmica”. [85] Hall and Lindzey afirmam que a nova ênfase em psicologia sobre a pessoa total é uma reação contra o dualismo mente-corpo, a psicologia das faculdade, e o behaviorismo (comportamentalismo). Esta nova ênfase, eles dizem, tem sido grandemente aceita:
Quem há em psicologia hoje que não seja um proponente dos principais princípios da teoria organísmica que o total é algo além da soma de suas partes, que o que acontece a uma parte acontece ao todo, e que não há nenhum compartimento separado dentro do organismo? [86]
Os conselheiros devem lembrar-se também do fato de que o homem é uma pessoa total. Eles deveriam ser treinados a reconhecer os problemas que requerem a especialidade de outros além de si mesmos, e deveriam encaminhar seus aconselhandos, quando necessário, a médicos e psiquiatras. Os problemas mentais não deveriam ser tidos como totalmente distintos dos problemas físicos, porque nenhum tipo de problema está sempre separado do outro. Visto drogas anti-depressivas podem curar certos tipos de depressão, um conselheiro sábio fará uso desses meios. Pacientes que possuem problemas muito profundos, de fato, podem mais eficazmente ser curados através de esforços combinados de uma equipe terapêutica, consistindo, talvez, de um psicólogo, um assistente social, um médico e um psiquiatra. [87]
O conselheiro não deveria pensar de uma saúde mental e espiritual como coisas totalmente separadas. Visto que o homem é uma pessoa total, o espiritual e o mental são aspectos de uma totalidade, de forma que cada aspecto influencia e é influenciado pelo outro. Howard Clinebell diz o seguinte: “A saúde espiritual é um aspecto indispensável da saúde mental. Os dois podem estar separados somente numa base teórica. Nos seres humanos vivos, a saúde espiritual e mental estão inseparavelmente entrelaçadas.” [88]
Algumas vezes o conselheiro pastoral pode pensar que a mera
citação dos versos da Bíblia pode ser tudo o de que necessita para ajudar o membro da igreja a resolver um difícil problema espiritual. Mas um entendimento do homem como uma pessoa total conduz-nos a perceber que tal abordagem pode ser totalmente inadequada. David G. Benner, num artigo no qual ele desafia a opinião comum de que a personalidade humana pode ser dividida em duas partes, uma “parte” espiritual e uma psicológica, ilustra seu ponto da seguinte maneira:
A tentação, portanto, de rotular a dificuldade de uma pessoa em aceitar o perdão de Deus de seus pecados como um problema espiritual deve ser resistido a fim de deixar o conselheiro muitíssimo aberto para tratar com ambos os aspectos, psicológico e espiritual, daquele problema. Assumir natureza espiritual essencial e proceder por meio de uma apresentação explícita de certas verdades bíblicas é esquecer que o perdão, esteja ele sendo dado ou recebido, é mediado por processos psico-espirituais da personalidade e, portanto, esses outros fatores psicológicos podem também estar envolvidos e outras técnicas sejam apropriadas. [89]
O conselheiro cristão, portanto, deveria ver os problemas de seus aconselhandos como problemas da pessoa total. Ele deveria não somente tratar com o aconselhando como uma pessoa total, mas deveria também tentar restaurá-lo à sua totalidade, que é a marca de uma vida saudável e piedosa. [90]
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NOTAS:
[1] G. C. Berkouwer, De Mens het Beeld Gods (Kampen: Kok, 1957), p. 211. Cf. Ray S. Anderson, On Being Human (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), p. 213.
[2] John A. T. Robinson, The Body (London: SCM Press, 1952), p. 16.
[3] A System of Biblical Psychology, (Edinburgh: T & T Clark, 1867), p. 16.
[4] Bijbelsche en Religieuze Psychologie (Kampen: Kok, 1920), p. 13.
[5] Man, p. 195.
[6] Ver acima, p. 75-82 (texto em inglês)
[7] Ver acima, p. 34-35 (texto em inglês).
[8] Ver Louis Berkhof, History of Christian Doctrines (Grand Rapids: Eerdmans, 1937), p. 106-107; J. L. Neve, A History of Christian Thought (Philadelphia: United Lutheran Publication House, 1943), p. 126; Anderson, On Being Human, p. 207-8.
[9] Man, p. 209. Ver também o comentário de A. Grillmeier citado em n.20. Dichotomy é a idéia de que o homem deve ser entendido como consistindo de duas “partes”, corpo e alma.
[10] J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines (London: Black, 1958), p. 292.
[11] System of Biblical Psychology, pp. Vii, 247-66.
[12] The Tripartite Nature of Man (Edinburgh: T & T Clark, 1866).
[13] Outlines of Biblical Psychology, (Edinburgh: T & T Clark, 1877), p. 38.
[14] Theology of the Old Testament, edit. G. E. Day (1873; Grand Rapids: Zondervan), 149-51.
[15] The Release of the Spirit (Indianapolis: Sure Foundation, 1956), 6.
[16] The Handbook of Happiness (Denver: Heritage House Publications, 1971), 28; ver também p. 27-58.
[17] Wilfred Brockelman, Gothard, The Man and his Ministry: An Evaluation (Santa Barbara: Quill Publications, 1976), 85-96.
[18] The Scofield Reference Bible (New York: Oxford University Press, 1909), no texto de 1 Ts 5.23; The New Scofield Reference Bible (New York: Oxford University Press, 1967) no texto de 1 Ts 5.23.
[19] Bijbelsche en Religieuze Psychologie, 53. Cf. TDNT, 6:395.
[20] Sobre a interpretação de Hb 4.12 e 1 Ts 5.23, ver Bavinck, Bijbelsche Psychologie, 58-59; Louis Berkhof, Teologia Sistemática (Campinas: Luz Para o Caminho, 199....), p.......; Berkouwer, Man, 210; Sobre Hb 4.12 ver também F. F. Bruce, The Epistle to the Hebrews, in the New International Commentary sobre a série do Novo Testamento (Grand Rapids: Eerdmans, 1964), 80-83; Para uma defesa do pensamento tricotômico, ver F. Delitzsch, The Epistle to the Hebrews, (Edinburgh: T. & T. Clark, 202-14, especialmente 212-14.
[21] Teologia Sistemática, p..........; cf ª H. Strong, Systematic Theology, vol. 2 (Philadelphia: Griffith and Rowland, 1907), 483-88; J. T. Mueller, Christian Dogmatics, (St. Louis: Concordia, 1934), 184; H. C. thiessen, Introductory Lectures in Systematic Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1949), 225-26; Gordon H. Clark, The Biblical Doctrine of Man (Jefferson, MD: The Trinity Foundation, 1984), 33-45.
[22] Cf o meu livro A Bíblia e o Futuro, (pp 86-87 edição em inglês). Sobre este ponto ver também Berkouwer, Man, 212-22.
[23] The Body, 16.
[24] G. E. Ladd, A Theology of the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1974), 457.
[25] Francis Brown, S. R. Driver, e Charle Briggs, Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (New York: Houghton Mifflin, 1907).
[26] Provavelmente o exemplo mais conhecido do uso dessa palavra se referindo ao homem seja Gn 2.7 – “Então formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente (nephesh chayyah)”.
[27] “Psyche”, TDNT, 9:620.
[28] The Pauline View of Man (London: Macmillan, 1956), 90.
[29] F. H. Von Meyenfeldt, Het Hart (Leb, Lebab) in het Oude Testament (Leiden: E. J. Brill, 1950), 218-19.
[30] Wijsbegeerte der Wetsidee, vol. 1 (Amsterdam: H. J. Paris, 1935), 30.
[31] On Being Human, 211.
[32] The Christian Doctrine of Man (Edinburgh: T. & T. Clark, 1911), 26.
[33] “Basar”, na obra de G. Johannes Botterweck e Helmer Ringgren, editores, Theological Dictionary of the Old Testament, (Grand Rapids: Eerdmans, 1977), p. 325.
[34] Ibid., 325.
[35] Anthropologie des Alten Testaments (Munich: Chr. Kaiser, 1973), 55.
[36] F. B. Knutson, “Flesh”, ISBE, 2.314.
[37] “Corpo”, ibid., 1:528-29. Observe também o comentário de J. Pedersen: “Alma e corpo [no uso do Antigo Testamento] são tão intimamente unidos que uma distinção não pode ser feita entre eles. Eles são mais do que ‘unidos’; o corpo é a alma em sua forma exterior” (Israel: Its Life and Culture, vol. 1 [London: Oxford University Press, 1926], 171).
[38] The Christian Doctrine of Man, 27.
[39] William F. Arndt e F. Wilbur Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: Univsersity of Chicago Press, 1957).
[40] “Psyche”, TDNT, 9:639.
[41] Ibid., 642.
[42] Ibid., 644.
[43] Ibid., 648.
[44] Ibid., 654.
[45] “Pneuma”, TDNT, 6:435.
[46] Ladd, A Theology of the New Testament, 461-63.
[47] The Pauline View of Man, 135.
[48] New Testament Theology, 459.
[49] “Kardia”, TDNT, 3:611-12.
[50] Church Dogmatics (Edinburgh: T. & T. Clark, 1960), III/2, 436.
[51] Um estudo mais antigo, embora competente, a respeito do significado de sarx nos escritos de Paulo é o de Wm. P. Dickson, St. Paul’s Use of the Terms Flesh and Spirit (Glasgow: Maclehose, 1883). Um estudo mais recente é o de J. A. Robinson, The Body (1952.
[52] “Body, ISBE, 1:529.
[53] Ibid.
[54] Barth, Church Dogmatics, III/2, 350.
[55] Em acréscimo aos estudos da visão bíblica sobre a pessoa total referida acima, podemos enumerar os seguintes: G. C. Berkouwer, “The Whole Man”, em Man, 194-233; C. A. Van Peursen, Body, Soul, Spirit: A Survey of the Body-Mind Problem, (London: Oxford University Press, 1966); H. Ridderbos, Paul: Na Outline of His Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), 64-68, 114-26; Rudolf Bultmann, Theology of the New Testament, vol. 1 (New York: Scribner, 1951), 190-227; Werner G. Kümmel, Man in the New Testament (London: Epworth, 1963); Robert Jewett, Paul’s Anthropological Terms (Leiden: E. J. Brill, 1971).
[56] John Cooper, “Dualism and the Biblical View of Human Beings”, Reformed Journal 32, no. 9 e 10 (Setembro e Outubro de 1982).
[57] Man, 211.
[58] On Being Human, 209. Ver também Robert H. Gundry, Soma in Biblical theology (Cambridge: Cambridge University Press, 1976), 83. Gundry prefere “dualidade” ao invés de “dualismo” como sendo ensinado em ambos os Testamentos, particularmente nos escritos de Paulo.
[59] Este termo também é usado por John Murray, “Thrichotomy”, em sua obra Collected Writings of John Murray, vol. 2 (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1977), 33 (“o homem é um ‘ser psico-somático”); e por G. W. Bromiley, “Anthropology”, ISBE, 1:134 (“o homem tem um lado físico e um lado espiritual...ambos pertencem conjuntamente a uma unidade psico-somática”); ver também Henry Stob, Ethical Reflections (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 226.
[60] Donald M. MacKay, Brains, Machines and Persons (Grand Rapids: Eerdmans, 1980), 14.
[61] Ibid., 83. Mais nesse livro (p. 101) MacKay descreve a vida futura do cristão dum modo no qual ele parece deixar lugar somente para a ressurreição do corpo e não para uma existência continuada do crente no estado intermediária (ver abaixo, p. 218-22). Se esta é a posição de MacKay, eu não concordaria com ele. Podemos ainda, contudo, aceitar as afirmações feitas nas citações acima como descrições corretas da unidade da mente com o cérebro durante esta presente vida.
[62] Ver esse assunto no meu livro A Bíblia e o Futuro, capítulos 17 e 20.
[63] Ver meu trabalho The Four Major Cults (Grand Rapids: Eerdmans, 1963), 345-71.
[64] Para uma interpretação diferente da “casa eterna no céu”, ver A Bíblia e o Futuro, pp. 104-6 (em inglês).
[65] Ver Calvino, Tracts and Treatises of the Reformed Faith, ,vol. 3, (Grand Rapids: Eerdmans, 1958), 413-90.
[66] Onsterfelijkheid of Opstanding, (Assen: Van Gorcum, 1936).
[67] Die Letzten Dinge, (1922: Gütersloh: bertelsmann, 1957).
[68] Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? (New York: Macmillan, 1964), 10-11.
[69] William G. Young, “The Nature of Man in the Amsterdam Philosophy”, Westminster Theological Journal 22, no. 1 (Novembro, 1959):7.
[70] A saber, as funções aritméticas, especiais, físicas e orgânicas.
[71] Herman Dooyeweerd, “Kuyper’s Wetenschapsleer”, Philosophia Reformata 4 (1939): 204.
[72] Young, “The Nature of Man”, 10.
[73] Man, 256.
[74] Ver a discussão de Berkouwer sobre este assunto em Man, 255-257.
[75] De Wederkomst van Christus, vol. 1 (Kampen: Kok, 1961), 79. Sobre o estado intermediário, ver adicionalmente Berkouwer, The Return of Christ, (Grand Rapids: Eerdmans, 1972), 32-64; e A Bíblia e o Futuro, 92-108 (texto inglês)
[76] Sobre esses versos ver W. Hendriksen, I and II Tessalonians, no Comentário do Novo Testamento (Grand Rapids: Baker, 1955); Leon Morris, The First and Second Epistles to the Thessalonians, in the New International Commentary on the New Testament Series (Grand Rapids: Eerdmans, 1959).
[77] “Missiology”, no Evangelical Dictionary of Theology, editado por Walter ª Elwell (Grand Rapids: Baker, 1984), 726. Ver também William Dyrness, Let the Earth Rejoice: A Biblical Theology of Holistic Mission (Westchester, IL: Crossway Books, 1983); Francis M. Dubose, God who Sends: a Fresh Quest for Biblical Mission (Nashville: Broadman Press, 1983); e J. H. Boer, Missions: Heralds of Capitalism ou Christ? (Ibadan, Nigeria: Day Star Press, 1984).
[78] The American Holistic Medical Association foi fundada em Maio de 1978.
[79] “Holistic Medicine”, Encyclopedia Americana, vol. 14 (Danbury, CT: Grolier, 1983), 294.
[80] Ibid.
[81] New York: Norton, 1979, 44.
[82] Ibid., 139.
[83] Ibid., 133.
[84] Entre a literatura volumosa sobre a medicina holística, os seguintes estudos podem ser observados: David Allen, Whole Person Medicine (Downers Grove: InterVarsity Press, 1980); Ed Gaedwag, Inner Balance: The Power of Holistic Healing (Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1979); Jack La Patra, Healing: The Coming Revolution in Holistic Medicine (New York: McGraw, 1978); Morton Walker, Total Health: The Holistic Alternative to Traditional Medicine (New York: Everest House, 1979).
[85] Ver “Organismic Theory” na obra de Calvin S. Hall e Gadner Lindzey, Theories of Personality, (New York: John Wiley, 1970), 298-337. Observe a bibliografia no final do capítulo.
[86] Ibid., 330
[87] Karl Menninger The Vital Balance (New York: Viking Press, 1963), 335.
[88] Mental Health Through Christian Community (Nashville: Abingdon, 1965), 20.
[89] “What God Hath Joined: The Psychospiritual Unity of Personality”, The Bulletin: Christian Association for Psychological Studies 5, no. 2 (1979): 11.
[90] Sobre a pessoa total, veja também Salvatore R. Maddi, Personality Theories (Homewood, IL: Dorsey Press, 1980).
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Capítulo 12 do excelente livro “Criados à Imagem de Deus”, da Cultura Cristã.
O que devemos observar primeiro de tudo é que a Bíblia não descreve o homem cientificamente; na verdade,
o julgamento (dos teólogos) é que a Bíblia não nos dá nenhum ensino científico a respeito do homem, nenhuma “antropologia” que deveria ou poderia estar em competição com uma investigação científica do homem nos vários aspectos de sua existência ou com a antropologia filosófica. [1]
Além disso, a Bíblia não usa uma linguagem científica exata. Ela usa termos como alma, espírito e coração mais ou menos indistintamente. Isto é por causa
das partes do corpo que são tidas, não primariamente do ponto de vista de suas diferenças ou de suas inter-relações com outras partes, mas como significando ou enfatizando os diferentes aspectos do homem total em relação a Deus. Do ponto de vista da psicologia analítica e da fisiologia, o uso do Antigo Testamento é caótico: ele é o pesadelo do anatomista quando qualquer parte pode ser entendida como sendo a totalidade. [2]
Portanto, não é impossível construir uma psicologia bíblica exata e científica. Alguns têm tentado fazer isso. Um dos mais notáveis nessa tarefa é Franz Delitzsch, cujo livro System of Biblical Psychology foi originalmente publicado em 1855. Mas mesmo Delitzsch teve que admitir que “a Escritura não é um livro escolástico [or didática] de ciência” e que “é verdade que em assuntos psicológicos, assim tão pouco quanto em assuntos éticos ou dogmáticos, a Escritura abrange (ou contém) qualquer sistema proposto na linguagem das escolas”. [3]
Em 1920, o teólogo holandês Herman Bavinck escreveu um livro entitulado Biblical and Religious Psychology (Psicologia Bíblica e Religiosa). Semelhantemente a Delitzsch, ele admitiu que
[a Bíblia] não nos fornece uma psicologia popular ou científica mais do que ela nos proporciona uma narrativa [schets] da história, geografia, astronomia ou agricultura...Mesmo se alguém desejasse tentar, seria impossível retirar da Bíblia uma psicologia que pudesse satisfazer as nossas necessidades. Porque não somente seria impossível ter uma narrativa completa de todos os vários dados, mas também as palavras que a Bíblia usa, tais como espírito, alma, coração e mente, foram emprestadas da linguagem popular dos judeus daqueles dias, ordinariamente possuindo um conteúdo diferente daquele que associamos com esses termos, e nem sempre usados no mesmo sentido. As Escrituras nunca usam conceitos abstratos e filosóficos, mas sempre falam a rica linguagem do dia a dia. [4]
Embora não derivemos uma antropologia ou psicologia científica exata da Bíblia, podemos aprender da Escritura muitas verdades importantes a respeito do homem. Na verdade, isso é o que tentamos fazer nos capítulos anteriores deste livro. Deveríamos nos lembrar novamente que a coisa mais importante que a Bíblia diz a respeito do homem é que ele está inescapavelmente relacionado a Deus. Berkouwer coloca este assunto da seguinte maneira: “Podemos dizer sem medo de contradição que a coisa mais notável no retrato bíblico do homem repousa nisto: que nunca chama a atenção para o homem em si mesmo, mas exige a nossa atenção mais plena para o homem em sua relação com Deus.” [5] Podemos acrescentar que a Bíblia também dirige nossa atenção para o homem à medida em que ele se relaciona com os outros seres humanos e com a criação. [6] Em outras palavras, as Escrituras não estão primariamente interessadas nas “partes” constituintes do homem ou na sua estrutura psicológica, mas nos relacionamentos que ele mantém.
Tricotomia ou Dicotomia?
Vez por outra, entretanto, tem sido sugerido que o homem deveria ser entendido como consistindo de certas “partes” especificamente distintas. Um desses entendimentos é usualmente conhecido como tricotomia — a idéia que, segundo a Bíblia, o homem consiste de corpo, alma e espírito. Um dos proponentes mais antigos da tricotomia, como vimos, é Irineu, que ensinava que enquanto os incrédulos possuiam somente almas e corpos, os crentes adquiriam espíritos adicionais, que eram criados pelo Espírito Santo. [7] Um outro teólogo que usualmente está associado com a tricotomia é Apolinário de Laodicéa, que viveu de 310 a aproximadamente 390 AD. A maioria dos intérpretes atribuem a ele a idéia de que o homem consiste de corpo, alma e espírito ou mente (pneuma ou nous), e que o Logos ou a natureza divina de Cristo tomou o lugar do espírito humano na natureza humana que Cristo assumiu. [8] Berkouwer, contudo, assinala que Apolinário desenvolveu primeiro a sua cristologia errônea em um contexto de dicotomia. [9] Mas J. N. D. Kelly diz que é uma questão de importância secundária se Apolinário era um dicotomista ou tricotomista. [10]
A tricotomia foi ensinada no século XIX por Franz Delitzsch, [11] J. B. Heard, [12] J. T. Beck, [13] e G. F. Oehler. [14] Mais recentemente tem sido defendido por escritores como Watchman Nee, [15] Charles R. Solomon (que afirma que através do seu corpo, o homem relaciona-se com o ambiente, através de sua alma com os outros, e do seu espírito com Deus), [16] e Bill Gothard. [17] É interessante observar que a tricotomia é também defendida na antiga e na nova Scofield Reference Bible. [18] A despeito deste apoio, devemos rejeitar a visão tricotomista da natureza humana.
Primeiro, ela deve ser rejeitada porque ela parece fazer violência à unidade do homem. A palavra em si mesma sugere que o homem pode ser separado em três “partes”: a palavra tricotomia é formada de duas palavras gregas, tricha, “tríplice” e temnein, “cortar. Alguns tricotomistas, incluindo Irineu, até sugeriram que certas pessoas tinham os seus espíritos cortados, enquanto que outras não.
Segundo, devemos rejeitá-la porque ela freqüentemente pressupõe uma antítese irreconciliável entre espírito e corpo. Realmente, a tricotomia originada na filosofia grega, particularmente na concepção de Platão, que possuia também um entendimento tríplice da natureza humana. Herman Bavinck levanta uma discussão útil deste assunto no seu livro Biblical Psychology. Ele assinala que em Platão e em outros filósofos gregos havia uma aguçada antítese entre as coisas visíveis e as invisíveis. O mundo como substância material não foi criado por Deus, diziam os gregos, mas sempre esteve contra ele. Um poder intermediário se fazia necessário para que pudesse haver ligação entre o mundo e Deus, e, assim, haver harmonia entre eles — este era o mundo da alma. A idéia do homem, encontrada no pensamento grego, pensa Bavinck, é semelhante: o homem é um ser racional que possui razão (nous), mas ele é também um ser material que tem um corpo. Entre esses dois deve haver uma terceira realidade que age como mediador: a alma, que é capaz de dirigir o corpo em nome da razão. [19]
A Bíblia, contudo, não ensina qualquer tipo de distinção aguda entre espírito (ou mente) e corpo. Segundo as Escrituras, a matéria não é má porque foi criada por Deus. A Bíblia nunca denigre o corpo humano como uma fonte necessária do mal, mas o descreve como um aspecto da boa criação de Deus, que deve ser usado no serviço de Deus. Para os gregos o corpo era considerado “uma sepultura para a alma” (soma sema) que o homem alegremente abandonava na morte, mas esta idéia é totalmente estranha às Escrituras.
Devemos rejeitar também a tricotomia porque ela faz uma aguda distinção entre o espírito e a alma que não encontra suporte algum nas Escrituras. Podemos ver isto mais claramente quando observamos que as palavras hebraica e grega traduzidas como alma e espírito são freqüentemente usadas indistintamente nas Escrituras.
1. O homem é descrito na Bíblia tanto como alguém que é corpo e alma como alguém que é corpo e espírito: “Não temais aqueles que matam o corpo mas não podem matar a alma” (Mt 10.28); “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor, assim no corpo como no espírito” (1 Co 7.34); “Como o corpo sem o espírito está morto, assim a fé sem as obras é morta” (Tg 2.25).
2. A dor é atribuída tanto à alma como ao espírito: “Levantou-se Ana e, com amargura de espírito, orou ao Senhor, e chorou abundantemente” (1 Sm 1.10); “Porque o Senhor te chamou como a mulher desamparada e de espírito abatido; como a mulher da mocidade, que fora repudiada, diz o teu Deus” (Is 54.6); “Agora está angustiada a minha alma” (Jo 12.27); “Ditas estas cousas, angustiou-se Jesus em espírito” (Jo 13.21); “Enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava, em face da idolatria dominante na cidade” (At 17.16); “(Porque este justo [Ló], pelo que via e ouvia quando habitava entre eles, atormentava a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas daqueles)” (1 Pe 2.8).
3. O louvor e o amor a Deus são atribuídos tanto a alma como ao espírito: “A minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (lc 1.46-47); “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Mc 12.30).
4. A salvação é associada tanto à alma como ao espírito: “Acolhei com mansidão a palavra implantada em vós, a qual é poderosa para salvar as vossas almas” (Tg 1.21); “...entregue a Satanás, para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo, no dia do Senhor” (1 Co 5.5).
5. O morrer é descritivo tanto como uma partida da alma como do espírito: “Ao sair-lhe a alma (porque morreu), deu-lhe o nome de Benoni” (Gn 35.18); “E estendendo-se três vezes sobre o menino, clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, que faças a alma deste menino tornar a entrar nele” (1 Rs 17.21); “Não temais os que matam o corpo e não podem matar alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28); “Nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Sl 31.5); “E Jesus clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito” (Mt 27.50); “Voltou-lhe o espírito, ela imediatamente se levantou”(Lc 8.55); “Então Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!” (Lc 23.46); “E apedrejavam a Estevão que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito!” (At 7.59).
6. Aqueles que já haviam morrido eram algumas vezes chamados tanto de almas e outras vezes de espíritos: Mt 10.28, citado acima; “Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam” (Ap 6.9); “e a Deus, o juíz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados “ (Hb 12.23); “Pois também Cristo morreu...para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado em espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais noutro tempo foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé” (1 Pe 3.18-20).
Os tricotomistas freqüentemente apelam para duas passagens do Novo Testamento: Hb 4.12 e 1 Ts 5.23, para dar suporte ao seu conceito, mas nenhuma dessas passagens prova o ponto deles.
Hebreus 4.12 diz o seguinte:
Porque a Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.
Estas palavras descrevem o poder penetrante da palavra de Deus. O autor de Hebreus não pretende dizer que a palavra de Deus causa uma divisão entre uma “parte” da natureza humana chamada alma e outra “parte” chamada espírito, assim como não pretende dizer que a palavra causa uma divisão entre as juntas do corpo e a medula encontrada nos ossos. A linguagem é figurativa. A cláusula seguinte aponta para o intento do autor: ele deseja dizer que a palavra de Deus discerne “os pensamentos e atitudes (ou intenções) do coração”. A palavra de Deus (seja ela entendida como a Escritura ou como Jesus Cristo) penetra nos recônditos mais interiores de nosso ser, trazendo à luz os motivos secretos de nossas ações. Esta passagem, na verdade, está em paralelo com um texto de Paulo: “[o Senhor] não somente trará à plena luz as cousas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações” (1 Co 4.5). Não há, portanto, nenhuma razão para se entender Hebreus 4.12 como ensinando uma distinção psicológica entre alma e espírito como sendo duas partes constituintes do homem.
A outra passagem é 1 Tessalonicenses 5.23, onde se lê:
O mesmo Deus da paz voz santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nossos Senhor Jesus Cristo.
Deveríamos observar primeiro que esta passagem não é uma afirmação doutrinária, mas uma oração. Paulo ora para que seus leitores tessalonicenses possam ser santificados e completamente preservados ou guardados por Deus até que Cristo volte novamente. A totalidade da santificação, pela qual Paulo ora, é expressa no texto por duas palavras gregas. A primeira, holoteleis, é derivada de holos, significando a totalidade, e telos, significando a finalidade ou o alvo; a palavra significa “a totalidade de modo que se alcance o alvo”. A Segunda palavra, holokleron, derivada de holos e kleros, porção ou parte, significa “completa em todas as suas partes”. É interessante observar que na segunda metade da passagem, ambos o adjetivos holokeron e o verbo teretheie (“possam ser guardados ou preservados”) estão no singular, indicando que a ênfase do texto está sobre a totalidade da pessoa. Quando Paulo ora pelos tessalonicenses para que o espírito, alma e corpo possam ser guardados, ele não está tentando separar o homem em três partes, mais do que Jesus pretendeu fazer em quatro partes quando disse: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força (Lc 10.27). Esta passagem, portanto, também não proporciona qualquer base para a visão tricotômica da constituição do homem. [20]
A outra idéia usualmente sustentada a respeito da constituição do homem é a chamada dicotomia — a idéia de que o homem consiste de corpo e alma. Esta visão tem sido mais largamente sustentada do que a tricotomia. Nossa rejeição de tricotomia significa que devemos optar pela dicotomia? Um número de teólogos afirma esta crença. Louis Berkhof, por exemplo, crê que “a representação dominante da natureza do homem na Escritura é claramente dicotômica”. [21]
É minha convicção, contudo, que nós deveríamos rejeitar tanto a dicotomia como a tricotomia. Como cristãos deveríamos certamente repudiar a dicotomia no sentido em que os antigos gregos a ensinaram. Platão, por exemplo, formulou a idéia de que o corpo e a alma devem ser tidos como duas substâncias distintas: a alma pensante, que é divina, e o corpo. Visto que o corpo é composto de substância inferior chamada matéria, ele é de um valor inferior à da alma. Na morte simplesmente o corpo se desintegra, mas a alma racional (ou nous) retorna “aos ceús”, se o seu curso de ação foi justo e honrado, e continua a existir para sempre. A alma é considerada uma substância superior, inerentemente indestrutível, enquanto que o corpo é inferior à alma, mortal, e condenado à destruição total. Não há no pensamento grego, portanto, lugar algum para a ressurreição do corpo. [22]
Mas mesmo à parte do entendimento grego da dicotomia, que é claramente contrário à Escritura, devemos rejeitar o termo dicotomia como tal, visto que ele não é uma descrição exata da visão bíblica do homem. A palavra em si mesma é objetável. Ela vem de duas raízes gregas: diche, significando “dupla” ou “em duas”; e temnein, significando “cortar”. Ela, portanto, sugere que a pessoa humana pode ser cortada em duas “partes”. Mas o homem nesta presente vida não pode ser separado dessa maneira. Como veremos, a Bíblia descreve a pessoa humana como uma totalidade, um todo, um ser unitário.
O melhor modo de determinar a visão bíblica do homem como uma pessoa total é examinar os termos usados para descrever os vários aspectos do homem. Antes de fazer isso, contudo, duas observações devem ser feitas: (1) Como foi dito, a preocupação primária da Bíblia não é a constituição psicológica ou antropológica do homem mas a sua capacidade inescapável de relacionar-se com Deus; e (2) devemos sempre Ter em mente que J. A. T. Robinson diz a respeito do uso que o Antigo Testamento faz destes termos: “Qualquer parte pode ser tomada pelo todo”, [23] e o que G. E. Ladd afirma a respeito do uso que o Novo Testamento faz dessas palavras: “A recente erudição tem reconhecido que termos como corpo, alma e espírito não são diferentes, faculdades separadas do homem mas diferentes modos de ver a totalidade do homem.” [24]
Com isto em mente, nós trataremos primeiro das palavras do Antigo Testamento e, então com as encontradas no Novo Testamento.
As Palavras do Antigo Testamento
Começamos com a palavra hebraica nephesh, mais comumente traduzida como “alma”. O léxico Hebraico de Brown, Driver e Briggs [25] dá dez significados para essa palavra, da qual os mais importantes para o nosso propósito são: “o ser mais interior do homem”, “o ser vivo” (usado a respeito de homens e animais), [26] “o homem em si mesmo” (freqüentemente usado como um pronome pessoal: eu mesmo, ele mesmo, etc.; neste sentido pode significar o homem como um todo), “o lugar dos apetites”, “o assento das emoções”. A palavra pode, algumas vezes, se referir a uma pessoa falecida, com ou sem meth (“morta”). É algumas vezes dito que a nephesh morre.
Está claro, portanto, que a palavra nephesh pode significar a pessoa total. Edmond Jacob diz o seguinte: “Nephesh é o termo usual para a natureza total do homem, para o que ele é e não apenas pelo que tem... Por isso a melhor tradução em muitos casos é ‘pessoa’”. [27]
A palavra hebraica seguinte é ruach, usualmente traduzida como “espírito”. O significado da raíz desta palavra é “ar em movimento”; ela é freqüentemente usada para descrever o vento. Brown-Driver-Briggs listam nove significados, incluindo os seguintes: “espírito”, “animação”, “disposição”, “espírito de vida e ser que respira morando na carne de homens e animais” (somente um exemplo deste último: Ec 3.21), “assento das emoções”, “órgão de atos mentais”, “órgão da vontade”. Ruach, portanto, sobrepõe-se em significado a nephesh. W. D. Stacey diz:
Quando a referência é feita ao homem em sua relação com Deus, ruach é o termo mais provável para ser usado..., mas quando referência é feita ao homem em relação a outros homens, ou o homem vivendo a vida comum dos homens, então nephesh é mais provável, se um termo psíquico é exigido. Em ambos os casos a totalidade do homem está envolvida. [28]
Portanto, não deve ser pensado de ruach como um aspecto separado do homem, mas como a pessoa total vista de determinada perspectiva.
Olhamos a seguir para as palavras do Antigo Testamento usualmente traduzidas como “coração”: lebh e lebhabh. Brown-Driver-Briggs dá dez significados para estas duas palavras, incluindo os seguintes: “o homem mais interior ou alma”, “mente”, “resoluções da vontade”, “consciência”, “caráter moral”, “o homem em si mesmo”, “o lugar dos apetites”, “o assento das emoções”, “o assento da coragem”. F. H. Von Meyenfeldt, em seu estudo final da palavra, conclui que lebh ou lebhabh usualmente representa a pessoa total e tem uma significação predominantemente religiosa. [29]
A palavra coração não somente é usada no Antigo Testamento para descrever o assento do pensamento, do sentimento e da vontade; é também a sede do pecado (Gn 6.5; Sl 95.8, 10; Jr 17.9), a sede da renovação espiritual (Dt 30.6; Sl 51.10; Jr 31.33; Ez 36.26), e o lugar da fé (Sl 28.7; 112.7; Pv 3.5).
Mais do que qualquer outro termo do Antigo Testamento, a palavra coração significa o homem no mais profundo centro de sua existência, e como ele é no mais profundo do seu ser. Herman Dooyeweerd, o filósofo holandês, entendeu o coração na Escritura como sendo “a raiz religiosa da existência total do homem”. [30] A filosofia que ele desenvolveu enfatiza que o coração é o centro e a fonte de toda a atividade religiosa, filosófica e moral do homem. Ray Anderson chama o coração de “o centro do eu subjetivo”. Ele é “a unidade do corpo e da alma na verdadeira ordem deles — ele é a pessoa”. [31]
Todos esses três termos examinados do Antigo Testamento, portanto, descrevem o homem em sua unidade e totalidade, embora olhando-o de aspectos ligeiramente diferentes. H. Wheeler Robinson comenta: “Não é possível fazer uma diferenciação exata das províncias cobertas pelo ‘coração’, nephesh e ruach, pela simples razão de que tal diferenciação exata nunca foi feita.” [32]
A próxima palavra é basar, usualmente traduzida como “carne”. Brown-Driver-Briggs lista seis significados, incluindo os seguintes: “”carne” (para o corpo), “parentesco de sangue”, “homem contra Deus como fraco e errante”, “raça humana”. N. P. Bratsiotis diz que basar é mais freqüentemente usado no Antigo Testamento para “o aspecto externo e carnal da natureza humana”. [33] Ele continua a dizer que quando basar é distinto do aspecto externo do homem e nephesh é entendido como sendo o aspecto interno, mesmo assim nunca devemos pensar destas palavras como descrevendo um dualismo de alma e corpo no sentido platônico.
Ao contrário, basar e nephesh devem ser entendidos como aspectos diferentes da existência do homem como uma entidade dual. É precisamente esta totalidade antropológica enfática que é determinante para a natureza dual do ser humano. Ela exclui qualquer noção de uma dicotomia entre basar e nephesh...como irreconciliavelmente opostos uma a outra, e revela o relacionamento psico-somático mútuo entre elas. [34]
A palavra basar é freqüentemente usada para descrever o homem em sua fraqueza. H. W. Wolff observa que freqüentemente basar descreve a vida humana como débil e fraca, dando como exemplo deste uso Jeremias 17.5 – “Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço”. [35]
Basar pode algumas vezes denotar a pessoa total, não apenas o aspecto físico. [36] Mas ela pode também ser juntada com nephesh em maneiras que referem ao homem total. Clarence B. Bass, comentando as palavras do Antigo Testamento para “corpo”, afirma:
Corpo e alma são usados quase que indistintamente, sendo que a alma indica o homem como um ser vivo, e corpo (carne) denota-o como uma criatura corporalmente visível...Esta unidade de corpo e alma [tem] conduzido alguns escritores a concluir que o Antigo Testamento carece de uma idéia do corpo físico como uma entidade discreta...Mais propriamente, contudo, o Antigo Testamento vê o corpo e a alma como coordenadas que se interpenetram em funções para formar um todo simples. [37]
Basar, portanto, também é freqüentemente usado no Antigo Testamento para denotar a pessoa total, embora com ênfase no lado exterior.
Assim, o mundo do pensamento do Antigo Testamento exclui totalmente qualquer espécie de dicotomia ou dualismo que pinte o homem como feito de duas substâncias distintas. Como H. Wheeler Robinson diz, “a ênfase final deve cair sobre o fato de que os quatro termos [nephesh, ruach, lebh e basar]...simplesmente apresentam aspectos diferentes da unidade da personalidade.” [38]
As Palavras do Novo Testamento
A primeira palavra do Novo Testamento que examinaremos é psyche, a palavra grega equivalente a nephesh, usualmente traduzida como “alma”. O léxico do Novo Testamento Grego de Arndt-Gingrich lista um número de significados para esta palavra, alguns dos quais são: “princípio de vida”, “vida terreal”, “assento da vida mais interior do homem” (incluindo sentimentos e emoções), “a sede e o centro da vida que transcende o que é terreno”, “aquilo que possui vida: uma criatura viva” (plural, pessoas). [39]
Eduard Schweizer afirma que psyche é usado freqüentemente nos Evangelhos para descrever o homem total, [40] para representar a verdadeira vida em distinção da vida puramente física, [41] e para referir-se à existência dada por Deus que sobrevive à morte. [42] Schweizer diz que Paulo usa psyche quando se refere à vida natural e à vida verdadeira; ele freqüentemente usa a palavra para descrever a pessoa. [43] No Livro do Apocalipse psyche pode ser usada para denotar a vida após a morte (como em 6.9). [44] Está claro, portanto, que psyche, como nephesh, freqüentemente significa a pessoa total.
Agora nos voltamos para a palavra pneuma, o equivalente do Novo Testamento a ruach, que quando se refere ao homem é mais usualmente traduzida como “espírito”. O léxico de Arndt-Gingrich dá oito significados, incluindo os seguintes: “o espírito como parte da personalidade humana”, “o ego de uma pessoa”, “uma disposição ou estado de mente”. Schweizer diz que Paulo usa pneuma para as funções físicas do homem, que ele é freqüentemente um paralelo de psyche, e que pode denotar o homem como um todo, com ênfase mais forte sobre o seu psíquico do que sobre a sua natureza física. [45]
George Ladd, numa discussão da psicologia paulina, diz-nos que no pensamento de Paulo o homem serve a Deus com o espírito e experimenta a renovação no espírito. Paulo algumas vezes contrasta o pneuma com o corpo como a dimensão mais interior em contraste com lado exterior do homem (2 Co 7.1; Rm 8.10). Pneuma pode descrever a auto-consciência do homem( 1 Co 2.11). [46] W. D. Stacey argumenta que Paulo não vê o pneuma como algo que somente o regenerado tem: “Todos os homens têm pneuma desde o nascimento, mas o pneuma cristão, na comunhão com o Espírito de Deus, assume um novo caráter e uma nova dignidade” (Rm 8.10). [47]
É interessante observar que pneuma pode se referir à vida após a morte. Como já vimos, Hebreus 12.23 descreve santos mortos como “os espíritos dos justos aperfeiçoados”, e ambos, Cristo (Lc 23.46) e Estevão (At 7.59), como moribundos encomendando seus espíritos a Deus o Pai ou Deus o Filho. Cristo é também dito ter pregado aos “espíritos em prisão”, obviamente se referindo a pessoas falecidas (1 Pe 3.19).
Pneuma também é em grande parte sinônimo de psyche, as duas palavras freqüentemente usadas indistintamente no Novo Testamento. Ladd, contudo, sugere uma distinção entre elas: “O espírito é freqüentemente usado a respeito de Deus; a alma nunca é usada dessa forma. Isto sugere que pneuma representa o homem em seu lado voltado para Deus, enquanto que psyche representa o homem em seu lado humano.” [48] Em geral, eu concordo com isto, mas há duas exceções. Por exemplo, a psyche é descrita algumas vezes como louvando e magnificando o Senhor (Lc 1.46), e Tiago nos diz a respeito da palavra em nós implantada que é capaz de salvar as nossas almas (psychas, Tg 1.21). Pneuma, está claro, pode ser usado como designativo da pessoa total; como psyche, ele descreve um aspecto do homem em sua totalidade.
A próxima palavra que olharemos é kardia, a palavra do Novo Testamento equivalente a lebh e lebhabh, usualmente traduzida como “coração”. Arndt-Gingrich dá o seguinte sentido principal da palavra: “a sede da vida física, espiritual e mental”. Ele é também descrito como o centro e a fonte da totalidade da vida mais interior do homem, com seu pensamento, sentimento e vontade. O coração é também dito ser o lugar de morada do Espírito Santo.
Johannes Behm semelhantemente descreve o coração no Novo Testamento como o principal órgão da vida psíquica e espiritual, o lugar no ser humano no qual Deus testemunha de si mesmo. O coração é o centro da vida mais interior de uma pessoa: de seus sentimentos, entendimento, e vontade. O coração significa a totalidade do ser interior do homem, a parte mais profunda dele; ele é sinônimo de ego, a pessoa. Kardia é supremamente o centro no homem para o qual Deus se volta, no qual a vida religiosa está enraizada, e que determina a conduta moral. [49]
Anteriormente já observamos que lebh no Antigo Testamento é também usado para indicar o coração como a sede do pecado, a sede da renovação espiritual e o lugar da fé. Isto também é verdade de kardia. Além disso, podemos observar que as outras virtudes cristãs são descritas como kardia. O amor é associado com o coração em 2 Tessalonicenses 3.5 e 1 Pedro 1.22. A obediência é ligada ao coração em Romanos 6.17 e em Colossenses 3.22. O perdão é associado ao coração em Mateus 18.35. O coração é ligado com humildade em Mateus 11.29, e é descrito como o assento da pureza em Mateus 5.8 e Tiago 4.8. A gratidão é associada com o coração em Colossenses 3.16, e a paz é dita guardar o coração em Filipenses 4.7.
Em uma seção de sua Dogmatics na qual ele trata com “o homem como alma e corpo”, Karl Barth, falando do coração no Novo e no Antigo Testamentos, diz:
Se fôssemos verdadeiros com os textos bíblicos deveríamos dizer do coração que ele é in nuce o homem total em si mesmo, e, portanto, não somente o locus de sua atividade mas de sua essência...Assim, o coração não é meramente uma realidade mas a realidade do homem, ambos – da totalidade da alma e da totalidade do corpo. [50]
Assim, novamente aqui vemos a ênfase bíblica na totalidade do homem. Kardia significa a pessoa total em sua essência mais interior. No coração a atitude básica do homem para com Deus é determinada, seja de fé ou de incredulidade, de obediência ou de rebelião.
Embora estritamente falando o Antigo Testamento não tenha uma palavra para corpo, ele usa basar para descrever o aspecto físico do homem, sua carne. No Novo Testamento há duas palavras para corpo: sarx e soma. Arndt-Gringrich lista oito significados para sarx, usualmente traduzidos como “carne”; entre outros significados estão: “corpo”, “um ser humano”, “natureza humana”, “limitação física”, “o lado exterior da vida”, e “o instrumento desejoso do pecado” (particularmente nos escritos de Paulo).
Sarx no Novo Testamento, então possui dois significados principais: (1) o aspecto externo, físico da existência do homem — neste sentido ele pode ser usado do homem como um todo; e (2) carne como a tendência dentro do homem caído para desobedecer a Deus em todas as áreas da vida. [51] Neste segundo sentido, encontrado principalmente nas epístolas de Paulo, não devemos restringir o sentido de sarx como se referindo somente ao que usualmente chamamos de “pecados da carne” (pecados do corpo); ao contrário, deveríamos entendê-lo como referindo-se aos pecados cometidos pela pessoa total. Na lista das “obras da carne” (ta erga tes sarkos) encontrada em Gálatas 5.19-21, onde cinco de quinze dizem respeito aos pecados do corpo; o restante diz respeito ao que chamamos de “pecados do espírito”— como ódio, discórdia, ciúme, e que tais. Assim, mesmo quando a palavra sarks é usada neste segundo sentido, ela diz respeito à pessoa total, e não apenas a uma parte dela.
Agora nos voltamos para a palavra soma, usualmente traduzida como “corpo”. Arndt-Gingrich dá cinco significados, incluindo os seguintes: “o corpo vivo”, “o corpo da ressurreição”, e “a comunidade cristã ou igreja”. Clarence B. Bass, num artigo sobre o corpo nas Escrituras, também lista cinco definições da palavra soma: “a pessoa total como uma entidade diante de Deus”, “o locus do espiritual no homem”, “o homem total como destinado para a membrezia no reino de Deus”, “o veículo para a ressurreição”, e “o lugar do teste espiritual em termos do qual o julgamento acontecerá”. [52] Ele chega à seguinte conclusão:
Assim, está claro que o corpo é usado para representar a totalidade do homem, e milita contra qualquer idéia da visão bíblica do homem como existindo à parte da manifestação corporal, a menos que seja durante o estado intermediário [que é, o estado entre a morte e a ressurreição]. [53]
Podemos resumir nossa discussão das palavras bíblicas usadas para descrever os vários aspectos do homem, como segue: o homem deve ser entendido como um ser unitário. Ele tem um lado físico e um lado mental ou espiritual, mas não devemos separar esses dois. A pessoa humana deve ser entendida como uma alma corporificada ou um corpo “espiritualizado” (“animado”). [54] A pessoa humana deve ser vista em sua totalidade, não como uma composição de diferentes “partes”. Este é o ensino claro de ambos os Testamentos. [55]
Unidade PsicosomÁtica
Embora a Bíblia veja o homem como uma totalidade, ela também reconhece que o ser humano possui dois lados: o físico e o não-físico. Ele possui um corpo físico, mas ele também é uma personalidade. Ele tem uma mente com a qual ele pensa, mas também um cérebro que é parte do seu corpo, e sem o qual ele não pode pensar. Quando as coisas andam errada com ele, é necessária uma cirurgia, mas outras vezes ele pode precisar de um aconselhamento. O homem é uma pessoa que pode, contudo, ser vista de dois ângulos.
Como, então, haveremos de expressar esses “dois lados” do homem? Já observamos as dificuldades relacionadas com o termo dicotomia. Alguns tem falado de um dualismo, [56] enquanto outros preferem o termo dualidade, fazendo maior justiça à unidade do homem. Berkouwer, por exemplo, explica que “a dualidade e o dualismo não são idênticos de forma alguma, e...uma referência ao momento dual na realidade cósmica não implica necessariamente em dualismo.” [57] Semelhantemente, Anderson diz que “devemos fazer uma distinção entre uma ‘dualidade’ do ser no qual uma modalidade de diferenciação é constituída como uma unidade fundamental, e um ‘dualismo’ que opera contra essa unidade”. [58]
Minha preferência, contudo, é falar do homem como uma unidade psico-somática. A vantagem desta expressão é que ela faz plena justiça aos dois aspectos do homem, ao mesmo tempo em que enfatiza a sua unidade. [59]
Podemos ilustrar isto olhando para o relacionamento entre a mente e o cérebro. Reconhecendo que o homem deveria ser tido como uma unidade com muitos aspectos que constituem um todo indivisível, Donald M. MacKay faz três comentários significativos a respeito da relação entre mente e cérebro:
Nós não precisamos retratar a ‘mente’ e o ‘cérebro’ como duas espécies ‘substâncias” que se interagem. Não precisamos pensar dos eventos mentais e dos eventos cerebrais como dois conjuntos distintos de eventos...Parece-me suficientemente melhor descrever os eventos mentais e seus eventos cerebrais correlatos como os aspectos “interiores” e “exteriores” de uma e da mesma seqüência de eventos, que em sua plena natureza são mais ricos — tem mais para eles — do que pode ser expresso tanto numa categoria mental como física, isoladamente. [60]
Nós os estamos considerando [minha experiência consciente e as obras do meu cérebro] como dois aspectos igualmente reais de uma e da mesma unidade misteriosa. O observador externo vê um aspecto, como um padrão físico da atividade cerebral. O próprio agente conhece um outro aspecto como sua experiência consciente...O que estamos dizendo é que estes aspectos são complementares. [61]
O homem, então, existe num estado de unidade psico-somática. Assim, fomos criados, assim somos agora, e assim seremos após a ressurreição do corpo. Porque a redenção plena inclui a redenção do corpo (Rm 8.23; 1 Co 15.12-57), visto que o homem não é completo sem o corpo. O futuro glorioso dos seres humanos em Cristo inclui ambos, a ressurreição do corpo e uma nova terra purificada e aperfeiçoada. [62]
O Estado IntermediÁrio
Agora, enfrentaremos uma pergunta importante: O que dizer a respeito do período entre a morte e a ressurreição, o chamado “estado intermediário”? Quando uma pessoa morre, o que acontece? Visto que alguém não é completo sem o corpo, então uma pessoa cessa de existir até ao tempo da ressurreição? Ou ela “existe” num estado completamente inconsciente? Ou imediatamente após a morte recebe a ressurreição do corpo? Ou ela recebe uma espécie de corpo intermediário, para ser substituído mais tarde por um corpo ressuscitado?
A idéia de que o homem cessa de existir entre a morte e a ressurreição, sustentada pelas Testemunhas de Jeová e pelos Adventistas do Sétimo Dia, deve ser rejeitada como não-bíblicas. [63] A idéia de que após a morte as pessoas recebem imediatamente corpos “intermediários” também não encontra base nas Escrituras. O contraste no Novo Testamento é sempre entre o corpo presente e o corpo ressuscitado (cf. Fp 3.21; 1 Co 15.42-44). Os aderentes dessa idéia, às vezes, citam 2 Coríntios 5.1 para provar que receberemos tais corpos “intermediários”: “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos da parte de Deus um edifício, casa não feita por mãos, eterna, nos céus.” Mas esta passagem fala a respeito da casa eterna no céu. Se tivéssemos que entender esta “casa eterna” como se referindo a um novo corpo, ela não designaria um corpo “intermediário”, temporário. [64]
Uma outra idéia, usualmente chamada de “sono da alma”, é a de que o homem, ou sua “alma” , existe num estado inconsciente entre a morte e a ressurreição. Esta idéia tem sido sustentada por vários grupos cristãos. João Calvino escreveu sua primeira obra teológica, Psychopannychia, para combater os ensinos do sono-da-alma sustentados pelos anabatistas da sua época. [65] Mais recentemente, esta posição tem sido defendida por G. Vander Leeuw, [66] Paul Althaus [67] e Oscar Cullmann. [68]
Herman Dooyeweerd, rejeitando a dicotomia alma-corpo, afirma um novo entendimento dos dois aspectos do homem: coração e “função de capa” (functie-mantel), sendo este último termo relativo ao corpo, que é a totalidade de sua existência temporal e a estrutura inteira de todas as suas funções temporais. [69] O coração e a função-de-capa não devem ser entendidos como duas substâncias distintas dentro do ser humano, mas ao contrário, como descrevendo o homem em sua totalidade unitária.
Mas isto não responde à nossa pergunta sobre o que acontece ao ser humano entre a morte e a ressurreição. Quando a Dooyeweerd foi perguntado: Que espécie de funções podem ainda ser deixadas para a “alma” (anima rationalis separata, alma racional separada) quando ela separada de sua conjunção temporal com as funções pre-psíquicas [70] (i.e., pós a morte), sua resposta foi: “Nada” (niets!). [71] Em sua resposta, contudo, Dooyeweerd
Não nega a existência continuada da alma após a morte, nem ele apresenta o estado da alma desincorporada como sendo de inconsciência. Todavia, por privar a alma de suas funções temporais, ele parece deixar somente o mais indefinido dos aspectos no lugar das almas racionais desincorporadas. [72]
No mesmo raciocínio, Berkouwer afirma que nós não deveríamos concluir da “negativa” de Dooyeweerd de que ele rejeita a idéia da comunhão com Cristo após a morte. [73]
Quando Dooyeweerd pronunciou o seu “nada!”, ele estava respondendo a uma questão a respeito de uma idéia do homem que ele próprio não subscrevia: a de que o homem possuía duas “partes” separadas, um corpo mortal inferior e uma “alma racional” superior, indestrutível e imortal — o ensino dos filósofos gregos antigos. Assim, nós não seríamos justos com Dooyeweerd se aplicássemos suas palavras ao seu próprio entendimento do estado intermediário. Não obstante, devemos admitir que a afirmação é enigmática. Ela tem conduzido muitas a levantar questões a respeito da posição de Dooyeweerd a respeito do estado dos crentes entre a morte e a ressurreição. [74]
O ensino central da Bíblia a respeito do futuro do homem é o da ressurreição do corpo. Mas o Novo Testamento indica que o estado dos crentes entre a morte e a ressurreição é o de alegria provisória, expressa no dito de Paulo de ser “incomparavelmente melhor” do que o estado aqui na terra (Fp 1.23). Se isto é assim, a condição dos crentes durante o estado intermediário não pode ser um estado de não-existência ou de inconsciência.
Algumas vezes o Novo Testamento simplesmente diz que o crente continuará a existir neste estado de alegria provisória:
Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e de outro lado estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. (Fp 1.22-23)
Jesus, respondendo ao pecador penitente, disse: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso. (Lc 23.43)
Temos, portanto, sempre ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor; visto que andamos por fé, e não pelo que vemos. Entretanto estamos em plena confiança, preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor. (2 Co 5.6-8)
Na passagem aos Filipenses Paulo contrasta “o viver na carne” com “partir e estar com Cristo”, sugerindo claramente que é possível para uma pessoa não mais estar vivendo no presente corpo e, todavia, estar com Cristo — um estado que é muito melhor que o presente estado. Particularmente significativo neste ponto é a passagem de 2 Coríntios, onde Paulo contrasta o “enquanto no corpo” (endemountes en to somati) com o estar “ausente do corpo” (ekdemesai ek tou somatos). Se Paulo tivesse pretendido descrever a bênção do crente após a ressurreição, ele poderia Ter usado uma expressão como “ausentes deste corpo”, sugerindo que os crentes então estariam “habitando” um novo corpo. Mas ele simplesmente “ausentes do corpo”, dizendo aos seus leitores que ele está pensando de uma existência entre o corpo presente e o corpo da ressurreição. Observe que, em ambas as passagens, Paulo afirma que é possível para os crentes estarem com Cristo, mesmo quando eles não mais vivem em seus presentes corpos e antes deles receberem seus corpos ressuscitados.
Em outras vezes, contudo, o Novo Testamento usa as palavras “alma” (psyche) ou “espírito” (pneuma) para se referir aos crentes enquanto eles continuam a existir entre a morte e a ressurreição. A palavra “alma” é usada nas seguintes passagens:
Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma” (Mt 10.28).
Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam (Ap 6.9).
A palavra “espírito é usada nos seguintes textos:
Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados. (Hb 12.22-23)
Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais noutro tempo foram desobedientes quando a longanimidade de Deus aguardava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca, na qual poucos, a saber, oito pessoas, foram salvos, através da água. (1 Pe 3.18-20)
Assim, às vezes, o Novo Testamento diz que nós que somos crentes, continuaremos a existir num estado provisório de alegria entre a morte e a ressurreição, enquanto que em outras vezes ele diz que as “almas” ou “espíritos” dos crentes ainda existirão durante aquele estado. Mas a Bíblia não usa palavras como “alma” e “espírito” no mesmo modo que nós o fazemos; dessa forma, estas passagens estão pretendendo tão somente nos dizer que os seres humanos continuarão a existir entre a morte e a ressurreição, enquanto esperam a ressurreição do corpo. A Bíblia não nos dá qualquer descrição antropológica da vida nesse estado intermediário. Podemos especular a respeito dela, podemos tentar imaginar a que esse estado será, mas não podemos formar nenhuma idéia clara da vida entre a morte e a ressurreição. A Bíblia ensina sobre ela, mas não a descreve. Como Berkouwer diz, o que o Novo Testamento nos conta a respeito do estado intermediário não é nada mais do que um sussurro. [75]
Embora o homem exista agora no estado de unidade psico-somática, esta unidade poderá ser temporariamente rompida no tempo da morte. Em 2 Coríntios 5.8 Paulo ensina claramente que os seres humanos podem existir à parte de seus corpos presentes. O mesmo ponto é assinalado em duas outras passagens do Novo Testamento:
A fim de que sejam os vossos corações confirmados em santidade, isentos de culpa, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, com todos os seus santos. (1 Ts 3.13)
Pois se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também Deus, mediante Jesus, trará juntamente em sua companhia os que dormem. (1 Ts 4.14)
Ambos os textos falam a respeito dos “santos” e “daqueles que dormem com Cristo”, como existindo após a morte e antes da ressurreição — observe que a ressurreição daqueles que dormiram em Cristo é mencionada mais tarde em 1 Tessalonicenses 4.16. [76] Pode ser observado também que neste verso a expressão “mortos em Cristo” claramente sugere que os crentes falecidos ainda estão em algum estado de existência antes da ressurreição.
O estado normal do homem é o da unidade psico-somática. No tempo da ressurreição ele será restaurado plenamente ao da unidade e, assim, uma vez mais, será tornado completo. Mas nós devemos reconhecer que, segundo o ensino bíblico, os crentes podem existir temporariamente num estado de alegria provisória, mesmo fora de seus corpos presentes durante o “tempo” entre a morte e a ressurreição. Este estado intermediário e, contudo, incompleto e provisório. Nós anelamos para a ressurreição do corpo e a nova terra como o clímax final do programa redentor de Deus.
ImplicaÇÕes PrÁticas
O entendimento do homem como uma pessoa total, como foi desenvolvido neste capítulo, tem importantes implicações práticas.
Primeira, a igreja deve estar preocupada com a pessoa total. Em sua pregação e em seu ensino a igreja deve dirigir-se não somente às mentes daqueles a quem ela serve, mas também às suas emoções e suas vontades. A pregação que meramente comunica informação intelectual a respeito de Deus ou da Bíblia está seriamente inadequada; os ouvintes devem ser despertados em seus corações e movidos a louvar a Deus. Os professores na escola dominical devem fazer mais do que simplesmente dar aos alunos uma rota de “conhecimento” versos da Bíblia ou das afirmações doutrinárias; seu ensino deve exigir uma resposta que envolva todos os aspectos da pessoa. Os programas da igreja para a juventude não deveria negligenciar o corpo; os esportes e as atividades externas deveriam ser encorajadas como um aspecto da vida cristã globalizada.
Em sua tarefa evangelista e missionária, a igreja deveria lembrar-se também que ela está tratando com pessoas completas. Embora o propósito principal de missões seja confrontar as pessoas com o evangelho, de forma que elas possam se arrepender de seus pecados e serem salvas através da fé em Cristo, todavia a igreja nunca deve se esquecer que os objetos de sua empreitada missionária têm necessidades tanto físicas quanto espirituais. Com isto em mente, o fato de que o homem é um ser unitário, deveríamos evitar expressões como “salvar a alma” quando descrevendo a tarefa do missionário, e deveríamos optar por uma abordagem holística ou abrangente em missões. Esta abordagem, que algumas vezes é conhecida como “o ministério da palavra e das ações”, direciona o missionário a estar preocupado não somente a respeito de ganhar convertidos para Cristo, mas também em melhorar as condições de vida desses convertidos e seus vizinhos, trabalhando em áreas como agricultura, dietética e saúde. O estabelecimento de escolas para a educação cristã dos nacionais e a manutenção de clínicas e hospitais tanto para o cuidado da saúde rotineira como da emergencial, entretanto, não deve ser considerado como estranho à província da atividade missionária da igreja, mas como um aspecto essencial dela. Arthur F. Glasser, ex-deão da Escola de Missões Mundiais do Seminário Teológico Fuller (California), diz que na tarefa como missionários cristãos,
O desenvolvimento da fé individual e interior deve ser acompanhado por uma obediência solidária e exterior ao mandato cultural extensamente detalhado na Santa Escritura. O mundo deve ser servido, não evitado. A justiça social deve ser promovida, e as questões de guerra, racismo, pobreza e desequilíbrio econômico devem se tornar uma preocupação ativa e participativa daqueles que professam crer em Jesus Cristo. Não é suficiente que a missão cristã seja redentora; ela também deve ser profética. [77]
A escola deveria também estar preocupada a respeito da pessoa total. Embora um dos principais propósitos da escola seja a instrução intelectual, o professor nunca deveria esquecer que o aluno que está ensinando é uma pessoa total. A escola, portanto, não deveria treinar apenas a mente, mas deveria apelar para as emoções e vontade, visto que o ensino eficaz deve produzir no aluno tanto o amor pela matéria como um desejo de aprender mais a respeito dela. Além disso, as escolas deveriam evidenciar uma preocupação pelo corpo assim como pela mente. Os esportes de espectadores, no qual poucos jogam e muitos meramente observam, têm o seu lugar, mas muito mais importante para o corpo discente como um todo é um bom programa de educação física, com uma ênfase nos esportes de jogos internos que envolvam todos os estudantes.
O conceito da pessoa total tem também implicações para a vida de família. Os pais crentes ficarão preocupados em ensinar a seus filhos a respeito de Deus, em treiná-los na vida cristã, e a discipliná-los em amor quando carecem disto. Mas os pais devem também estar preocupados a respeito de assuntos como uma dieta saudável e própria para o cuidado do corpo. Está sendo cada vez mais reconhecido hoje que um programa regular de exercício físico é essencial para uma boa saúde; os pais, portanto, deveriam tentar ensinar a seus filhos o cuidado do corpo, não somente por preceito mas também pelo exemplo.
Além disso, o conceito da pessoa total tem implicações para a medicina. Em reconhecimento do fato de que o homem é uma unidade psico-somática, a ciência médica desenvolveu recentemente uma abordagem chamada medicina holística. [78] A medicina holística tem sido definida como “um sistema de saúde que enfatiza a responsabilidade pessoal para a própria saúde e empenha-se por um relacionamento cooperativo entre todos os envolvidos em proporcionar cuidados de saúde.” [79] Os praticantes da saúde holística “enfatizam a necessidade da busca pela pessoa total, incluindo condição física, nutrição, maquiagem emocional, estado espiritual, valores de estilo de vida e ambiente.” [80]
Num livro fascinante entitulado Anatomy of an Illness (“Anatomia de uma Doença”) Norman Cousins faz um comentário de que um dos aspectos mais importantes na recuperação de uma doença está na “vontade de viver”: “A vontade de viver não é uma abstração teórica, mas uma realidade fisiológica com características terapêuticas.” [81] Cousins relata que centenas de médicos lhe têm dito que “nenhum remédio que eles podem dar aos pacientes foi tão potente como o estado de alma que um paciente traz para sua própria doença.” [82] Segundo Cousins, nos exercícios de graduação da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins em 1975, o Dr. Jerome D. Frank disse aos graduandos “que qualquer tratamento de uma doença que não ministre também ao espírito humano é grosseiramente deficiente.” [83] A Conclusão é clara: A cura e a manutenção da saúde física envolve a pessoa total. Médicos, enfermeiras, pastores e pacientes devem sempre ter isto em mente. [84]
Finalmente, o conceito da pessoa total tem implicações importantes para a psicologia e para o aconselhamento. Estudos recentes de psicologia têm levado a uma nova ênfase na totalidade do homem — uma ênfase que é chamada algumas vezes de “teoria organísmica”. [85] Hall and Lindzey afirmam que a nova ênfase em psicologia sobre a pessoa total é uma reação contra o dualismo mente-corpo, a psicologia das faculdade, e o behaviorismo (comportamentalismo). Esta nova ênfase, eles dizem, tem sido grandemente aceita:
Quem há em psicologia hoje que não seja um proponente dos principais princípios da teoria organísmica que o total é algo além da soma de suas partes, que o que acontece a uma parte acontece ao todo, e que não há nenhum compartimento separado dentro do organismo? [86]
Os conselheiros devem lembrar-se também do fato de que o homem é uma pessoa total. Eles deveriam ser treinados a reconhecer os problemas que requerem a especialidade de outros além de si mesmos, e deveriam encaminhar seus aconselhandos, quando necessário, a médicos e psiquiatras. Os problemas mentais não deveriam ser tidos como totalmente distintos dos problemas físicos, porque nenhum tipo de problema está sempre separado do outro. Visto drogas anti-depressivas podem curar certos tipos de depressão, um conselheiro sábio fará uso desses meios. Pacientes que possuem problemas muito profundos, de fato, podem mais eficazmente ser curados através de esforços combinados de uma equipe terapêutica, consistindo, talvez, de um psicólogo, um assistente social, um médico e um psiquiatra. [87]
O conselheiro não deveria pensar de uma saúde mental e espiritual como coisas totalmente separadas. Visto que o homem é uma pessoa total, o espiritual e o mental são aspectos de uma totalidade, de forma que cada aspecto influencia e é influenciado pelo outro. Howard Clinebell diz o seguinte: “A saúde espiritual é um aspecto indispensável da saúde mental. Os dois podem estar separados somente numa base teórica. Nos seres humanos vivos, a saúde espiritual e mental estão inseparavelmente entrelaçadas.” [88]
Algumas vezes o conselheiro pastoral pode pensar que a mera
citação dos versos da Bíblia pode ser tudo o de que necessita para ajudar o membro da igreja a resolver um difícil problema espiritual. Mas um entendimento do homem como uma pessoa total conduz-nos a perceber que tal abordagem pode ser totalmente inadequada. David G. Benner, num artigo no qual ele desafia a opinião comum de que a personalidade humana pode ser dividida em duas partes, uma “parte” espiritual e uma psicológica, ilustra seu ponto da seguinte maneira:
A tentação, portanto, de rotular a dificuldade de uma pessoa em aceitar o perdão de Deus de seus pecados como um problema espiritual deve ser resistido a fim de deixar o conselheiro muitíssimo aberto para tratar com ambos os aspectos, psicológico e espiritual, daquele problema. Assumir natureza espiritual essencial e proceder por meio de uma apresentação explícita de certas verdades bíblicas é esquecer que o perdão, esteja ele sendo dado ou recebido, é mediado por processos psico-espirituais da personalidade e, portanto, esses outros fatores psicológicos podem também estar envolvidos e outras técnicas sejam apropriadas. [89]
O conselheiro cristão, portanto, deveria ver os problemas de seus aconselhandos como problemas da pessoa total. Ele deveria não somente tratar com o aconselhando como uma pessoa total, mas deveria também tentar restaurá-lo à sua totalidade, que é a marca de uma vida saudável e piedosa. [90]
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NOTAS:
[1] G. C. Berkouwer, De Mens het Beeld Gods (Kampen: Kok, 1957), p. 211. Cf. Ray S. Anderson, On Being Human (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), p. 213.
[2] John A. T. Robinson, The Body (London: SCM Press, 1952), p. 16.
[3] A System of Biblical Psychology, (Edinburgh: T & T Clark, 1867), p. 16.
[4] Bijbelsche en Religieuze Psychologie (Kampen: Kok, 1920), p. 13.
[5] Man, p. 195.
[6] Ver acima, p. 75-82 (texto em inglês)
[7] Ver acima, p. 34-35 (texto em inglês).
[8] Ver Louis Berkhof, History of Christian Doctrines (Grand Rapids: Eerdmans, 1937), p. 106-107; J. L. Neve, A History of Christian Thought (Philadelphia: United Lutheran Publication House, 1943), p. 126; Anderson, On Being Human, p. 207-8.
[9] Man, p. 209. Ver também o comentário de A. Grillmeier citado em n.20. Dichotomy é a idéia de que o homem deve ser entendido como consistindo de duas “partes”, corpo e alma.
[10] J. N. D. Kelly, Early Christian Doctrines (London: Black, 1958), p. 292.
[11] System of Biblical Psychology, pp. Vii, 247-66.
[12] The Tripartite Nature of Man (Edinburgh: T & T Clark, 1866).
[13] Outlines of Biblical Psychology, (Edinburgh: T & T Clark, 1877), p. 38.
[14] Theology of the Old Testament, edit. G. E. Day (1873; Grand Rapids: Zondervan), 149-51.
[15] The Release of the Spirit (Indianapolis: Sure Foundation, 1956), 6.
[16] The Handbook of Happiness (Denver: Heritage House Publications, 1971), 28; ver também p. 27-58.
[17] Wilfred Brockelman, Gothard, The Man and his Ministry: An Evaluation (Santa Barbara: Quill Publications, 1976), 85-96.
[18] The Scofield Reference Bible (New York: Oxford University Press, 1909), no texto de 1 Ts 5.23; The New Scofield Reference Bible (New York: Oxford University Press, 1967) no texto de 1 Ts 5.23.
[19] Bijbelsche en Religieuze Psychologie, 53. Cf. TDNT, 6:395.
[20] Sobre a interpretação de Hb 4.12 e 1 Ts 5.23, ver Bavinck, Bijbelsche Psychologie, 58-59; Louis Berkhof, Teologia Sistemática (Campinas: Luz Para o Caminho, 199....), p.......; Berkouwer, Man, 210; Sobre Hb 4.12 ver também F. F. Bruce, The Epistle to the Hebrews, in the New International Commentary sobre a série do Novo Testamento (Grand Rapids: Eerdmans, 1964), 80-83; Para uma defesa do pensamento tricotômico, ver F. Delitzsch, The Epistle to the Hebrews, (Edinburgh: T. & T. Clark, 202-14, especialmente 212-14.
[21] Teologia Sistemática, p..........; cf ª H. Strong, Systematic Theology, vol. 2 (Philadelphia: Griffith and Rowland, 1907), 483-88; J. T. Mueller, Christian Dogmatics, (St. Louis: Concordia, 1934), 184; H. C. thiessen, Introductory Lectures in Systematic Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1949), 225-26; Gordon H. Clark, The Biblical Doctrine of Man (Jefferson, MD: The Trinity Foundation, 1984), 33-45.
[22] Cf o meu livro A Bíblia e o Futuro, (pp 86-87 edição em inglês). Sobre este ponto ver também Berkouwer, Man, 212-22.
[23] The Body, 16.
[24] G. E. Ladd, A Theology of the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1974), 457.
[25] Francis Brown, S. R. Driver, e Charle Briggs, Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (New York: Houghton Mifflin, 1907).
[26] Provavelmente o exemplo mais conhecido do uso dessa palavra se referindo ao homem seja Gn 2.7 – “Então formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra, e lhe soprou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente (nephesh chayyah)”.
[27] “Psyche”, TDNT, 9:620.
[28] The Pauline View of Man (London: Macmillan, 1956), 90.
[29] F. H. Von Meyenfeldt, Het Hart (Leb, Lebab) in het Oude Testament (Leiden: E. J. Brill, 1950), 218-19.
[30] Wijsbegeerte der Wetsidee, vol. 1 (Amsterdam: H. J. Paris, 1935), 30.
[31] On Being Human, 211.
[32] The Christian Doctrine of Man (Edinburgh: T. & T. Clark, 1911), 26.
[33] “Basar”, na obra de G. Johannes Botterweck e Helmer Ringgren, editores, Theological Dictionary of the Old Testament, (Grand Rapids: Eerdmans, 1977), p. 325.
[34] Ibid., 325.
[35] Anthropologie des Alten Testaments (Munich: Chr. Kaiser, 1973), 55.
[36] F. B. Knutson, “Flesh”, ISBE, 2.314.
[37] “Corpo”, ibid., 1:528-29. Observe também o comentário de J. Pedersen: “Alma e corpo [no uso do Antigo Testamento] são tão intimamente unidos que uma distinção não pode ser feita entre eles. Eles são mais do que ‘unidos’; o corpo é a alma em sua forma exterior” (Israel: Its Life and Culture, vol. 1 [London: Oxford University Press, 1926], 171).
[38] The Christian Doctrine of Man, 27.
[39] William F. Arndt e F. Wilbur Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: Univsersity of Chicago Press, 1957).
[40] “Psyche”, TDNT, 9:639.
[41] Ibid., 642.
[42] Ibid., 644.
[43] Ibid., 648.
[44] Ibid., 654.
[45] “Pneuma”, TDNT, 6:435.
[46] Ladd, A Theology of the New Testament, 461-63.
[47] The Pauline View of Man, 135.
[48] New Testament Theology, 459.
[49] “Kardia”, TDNT, 3:611-12.
[50] Church Dogmatics (Edinburgh: T. & T. Clark, 1960), III/2, 436.
[51] Um estudo mais antigo, embora competente, a respeito do significado de sarx nos escritos de Paulo é o de Wm. P. Dickson, St. Paul’s Use of the Terms Flesh and Spirit (Glasgow: Maclehose, 1883). Um estudo mais recente é o de J. A. Robinson, The Body (1952.
[52] “Body, ISBE, 1:529.
[53] Ibid.
[54] Barth, Church Dogmatics, III/2, 350.
[55] Em acréscimo aos estudos da visão bíblica sobre a pessoa total referida acima, podemos enumerar os seguintes: G. C. Berkouwer, “The Whole Man”, em Man, 194-233; C. A. Van Peursen, Body, Soul, Spirit: A Survey of the Body-Mind Problem, (London: Oxford University Press, 1966); H. Ridderbos, Paul: Na Outline of His Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), 64-68, 114-26; Rudolf Bultmann, Theology of the New Testament, vol. 1 (New York: Scribner, 1951), 190-227; Werner G. Kümmel, Man in the New Testament (London: Epworth, 1963); Robert Jewett, Paul’s Anthropological Terms (Leiden: E. J. Brill, 1971).
[56] John Cooper, “Dualism and the Biblical View of Human Beings”, Reformed Journal 32, no. 9 e 10 (Setembro e Outubro de 1982).
[57] Man, 211.
[58] On Being Human, 209. Ver também Robert H. Gundry, Soma in Biblical theology (Cambridge: Cambridge University Press, 1976), 83. Gundry prefere “dualidade” ao invés de “dualismo” como sendo ensinado em ambos os Testamentos, particularmente nos escritos de Paulo.
[59] Este termo também é usado por John Murray, “Thrichotomy”, em sua obra Collected Writings of John Murray, vol. 2 (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1977), 33 (“o homem é um ‘ser psico-somático”); e por G. W. Bromiley, “Anthropology”, ISBE, 1:134 (“o homem tem um lado físico e um lado espiritual...ambos pertencem conjuntamente a uma unidade psico-somática”); ver também Henry Stob, Ethical Reflections (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 226.
[60] Donald M. MacKay, Brains, Machines and Persons (Grand Rapids: Eerdmans, 1980), 14.
[61] Ibid., 83. Mais nesse livro (p. 101) MacKay descreve a vida futura do cristão dum modo no qual ele parece deixar lugar somente para a ressurreição do corpo e não para uma existência continuada do crente no estado intermediária (ver abaixo, p. 218-22). Se esta é a posição de MacKay, eu não concordaria com ele. Podemos ainda, contudo, aceitar as afirmações feitas nas citações acima como descrições corretas da unidade da mente com o cérebro durante esta presente vida.
[62] Ver esse assunto no meu livro A Bíblia e o Futuro, capítulos 17 e 20.
[63] Ver meu trabalho The Four Major Cults (Grand Rapids: Eerdmans, 1963), 345-71.
[64] Para uma interpretação diferente da “casa eterna no céu”, ver A Bíblia e o Futuro, pp. 104-6 (em inglês).
[65] Ver Calvino, Tracts and Treatises of the Reformed Faith, ,vol. 3, (Grand Rapids: Eerdmans, 1958), 413-90.
[66] Onsterfelijkheid of Opstanding, (Assen: Van Gorcum, 1936).
[67] Die Letzten Dinge, (1922: Gütersloh: bertelsmann, 1957).
[68] Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? (New York: Macmillan, 1964), 10-11.
[69] William G. Young, “The Nature of Man in the Amsterdam Philosophy”, Westminster Theological Journal 22, no. 1 (Novembro, 1959):7.
[70] A saber, as funções aritméticas, especiais, físicas e orgânicas.
[71] Herman Dooyeweerd, “Kuyper’s Wetenschapsleer”, Philosophia Reformata 4 (1939): 204.
[72] Young, “The Nature of Man”, 10.
[73] Man, 256.
[74] Ver a discussão de Berkouwer sobre este assunto em Man, 255-257.
[75] De Wederkomst van Christus, vol. 1 (Kampen: Kok, 1961), 79. Sobre o estado intermediário, ver adicionalmente Berkouwer, The Return of Christ, (Grand Rapids: Eerdmans, 1972), 32-64; e A Bíblia e o Futuro, 92-108 (texto inglês)
[76] Sobre esses versos ver W. Hendriksen, I and II Tessalonians, no Comentário do Novo Testamento (Grand Rapids: Baker, 1955); Leon Morris, The First and Second Epistles to the Thessalonians, in the New International Commentary on the New Testament Series (Grand Rapids: Eerdmans, 1959).
[77] “Missiology”, no Evangelical Dictionary of Theology, editado por Walter ª Elwell (Grand Rapids: Baker, 1984), 726. Ver também William Dyrness, Let the Earth Rejoice: A Biblical Theology of Holistic Mission (Westchester, IL: Crossway Books, 1983); Francis M. Dubose, God who Sends: a Fresh Quest for Biblical Mission (Nashville: Broadman Press, 1983); e J. H. Boer, Missions: Heralds of Capitalism ou Christ? (Ibadan, Nigeria: Day Star Press, 1984).
[78] The American Holistic Medical Association foi fundada em Maio de 1978.
[79] “Holistic Medicine”, Encyclopedia Americana, vol. 14 (Danbury, CT: Grolier, 1983), 294.
[80] Ibid.
[81] New York: Norton, 1979, 44.
[82] Ibid., 139.
[83] Ibid., 133.
[84] Entre a literatura volumosa sobre a medicina holística, os seguintes estudos podem ser observados: David Allen, Whole Person Medicine (Downers Grove: InterVarsity Press, 1980); Ed Gaedwag, Inner Balance: The Power of Holistic Healing (Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1979); Jack La Patra, Healing: The Coming Revolution in Holistic Medicine (New York: McGraw, 1978); Morton Walker, Total Health: The Holistic Alternative to Traditional Medicine (New York: Everest House, 1979).
[85] Ver “Organismic Theory” na obra de Calvin S. Hall e Gadner Lindzey, Theories of Personality, (New York: John Wiley, 1970), 298-337. Observe a bibliografia no final do capítulo.
[86] Ibid., 330
[87] Karl Menninger The Vital Balance (New York: Viking Press, 1963), 335.
[88] Mental Health Through Christian Community (Nashville: Abingdon, 1965), 20.
[89] “What God Hath Joined: The Psychospiritual Unity of Personality”, The Bulletin: Christian Association for Psychological Studies 5, no. 2 (1979): 11.
[90] Sobre a pessoa total, veja também Salvatore R. Maddi, Personality Theories (Homewood, IL: Dorsey Press, 1980).
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Capítulo 12 do excelente livro “Criados à Imagem de Deus”, da Cultura Cristã.
Escatologia Reformada
Posted by Administrador in Escatologia on 19 novembro 2009
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
CAPÍTULO I - ESCATOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS
1.Escatologia Consistente
2.Escatologia Realizada
CAPÍTULO II - AMILENISMO AGOSTINIANO
1.Descrição e Origem
2.Apoio do Novo Testamento
3.As Duas Ressurreições
4.Profecias do Antigo Testamento
CAPÍTULO III - AMILENISMO CLÁSSICO
1.Descrição
2.Interpretação de Apocalipse
CAPÍTULO IV - PÓS-MILENISMO
1.Descrição
2.Origem
3.Apoio do Novo Testamento
CAPÍTULO V - PRÉ-MILENISMO HISTÓRICO
1.Descrição
2.Interpretação de Gálatas 6:16
CAPÍTULO VI - PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA
1.Origem
2.Descrição
3.As Duas Ressurreições
3.1.A Ressurreição para a Vida
3.2.A Ressurreição para a Condenação
3.3.O Tempo das Ressurreições
3.4.OA palavra escatologia é formada de duas palavras gregas: escato (eschatos = último, fim) e logo (lógos = palavra, discussão, instrução, ensino, assunto, tema). Portanto escatologia é o estudo do fim ou o estudo das últimas coisas, ou ainda o estudo dos últimos dias. Programa da Ressurreição
4.Profecias do Antigo Testamento
INTRODUÇÃO
Várias passagens das Escrituras empregam a palavra eschatos juntamente com hmera (heméra = dia). Assim temos escath hmera (eschatê heméra = último dia), usado em Jo.6:39 e 7:37. A primeira ocorrência se refere ao último dia da ressurreição, um dia escatológico, enquanto que a segunda apenas faz alusão ao último dia da festa de casamento. Temos escatai hmerai (eschatais hemerais = últimos dias) em At.2:17; II Tm.3:1; Tg.5:3; e escatou twn hemerwn (eschatou tôn hemerôn = últimos dias) em Hb.1:2. Todas estas passagens aludem ao período de tempo entre a 1ª e a 2ª vindas de Jesus. Os últimos dias iniciaram-se com a 1ª vinda de Jesus que veio na "plenitude do tempo"(Gl.4:4), pois o tempo anterior da dispensação da lei já estava cumprido (Mc.1:15; Lc.16:16). Estamos vivendo os últimos dias. Esse período de tempo que a Bíblia chama de últimos dias, recebe ainda outras designações, tais como: "tempo aceitável... dia da salvação"(Is.49:8) ou "ano aceitável do Senhor"(Is.61:2a); "dispensação da plenitude dos tempos"(Ef.1:10) ou "dispensação da graça"(Ef.3:2)1 ou "dispensação do mistério"(Ef.3:9); "tempo da oportunidade", "tempo sobremodo oportuno", "dia da salvação"(IICo.6:2), "tempos oportunos" (IITm.2:6), "tempos devidos" (Tt.1:3); "hoje" (Hb.3:7,15;4:7,8); "fins dos séculos" (ICo.10:11); "última hora"(IJo.2:18).
Durante este período a Igreja tem a incumbência de proclamar o evangelho antes que venha o "grande e terrível dia do Senhor"(Ml.4:5), que porá fim aos últimos dias, para inaugurar o "dia da vingança do nosso Deus"(Is.61:2b).
A Bíblia é categórica em afirmar a existência de três dias (considerados como períodos) nos quais se deve fazer distinção quanto ao programa de Deus para cada um deles. O dia do homem é o dia da salvação, dia de oportunidade. O dia do Senhor e o dia de Cristo2 é dia do arrebatamento da Igreja e de tribulação para Israel, e de castigo para os gentios (conforme o pré-milenismo). O dia de Deus é o dia quando "os céus incendiados serão desfeitos e os elementos abrasados se derreterão"(IIPe.3:12). Inicia-se no dia do juízo final, e talvez (conforme o amilenismo ou pós-milenismo), o dia do fim (ICo.15:24), quando "Deus será tudo em todos"(ICo.15:28).
O estudo da escatologia deve levar o crente a proclamar o dia do homem(a salvação), o dia do Senhor (a volta de Cristo)e o dia de Deus(após o juízo).Veja Jo.16:8; Hb.6:2. Se queremos conhecer as profeciais apenas para satisfazer nossa curiosidade, então estaremos nos aplicando aos estudo das Escrituras de uma forma que não agrada a Deus. Deve ser nosso objetivo discernir os tempos para que nossos espíritos se entreguem à mais nobre tarefa da qual fomos incumbidos: o anúncio da morte do Senhor, sua ressurreição e seu retorno à esta terra: "anunciais a morte do Senhor até que Ele venha"(ICo.11;26).
Estudando escatologia, veremos que muitas profecias se cumpriram, demonstração clara e evidente de que as demais profeciais hão de se cumprir, e portanto devemos proclamá-las com ardente fervor. Ouçamos, pois, a advertência do apóstolo: "E digo isto a vós outros que conheceis o tempo, que já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos. Vai alta a noite e vem chegando o dia..."(Rm.13:11,12). Anunciemos o evangelho enquanto é dia (Jo.9:4), antes que venha o "dia de escuridade e densas trevas"(Jl.2:2).
Além deste, podemos citar vários outros motivos porque devemos estudar profecias:
1) Sua importância nas Escrituras é estabelecida pelo fato de que 25% da Bíblia é composta de profecias. Convém mencionar que todas elas, com uma única excessão, são literais.
2) Há a promessa da iluminação do Espírito Santo no estudo das profecias (Jo.16:13).
3) A profecia serve de consolo para os crentes (IITs.1:4-10; Hb.10:32-39).
4) As profecias causam influência nos descrentes (Is.44:28; IICr.36:22,23; Ed.1:1,2).
5) Devemos estudar as profecias para combater as falsas interpretações dada pelas seitas.
6) As profecias nos dão claras orientações para os últimos dias.
7) As profecias nos incitam à uma vida de pureza (I Jo.3:1-3).
8) Oferece equilíbrio doutrinário na vida do estudante de profecias.
É mister lembrar que o estudo da escatologia não nos levará a desvendar todos os mistérios, épocas e tempos estabelecidos por Deus. Deus nos dará compreensão apenas às coisas que nos foram reveladas (Dt.29:29), mas as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, e não nos "compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade"(At.1:7).
CAPÍTULO I
ESCATOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS
A doutrina ortodoxa da Igreja, embora com nuances de variações, sempre dominou sobre as demais tendências teológicas. Em todos os séculos sempre houveram segmentos religiosos inclinados a uma corrente mais liberal. Mas sempre a ortodoxia dominou sobre esses movimentos que geralmente eram mais externos do que internos.
No século XIX, entretanto, o liberalismo teológico invadiu o interior da Igreja, ressurgindo com uma força mais expressiva, atingindo as bases, fazendo com que surgissem novas abordagens teológicas. A ortodoxia sofreu todo tipo de ataques, vindo de todas as partes, da ciência natural às ciências humanas. No campo da filosofia, por exemplo, podemos mencionar Schleiermacher que "propôs um cristianismo como sendo meramente uma questão de sentimentos,"1 negando a questão ética.
Foi nesse tempo de distúrbios teológicos, somado às novidades na área científica, como a teoria das espécies de Darwin, que fez com que a Igreja adotasse novos rumos, a fim de responder aos desafios da época. Foi nesse período que surgiram a Escatologia Consistente de Schweitzer e a Escatologia Realizada de Dodd.
1. ESCATOLOGIA CONSISTENTE:
Alguns defendiam que a essência do cristianismo era de caráter ético. O estabelecimento do reino de Deus não se daria de forma cataclística (como a 2ª vinda de Cristo), mas seria introduzido progressivamente através dos esfôrços dos cristãos. Entre os defensores dessa corrente encontramos Albercht Ritschl.2
Johannes Weiss propôs um meio termo "juntando um conceito verdadeiramente escatológico ou futurista com a idéia do reino como uma realidade ética presente".3
Weiss defendia que Jesus era totalmente escatológico, apocalíptico e futurista.
Mas o pensador de maior expressão dessa tendência teológica foi Albert Schweitzer (1875-1965), porque Schweitzer ampliou a proposta de Weiss, aplicando a sua teologia consistente à todo o Novo Testamento, e não somente aos ensinos de Jesus.
"Segundo a Escatologia Consistente de Scheweitzer, Jesus, crendo ser o Messias de Israel, descobriu que a consumação não chegou quando Ele a esperava (cf. Mt.10:23) e aceitou de bom grado a morte, a fim de que a sua parusia4 com o Filho do Homem pudesse ser forçosamente realizada. Visto que a roda da história não atenderia ao toque de sua mão, girando para completar sua última volta, Ele se lançou sobre ela e foi quebrado por ela, apenas para dominar a história decisivamente por meio do seu fracasso, mais do que poderia ter feito se tivesse realizado sua ambição mal interpretada. A mensagem dele, conforme sustentava Schweitzer, era totalmente escatológica no sentido exemplificado pelo apocalipcismo contemporâneo mais grosseiro. Seus ensinos éticos eram planejados para o período entre o início do seu ministério e a sua manifestação em glória. Mais tarde, quando se percebeu que a morte dele destruíra as condições escatológicas, ao invés de introduzí-las, a proclamação do reino foi substituída pelo ensino da igreja".5
Podemos concluir, por outras palavras, que a Escatologia Consistente defende a idéia de que Jesus não consumou suas predições escatológicas. Nenhum dos fatos "previstos" por Jesus se cumpriram, mas os fatos foram forjados e adaptados às circunstâncias históricas. Jesus previa o óbvio, planejando sistematicamente suas ações, mas nem sempre o óbvio acontecia, portanto Jesus teve que adaptar suas previsões escatológicas. Por isso essa escatologia recebeu o nome de consistente, porque devia ser consistente (de acordo) com os fatos.
2. ESCATOLOGIA REALIZADA:
Enquanto a Escatologia Consistente considerava que os eventos antecipados por Jesus nunca ocorreram, a Escatologia Realizada, ao contrário, afirmava que os eventos já haviam ocorrido, já tinham sido realizados.
O defensor dessa tendência foi Charles H. Dodd (1884-1973). Para Dodd "a nova era já está aqui; Deus estabeleceu o reino. O conceito mitológico do dia do Senhor foi transferido a um evento histórico específico que já ocorreu, ou, na realidade, a uma série de tais eventos - o ministério, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. A escatologia foi cumprida ou 'realizada'. Aquilo que era futuro nos tempos das profecias do Antigo Testamento tornou-se presente. Ao invés de procurar duas vindas de Cristo, devemos entender que há apenas uma; devemos interpretar estas 'predições' à luz das suas declarações de que o Reino de Deus está aqui - está próximo. Jesus não estava falando de como seria, mas de como era".6
Há quatro maneiras de interpretar a escatologia bíblica: "A interpretação idealista (ou simbólica) tira o elemento temporal da apocalíptica. Os símbolos ou eventos que descreve não ocorrerão em qualquer ponto específico na história, mas, sim, representam e apresentam 'verdades eternas', verdades acerca da natureza da realidade ou da existência humana que ou estão continuamente presentes ou recorrem continuamente. Não perguntamos delas: 'Quando?' mas, sim, 'O quê?' O futurista faz os elementos proféticos e apocalípticos nas Escrituras referirem-se primeiramente a um 'tempo do fim' quando todos os eventos virão a acontecer. A maior parte dele ainda é futuro para nós, como era para aqueles que viviam nos tempos bíblicos. O historicista considera que a apocalíptica pertence a eventos que ainda eram futuros na ocasião em que foram descritos (o período bíblico), mas que já ocorreram e continuam a ocorrer dentro da vida histórica da igreja. A abordagem preterista considera que o cumprimento da apocalíptica ocorreu mais ou menos contemporaneamente com o registro bíblico dela. Destarte, os 'últimos tempos' já teriam acontecido quando o escritor bíblico os descreveu".7
Com esses conceitos, agora podemos melhor definir a Escatologia Realizada. Fica claro perceber que a Escatologia Realizada adota uma abordagem preterista na sua interpretação.
J. A. T. Robinson, que foi aluno de Dodd, "interpreta a 'parusia' de Cristo não como um evento literal do futuro, mas como uma apresentação simbólica ou mitológica daquilo que acontece sempre que Cristo vem com amor e poder, demonstrando os sinais da sua presença e as marcas da sua cruz. (...) Robinson nega que Jesus usasse linguagem que subentendesse a sua volta do céu para a terra. As expressões dele que assim foram entendidas apontam para os temas paralelos da vindicação e da visitação - notavelmente sua resposta à pergunta do sumo sacerdote no seu julgamento (Mc.14:62), onde a frase adicional 'desde agora' (Lc.22:69; Mt.26:64) é entendida como parte autêntica da resposta. O Filho do Homem, condenado pelos juízes humanos, será vindicado no tribunal da justiça divina; sua visitação consequente ao seu povo em julgamento e redenção acontecerá 'desde agora' tão seguramente como a sua vindicação.
Ao invés de falar na Escatologia Realizada, Robinson (seguindo Georges Florovski) fala de uma 'Escatologia Inaugurada' - uma escatologia inaugurada pela morte e ressurreição de Jesus, que lançaram e iniciaram uma nova fase do reino em que 'desde agora' o plano divino de redenção atingiria o seu cumprimento. Ao ministério de Jesus antes de sua paixão, Robinson aplica o termo 'Escatologia Proléptica', porque naquele ministério os sinais da era do porvir tornaram-se previamente visíveis".8
CAPÍTULO II
AMILENISMO AGOSTINIANO
Há dois tipos de amilenismo: (1) O Amilenismo Clássico que considera o Reino de Deus como sendo o domínio de Deus sobre os santos que estão nos céus, fazendo do Reino de Deus um reino celestial - o Reino dos Céus. (2) O Amilenismo Agostiniano, que também é o ponto de vista defendido pela Igreja Católica Romana, considera o cumprimento de todas as promessas do Antigo Testamento com respeito ao Reino, como sendo o reinado de Cristo do trono do Pai sobre a Igreja, que está na terra. Esses dois pontos de vista são considerados ortodoxos, pois ainda defendem uma interpretação literal das doutrinas da ressurreição, do juízo, do castigo eterno, e outros temas relativos. O Amilenismo Modernista, no entanto, nega as doutrinas da ressurreição, do juízo, da segunda vinda, do castigo eterno, e outros assuntos relativos. O amilenismo romano produziu o sistema de purgatório, o limbo, e outras doutrinas não bíblicas. Estudaremos apenas o amilenismo ortodoxo.
1. DESCRIÇÃO E ORIGEM:
O Amilenismo Agostiniano ensina que não haverá um milênio de paz e justiça na terra antes do fim do mundo. Os amilenistas crêem que haverá um crescimento contínuo de bem e mal no mundo que culminará na Segunda Vinda de Cristo quando os mortos serão ressuscitados e se processará o último julgamento. Os amilenistas crêem que o Reino de Deus está presente agora no mundo, enquanto o Cristo vitorioso governa seu povo através de sua Palavra e Espírito. Este conceito de amilenismo recebe o nome agostiniano porque foi defendido por Agostinho de Hipona (354-430 d.C.). Inicialmente Agostinho era pré-milenista, mas abandonou esta posição "em vista do extremismo e carnalidade imoderada daqueles que sustentaram o pré-milenismo em sua época." Agostinho foi também influenciado por Ticônio e pelo método de interpretação alegórica de Orígenes.
Durante os primeiros três séculos a interpretação pré-milenista dominou sobre a Igreja Primitiva, mas a partir do século IV o amilenismo ganhou força, principalmente porque a Igreja Cristã recebeu uma posição favorável do Imperador Constantino, que deu fim a perseguição da Igreja. A "conversão" de Constantino e o reconhecimento político do cristianismo, foi interpretado como o princípio do reino milenial sobre a terra. No Concílio de Éfeso, em 431, o pré-milenismo foi condenado como superstição. Embora o amilenismo tenha dominado na história da Igreja por treze séculos (do século IV a XVII), especialmente porque tinha o respaldo dos Reformadores, o pré-milenismo continuou a existir e a ser defendido por certos grupos de crentes. Durante o século XIX o pré-milenismo atraiu novamente a atenção. Este interesse foi nutrido pelo violento transtorno das instituições políticas e sociais européias na época da Revolução Francesa.
O Amilenismo Agostiniano angariou expressão no seio da Igreja, dominando por treze séculos. Ainda hoje o Amilenismo Agostiniano encontra adéptos em todas as denominações religiosas. O Dr. Pentecost alista sete razões porque o Amilenismo Agostiniano é tão popularmente aceito: "(1) Es un sistema inclusivo, que puede abarcar todos los estratos del pensamiento teológico: protestante modernista, protetante ortodoxo y católico romano... (2) Con excepción del premilenarismo, es la teoría relativa al milenio más antigua; y por lo tanto, tiene la pátina o el barniz de la antigüedad sobre ella. (3) Tiene el sello de la ortodoxia, por cuanto fue el sistema adoptado por los reformadores y llegó a ser el fundamento de muchas declaraciones de fe. (4) Se conforma con el eclesiasticismo moderno, que hace hincanpié en la iglesia visible que es, para el amilenarismo, el centro de todo el programa de Dios. (5) Presenta un sencillo sistema escatológico, con una sola resurrección, un juicio, y muy poco programa profético futuro. (6) Se conforma fácilmente con las presuposiciones de la llamada 'teología del pacto'. (7) Atrae a muchos por ser una interpretación 'espiritual' de la Escritura, en vez de ser una interpretación literal, la cual sería un 'concepto carnal' del milenio." ((1) É um sistema inclusivo, que pode abraçar todos as esferas de pensamento teológico: protestante modernista, protestante ortodoxo e católico romano... (2) Com excessão do pré-milenismo, é a teoria relativa ao milênio mais antiga; e portanto, tem a proteção ou a cobertura da antiguidade sobre ela. (3) Tem o selo da ortodoxia, porquanto foi o sistema adotado pelos reformadores e chegou a ser o fundamento de muitas declarações de fé. (4) Se conforma com o eclesiasticismo moderno, que tem acampado na igreja visivel que é, para o amilenismo, o centro de todo o programa de Deus. (5) Apresenta um simples sistema escatológico, com uma só ressurreição, um juízo, e muito pouco programa profético futuro. (6) Se conforma facilmente com as presuposições da chamada "teologia do pacto". (7) Atrai a muitos por ser uma interpretação "espiritual" da Escritura, em vez de ser uma interpretação literal, a qual seria um "conceito carnal" do milênio. - tradução do autor).
2. APOIO DO NOVO TESTAMENTO:
Notamos nesta definição que o termo amilenismo é infeliz, pois sugere que os amilenistas não crêem em qualquer tipo de milênio. É verdade que os amilenistas agostinianos rejeitam a idéia de um reino terreno literal de mil anos que se seguirá ao retorno de Cristo, mas também é verdade que eles crêem que o milênio de Apocalipse 20 não é exclusivamente futuro, mas está em processo de realização hoje, não literalmente, mas de forma espiritual. Cristo reina hoje na terra, através da Igreja, pois os amilenistas crêem que o reino de Deus está no seio da Igreja: "...não vem o reino de Deus com visível aparência... porque o reino de Deus está dentro em vós."(Lc.17:20,21). Os amilenistas crêem que os crentes já reinam com Cristo no presente, pois Ele "nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai..."(Ap.1:6). A Igreja de Cristo é "sacerdócio real"(IPe.2:9), e nessa qualidade reina, expandindo o Reino de Deus no mundo, através de proclamação "das virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz." Para os Amilenistas Agostinianos o Reino de Deus prometido ao povo de Israel, foi transferido para a igreja (Mt.42,43), porque Israel rejeitou o seu Messias. Por causa disso a Igreja agora é o novo "Israel de Deus."(Gl.6:16).
Os amilenistas crêem na expansão do evangelho, porque acreditam que Ap.20:3 já se cumpriu. Para eles Satanás está preso agora. Figueredo citando Agostinho diz que "em sua exegese concluiu que Cristo o prendeu na sua 1ª vinda - Ele 'manietou o valente' (Mt.12:26-29) - desfez as obras dele (IJo.3:8), aniquilou-o na cruz (Hb.2:14) e triunfou dele na cruz (Cl.2:15). Expulsou e julgou o príncipe deste mundo (Jo.12:31;16:11). Em Lucas 10:17,18 ele é 'lançado à terra' quando os discípulos pregavam."
Para explicar a ação de Satanás na presente era, Figueredo explica que a palavra preso usado em Ap.20:3 não significa inativo, mas apenas limitado. "Sua prisão, cremos, é relacionada com o impedimento de sua ação contra a Igreja (Mt.18:16-18); ele não pode impedir o avanço da Igreja e do Evangelho."
Figueredo prossegue dizendo que esta limitação de Satanás terá fim, quando ele for solto novamente, fato que será concomitante com a grande tribulação (Mt.24:29,30) e com a apostasia (IITs.2:8). Depois o Senhor descerá do céu e destruirá o Anticristo. "Então se seguirão o novo céu e a nova terra, onde os salvos reinarão, não apenas por mil anos, mas para sempre."
O Dr. Russel Shedd informa que Agostinho interpretou a prisão de Satanás à maneira da Escatologia Realizada de Dodd. Shedd diz que "para Agostinho, Marcos 3:27, continha a chave da compreensão certa do milênio... explicou este verso assim: ninguém poderá entrar na casa do poderoso e tomar os seus bens sem primeiramente amarrá-lo. O homem forte era Satanás. Seus bens, são os cristãos (antes da conversão) que estavam sob o seu domínio. Cristo o dominou, amarrando-o e segurando-o durante todo o período entre a primeira e a segunda vinda. No fim desta época Satanás será posto em liberdade para testar a Igreja. Em seguida será absolutamente dominado, iniciando a era eterna."
O Amilenismo Agostiniano, portanto, prevê o completo domínio do bem sobre o mal, através da pregação do evangelho. A medida que o Reino de Deus está sendo expandido na terra, através da Igreja, a situação do mundo vai melhorando.
3. AS DUAS RESSURREIÇÕES:
A interpretação que se dá as duas ressurreições mencionadas em Apocalipse 20:4-6, direciona para uma das posições escatológicas existentes. Aqueles que interpretam as duas ressurreições como sendo ambas corporais, ocorridas interpoladamente entre um período de mil anos, inclinam-se para o pré-milenismo. Os que defendem ser a primeira ressurreição, uma ressurreição espiritual, e a segunda uma ressurreição corporal, adotam o amilenismo ou o pós-milenismo.
Os amilenistas, tanto quanto os pós-milenistas, alegam que as pessoas mencionadas em Ap.20:4 que "viveram e reinaram com Cristo durante mil anos." passaram por uma ressurreição espiritual, ocorrida no novo nascimento, e agora reinam espiritualmente com Cristo.
Para fundamentar esta interpretação apelam para a exegese do texto. Afirmam que o verbo grego ezhsan (ezêsan = viveram) aplica-se tanto à uma ressurreição espiritual, da alma, como à uma ressurreição literal, do corpo. Aqui em Apocalipse 20 o "viveram" do versículo 4 faz referência à uma ressurreição espiritual, enquanto que o "viveram" do versículo 5 se refere a uma única ressurreição corporal, tando dos salvos quanto dos perdidos.
Para dar amparo à interpretação espiritual, citam outras passagens do Novo Testamento onde o mesmo verbo grego é utilizado com esse sentido. Em João 5:21 é usado o verbo grego zwopoiew (zôopoiéô = fazer viver, dar vida ) com sentido espiritual. Este mesmo verbo é usado em ICo.15:22,36, 45; IICo.3:6; IPe.3:18; Rm.4:17. Efésios 2:1-6 também dá apoio a uma ressurreição espiritual. Mas a passagem de maior expressão, mencionada pelos alegoristas, para comprovar a ocorrência de uma ressurreição espiritual e outra física no mesmo contexto, encontra-se em João 5:25-29: "Em verdade, em verdade vos digo, que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus; e os que ouvirem viverão (zesousin). (...) Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida: e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo."
O Dr. Ladd diz que "aqui há primeiramente uma ressurreição espiritual, seguida por uma ressurreição física escatológica. Intérpretes amilenistas argumentam que Apocalipse 20 deveria ser interpretado de forma análoga a João 5."
Para o grupo dos que vivem, a hora já chegou. Isto deixa claro que a referência é aos que estão espiritualmente mortos e entram na vida ouvindo a voz do Filho de Deus. O outro grupo (todos), são os que se acham nos túmulos, são tanto aqueles que estão espiritualmente mortos, como aqueles que vivem e já tiveram parte na primeira ressurreição. Ambos serão trazidos à vida, simultaneamente, uns para a ressurreição da vida e outros para a ressurreição do juízo. "Desse modo fica claro que o texto está falando de dois tipos de 'viver': uma ressurreição espiritual no presente e uma ressurreição física no futuro."
4. PROFECIAS DO ANTIGO TESTAMENTO:
Um dos principais argumentos dos amilenistas para a interpretação das profecias do Antigo Testamento acerca dos últimos tempos é que as profecias do Antigo Testamento acerca da primeira vinda de Jesus cumpriram-se espiritualmente.
A hermenêutica adotada pelos amilenistas, para as profecias, é o método alegórico de interpretação. Para os amilenistas o conteúdo histórico da Bíblia deve ser entendido literalmente; o material doutrinário também deve ser interpretado desta maneira; a informação moral e espiritual, do mesmo modo, segue este padrão; entretanto, o material profético deve ser interpretado alegóricamente.
Os defensores do amilenismo argumentam que há diversas profecias, no Antigo Testamento, acerca da primeira vinda de Jesus, que se cumpriram espiritualmente.
Como exemplo podemos citar uma profecia de Oséias onde lemos: "Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho."(Os.11:1). Esta afirmação histórica que Deus chamou Israel do Egito no Êxodo foi aplicada espiritualmente, no Novo Testamento, à Jesus Cristo, em Mateus 2:15.
Outro exemplo citado pelos exegetas amilenistas é a profecia de Isaías 53:5,6. Em seu contexto, no Antigo Testamento, esta passagem não é uma profecia do Messias, mas sim um servo anônimo, pois o servo sofredor nunca é chamado de Messias. Muitas passagens identificam o servo sofredor com o próprio povo de Israel (Is.45:3;49:3,5;52:13). Entretanto os escritores do Novo Testamento aplicaram o texto de Is.53:5,6 à Jesus Cristo (Mt.8:17; At.8:30-35). Portanto à luz do Novo Testamento o servo sofredor é ao mesmo tempo Israel e o seu Messias. Nota-se o princípio da interpretação espiritual aplicável ao texto.
Vemos este mesmo princípio aplicado à Igreja (Os.1:9,10;2:23 em Rm.9:25,26; Jr.31:33,34 em Hb.8:8-12), como também em relação a João Batista (Ml.3:1;4:5 em Mt.11:13,14;17:11,12). Assim, dentro da perspectiva amilenista "o que une o Antigo e o Novo Testamentos é a unidade do pacto da graça.Os amilenistas não crêem que a história deve ser dividida em uma série de dispensações distintas e discrepantes, mas veêm um único pacto da graça que percorre toda a história. Este pacto da graça ainda está em efeito hoje, e culminará na convivência eterna de Deus e seu povo redimido na nova terra". O Dr. J. Dwight Pentecost, em sua obra Eventos do Porvir explica as implicações da teologia do pacto: "...se considera todo el programa de Dios como un programa redentor, de manera que todas las edades son variaciones en la revelación progressiva del pacto de la redención. En lo referente a la escatología, considera que todos los santos de todas as edades son miembros de la Iglesia. Esto perde de vista todas las distinciones que hay entre el programa que Dios tiene para Israel y el que tiene para la Iglesia, y requiere la negación de la enseñanza de la Escritura de que la Iglesia es un misterio, no revelado hasta la edade presente". (...considera todo o programa de Deus como um programa redentor, de maneira que todas as eras são variações na revelação progressiva do pacto da redenção. No que se refere a escatologia, considera que todos os santos de todas as eras são membros da Igreja. Isto perde de vista todas as distinções que há entre o programa que Deus tem para Israel e que tem para a Igreja, e requer a negação do ensino da Escritura de que a Igreja é um mistério, não revelado até a era presente. - tradução do autor).
Vejamos ainda mais dois exemplos de passagens proféticas do Antigo Testamento, que são interpretadas como sendo a descrição do reino milenial. O amilenista Anthony A. Hoekema dá a sua interpretação.
A primeira está em Isaías 11:6-9, onde lemos que "o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito..." Hoekema argumenta que "no fim dos tempos haverá uma nova terra (veja, por exemplo, Is.65:17;66:22; Ap.21:1). Por que não podemos entender os detalhes que encontramos nestes versos como descrições da vida na nova terra? (...) Por que temos de pensar nestas palavras como se tivessem aplicação apenas a um período de mil anos precedendo a nova terra?"
A outra passagem que Hoekema faz referência é Isaías 65:17-25. Ele argumenta que "o verso 18 chama o leitor a exultar 'perpetuamente' - não apenas por mil anos - nos novos céus e nova terra que acabaram de ser descritos. Isaías não está falando aqui de uma novidade para durar apenas mil anos, mas uma novidade eterna!"
CAPÍTULO III
AMILENISMO CLÁSSICO
1. DESCRIÇÃO:
Contrariando o amilenismo agostiniano, o amilenismo clássico não defende um futuro tão otimista para a humanidade. Para eles a presente era vai piorando cada vez mais até a Segunda Vinda de Cristo, o qual virá para dar fim a apostasia. Isto acontece porque este tipo de amilenismo ensina que o milênio mencionado em Apocalipse 20 é distinto da era da Igreja, mesmo que preceda ao Segundo Advento. Esta posição parece ter surgido, como uma tendência alternativa, em substituição ao Amilenismo Agostiniano, para explicar a realidade de que o mundo não vai melhorar, mesmo diante da pregação do evangelho. Pelo contrário, perpetua-se a incredulidade, o pecado e a rejeição de Cristo.
Desse modo os amilenistas clássicos asseveram que o milênio não é tanto "un período de tiempo, sino de un estado de bienaventuranza de los santos en el cielo."1 (um período de tempo, mas sim de um estado de bem-aventurança dos santos nos céus. - tradução do autor). Pentecost citando mais uma vez o pré-milenista John F. Walvoord, que por sua vez cita o amilenista B. B. Warfield, escreve: "Warfield, com la reconecida ayuda de Kliefoth, define el milenio con estas palabras: 'La visión, en una palabra, es una visión de la paz de aquellos que han muerto en el Señor; y su mensaje para nosostros está incorporado en las palabras de Apocalipsis 14:13: Bienaventurados de aquí en adelante los que mueren en el Señor - pasaje del cual la era presente es en verdad sólo una aplicación. El cuandro que se nos presenta aquí es, en fin, el cuadro del estado intermedio de los santos de Dios reunidos en el cielo lejos del ruido confuso y de las vestiduras bañadas en sangre que simbolizan la guerra sobre la tierra, para que ellos puedan esperar con seguridad el fin."2 (Warfiel, com a reconhecida ajuda de Kliefoth, define o milênio com estas palavras: "A visão, em poucas palavras, é uma visão da paz daqueles que estão mortos no Senhor, e sua mensagem para nós está incorporada nas palavras de Apocalipse 14:13: Bem-aventurados de agora em diante os que morrem no Senhor - passagem da qual a era presente é em verdade somente uma aplicação. O quadro que se nos apresenta aqui é, enfim, o quadro do estado intermediário dos santos de Deus reunidos no céu, longe do ruído confuso e das vestes banhadas em sangue que simbolizam a guerra sobre a terra, para que eles possam aguardar com segurança o fim. - tradução do autor).
Para os amilenistas clássicos o Reino de Deus é o Reino dos Céus3 , e este foi inaugurado na 1ª vinda de Jesus: "Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós."(Lc.11:20). Outro versículo usado para defender o amilenismo encontra-se naquela passagem quando Jesus enviou seus discípulos para pregarem o Reino de Deus aos seus compatriotas judeus: "...anunciai-lhes: a vós outros está próximo o reino de Deus."(Lc.10:9). Desse modo, o reino prometido a Israel foi transferido para a Igreja (Mt.21:43).
Cristo reina nos céus agora. Enquanto Ele reina, o evangelho será pregado na terra, até que seja divulgado a todas as nações (Mt.24:14). O evangelho, porém, será rejeitado, pois os homens "não suportarão a sã doutrina"(IITm.4:3), a iniquidade se multiplicará e os crentes se esfriarão: "E, por multiplicar a iniquidade, o amor se esfriará de quase todos."(Mt.24:12). Nos últimos tempos "sobrevirão tempos difíceis..."(IITm.3:1), e por isso, surgirão doutrinas de demônios, para as quais "alguns apostatarão da fé"(ITm.4:1). Nesse estado caótico Jesus voltará: "...quando vier o Filho do Homem, achará porventura fé na terra?"(Lc.18:8). Em sua 2ª vinda julgará os povos, separará o trigo do joio, e criará os novos céus e a nova terra. É nesta nova terra que o reino dos céus será implantado.
2. INTERPRETAÇÃO DE APOCALIPSE:
O sistema de interpretação do livro de Apocalipse é o mesmo adotado pelo pós-milenismo, conhecido como paralelismo progressivo, que foi defendido por William Hendriksen, em seu livro: "More Than Conquerors" ("Mais que vencedores").4 Este método de interpretação divide o livro de apocalipse em seções, geralmente sete, "cada uma das quais recapitula os eventos do mesmo período ao invés de descrever os eventos de períodos sucessivos. Cada uma delas trata da mesma era - o período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo - retomando temas anteriores, elaborando-os e desenvolvendo-os ainda mais. Apocalipse 20, portanto, não fala de eventos muitos removidos para o futuro, e o significado dos mil anos deve ser achado nalgum fato passado e/ou presente."5
Hoekema utilizando-se do paralelismo progressivo interpreta apocalipse como segue: "A primeira destas seções está nos capítulos 1 a 3. (...) Conforme lemos estas cartas (dirigidas às sete igrejas) somos impressionados por duas coisas. Primeiramente, há referência a eventos, pessoas e lugares da época em que o livro de Apocalipse foi escrito. Em segundo lugar, os princípios, recomendações e avisos contidos nestas cartas valem para a igreja de todos os tempos.
"A segunda destas seções é a visão dos sete selos que se encontra nos capítulos 4 a 7. (...) Nesta visão vemos a igreja sofrendo provas e perseguições sobre o pano de fundo da vitória de Cristo.
"A terceira seção, nos capítulos 8 a 11, descreve as sete trombetas de julgamento. Nessa visão vemos a igreja vingada, protegida e vitoriosa.
"A quarta seção, capítulos 12 a 14, começa com a visão da mulher dando à luz um filho enquanto o dragão espera para devorá-lo logo que ele nasça - uma referência óbvia ao nascimento de Cristo.
"A quinta seção encontra-se nos capítulos 15 e 16. Descreve as sete taças da ira, representando desta forma de maneira bem vívida a visitação final da ira de Deus sobre os que permanecem impenitentes.
"A sexta seção, capítulos 17 a 19, descreve a queda da Babilônia e das bestas. Babilônia representa a cidade do mundo - as forças do secularismo e impiedade que se opõem ao reino de Deus...
"A sétima seção, narra o fim do dragão... descreve o juízo, o triunfo final de Cristo e sua igreja e o universo restaurado, chamado aqui de os novos céus e nova terra.
"Observe que apesar destas seções serem paralelas entre si, revelam também um certo grau de progressão escatológica. A última seção, por exemplo, leva-nos mais além para o futuro que as outras. Apesar do juizo final já ter sido anunciado em 1:7 e brevemente descrito em 6:12-17, não é apresentado detalhadamente senão quando chegamos a 20:11-15. Apesar do gozo final dos redimidos já ter sido insinuado em 7:15-17, não encontramos uma descrição detalhada e elaborada da bênção da vida na nova terra senão quando chegamos ao capítulo 21 (21:1-22:5). Por esta razão, este método de interpretação é chamado paralelismo progressivo."6
CAPÍTULO IV - PÓS-MILENISMO
1. DESCRIÇÃO:
O pós-milenismo tem sido frequentemente difícil de distinguir do amilenismo agostiniano. Ambos tem muitos pontos em comum. Tal qual os amilenistas eles acreditam que (1) O reino de Deus é uma realidade presente; está aqui de modo terreste, no coração dos homens. (2) O pós-milenista espera uma conversão de todas as nações antes que Cristo retorne à terra. (3) O milênio é um período de paz na terra, a medida que mais pessoas se submetem ao evangelho, pois Satanás está preso. Erickson afirma que "este é um conceito verdadeiramente revolucionário, porque dentro da história registrada, a paz em escala mundial tem prevalecido, em média, somente cerca de uma vez cada quinze anos!"1 (4) Haverá um crescimento paulatino do Reino. (5) No fim do milênio haverá um período de apostasia. (6) A 2ª vinda de Jesus inaugurará a era final e o estado final tanto para crentes como para incrédulos. (7) Os mil anos de Apocalipse são simbólicos. O pós milenista acredita num reino terrestre de Cristo, mas com Cristo ausente ao invés de presente. (8) As profecias são menos literais e mais predominantemente simbólicas.
2. ORIGEM:
O pós-milenismo alcançou maior expressão a partir do século XVIII, com o advento do iluminismo. Históricamente o pós-milenismo dominou nos últimos cem anos. Atualmente esta posição não possui muita expressão no meio evangélico. Segundo o Dr. Pentecost, "el postmilenarismo ya no es un problema en la teología. La Segunda Guerra Mundial le produjo la muerte a este sistema. Su colapso puede atribuirse a (1) su inherente debilidad, ya que, basado en el principio de espiritualizar la interpretación, no había en él coherencia alguna; (2) la tendencia hacia el mordenismo, al cual el postmilenarismo no podía enfrentarse, debido a ese mismo principio de interpretación; (3) su fracaso en ajustarse a los hechos de la histori; (4) la nueva tendencia hacia el realismo de la teología y en la filosofía, que se ve en la neo-ortodoxia, la cual admite que el hombre es pecador, y no puede producir la nueva era prevista por el postmilenarismo; y (5) una nueva tendencia hacia el amilenarismo, procedente del regreso a la teología de la Reforma, como base de la doctrina. El postmilenarismo no encuentra defensores ni partidarios en las presentes discusiones del milenio dentro del mundo teológico."2 ( o pós-milenismo já não é um problema para a teologia. a Segunda Guerra Mundial produziu a morte deste sistema. Seu colapso pode atribuir-se a (1) sua inerente debilidade, já que, baseado no princípio e espiritualizar a interpretação, não oferece nenhuma coerência; (2) a tendência frente ao modernismo, ao qual o pós-milenismo não podia enfrentar, devido a esse mesmo princípio de interpretação; (3) seu fracasso em ajustar-se aos fatos da história; (4) a nova tendência frente ao realismo da teologia e da filosofia, que se ve na neo-ortodoxia, a qual admite que o homem é pecador, e não pode produzir a nova era prevista pelo pós-milenismo; e (5) uma nova tendência frente ao amilenismo, procedente do regresso à teologia da Reforma, como base da doutrina. O pós-milenismo não encontra defensores nem partidários nas presentes discussões do milênio dentro do mundo teológico. - tradução do autor).
3. APOIO DO NOVO TESTAMENTO:
Basicamente, os mesmos versículos bíblicos do Novo Testamento, usados pelos amilenistas, são usados para defender a posição pós-milenista. Segundo os conceitos pós-milenistas o mundo vai melhorar com a pregação do evangelho. A pregação do evangelho será eficaz, pois esta não é uma realização humana, realizada por meio de grande perícia ou metodologia evangelística, mas sim uma ação sobrenatural do Espírito Santo de Deus. Desse modo "as portas do inferno não prevalecerão"(Mt.16:18), e a Igreja será vitoriosa. Os pós-milenistas crêem que haverá um reavivamento em escala mundial, antes da volta de Cristo à terra. O Reino milenial está sendo introduzido paulatinamente na era presente, confundindo a era da Igreja com a era do milênio(Mt.17:28). Por enquanto ainda existem problemas sociais, econômicos, educacionais e políticos, mas quando a era milenar absorver a era da Igreja, todos estes problemas serão eliminados. Somente no fim, quando Satanás será solto, e, consequentemente com a vinda do Anticristo, é que haverá um esfriamento dando lugar a apostasia.
O Dr. Loraine Boetttner defende o pós-milenismo da seguinte maneira: "Pós-milenismo é aquela concepção das últimas coisas que sustenta que o reino de Deus está sendo extendido agora no mundo pela pregação do evangelho e a obra salvadora do Espírito Santo no coração dos indivíduos, que o mundo irá finalmente ser cristianizado e que a volta de Cristo ocorrerá no final de um longo período de retidão e paz comumente chamado de milênio. Deve se acrescentar que pelos princípios pós-milenistas a Segunda Vinda de Cristo será seguida imediatamente pela ressurreição geral, julgamento geral, e a introdução da plenitude do céu e do inferno.
"O milênio que os pós-milenistas aguardam é, desta forma, uma era áurea de prosperidade espiritual dentro da atual dispensação, isto é, na Era da Igreja. Isto vai ser provocado por forças que já estão em atividade no mundo. Ele vai durar por um período indefinidamente longo de tempo, talvez muito mais que mil anos literais. O caráter transformado dos indivíduos se refletirá numa vida social, econômica, política e cultural melhor para a humanidade. O mundo todo gozará um estado de retidão que até agora só foi visto em grupos relativamente pequenos e isolados: por exemplo: alguns círculos familiares, e alguns grupos de igrejas locais e organizações semelhantes."3
"Hoje o mundo como um todo está em um plano muito mais elevado. Os princípios cristãos são os padrões aceitos em muitas nações, apesar de não serem praticados consistentemente. A escravidão e poligamia praticamente desapareceram. A situação das mulheres e crianças melhorou enormemente. As condições sociais e econômicas em quase todas as nações alcançaram um outro nível. Um espírito de cooperação está se manifestando entre as nações muito mais do que jamais ocorreu. Incidentes internacionais que apenas há alguns anos atrás teriam resultado em guerras são agora normalmente resolvidos por arbitragem."4
CAPÍTULO V - PRÉ-MILENISMO HISTÓRICO
1. DESCRIÇÃO:
O pré-milenismo histórico afirma que após a 2ª Vinda de Cristo, ele reinará literalmente por mil anos sobre a terra, antes da consumação final do propósito redentivo de Deus nos novos céus e nova terra. Segundo o pré-milenismo histórico a situação do mundo piora cada vez mais até a volta de Cristo, quando Jesus implantará o seu reino, o Reino de Deus, um reino tipicamente eclesiástico, através do qual reinarão todos os salvos de todas as eras. Neste reino não haverá distinção entre Israel e Igreja, mas Cristo reinará sobre a Igreja Universal, composta tanto de judeus como de gentios.
Para o pré-milenista histórico as profecias do Antigo Testamento não são tão predominantemente literais, e por isso algumas profecias relacionadas a Israel, são aplicadas à Igreja neo-testamentária. Desse modo crêem os pré-milenistas históricos que certas profecias estão se cumprindo hoje na história da Igreja, porque para eles, Israel é a Igreja do Antigo Testamento, e a Igreja do Novo Testamento é o novo Israel de Deus.(Mt.21:43; IPe.2:9; Ap.1:6).
Quem defende esta corrente é o Dr. George Eldon Ladd. Ele afirma que "Apocalipse 20:1-6 retrata a Segunda Vinda de Cristo como vencedor vindo destruir seus inimigos: o Anticristo, Satanás e a Morte. Apocalipse 19:17-21 retrata então a destruição do poder malígno por trás do Anticristo - 'o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás"(Ap.20:2). Isto ocorre em dois estágios.
"Primeiramente, Satanás é preso e encarcerado no abismo (Ap.20:1) por mil anos "para que não mais enganasse as nações"(Ap.20:3) como havia feito através do Anticristo. Neste ponto ocorre a 'primeira ressurreição'(Ap.20:5) de santos que participam do reinado de Cristo sobre a terra pelos mil anos. Depois disto Satanás é solto de seus grilhões e, apesar do fato de Cristo haver reinado sobre a terra por mil anos, acha ainda os corações dos homens não-regenerados prontos a se rebelar contra Deus. Segue-se a guerra escatológica final e o diabo é lançado no lago de fogo e enxofre, ocorre então a segunda ressurreição, daqueles que não haviam sido ressurretos no milênio. Eles comparecem ante o trono de julgamento de Deus para serem julgados conforme as suas obras. 'Se alguém não foi achado inscrito no livro da vida, esse foi lançado para dentro do lago de fogo' (Ap.20:15). Então a morte e o inferno foram lançados para dentro do lago de fogo.
"Assim Cristo alcança sua vitória sobre seus três inimigos: o Anticristo, Satanás e a Morte.1 Só então, subjugados todos os poderes hostís, o cenário está preparado para o estado eterno - a vinda dos novos céus e nova terra (Ap.21:1-4). Esta é a maneira mais natural de se entender Apocalipse 20."2
2. INTERPRETAÇÃO DE GÁLATAS 6:16
Para os pré-milenistas históricos a Igreja é o Israel de Deus, mencionado por Paulo em Gl.6:16. Não há nenhuma distinção entre Israel e Igreja hoje, e do mesmo modo não haverá no milênio. Para chegar a esta conclusão, fazem uso do mesmo princípio de interpretação utilizado pelos amilenistas, em relação as profecias do Antigo Testamento.
Ladd afirma que "uma ilustração extremamente vívida deste princípio encontra-se em Romanos 9, onde Paulo está falando de 'nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios'(Rm.9:24). Em outras palavras, Paulo está falando da igreja em Roma, que contava com alguns judeus, mas era em sua maioria gentia. Para provar que era o propósito de Deus chamar tal povo à existência, Paulo cita duas passagens de Oséias. 'Assim como também diz em Oséias: Chamarei povo meu ao que não era meu povo; e, amada, à que não era amada; e no lugar em que se lhes disse: Vós não sois meu povo, ali mesmo serão chamados filhos do Deus Vivo.'(Rm.9:25,26) Em Oséias, ambas as passagens referem-se ao Israel literal, nacional. Por causa de sua rebeldia, Israel não é mais o povo de Deus. 'Disse o Senhor a Oséias: Põe-lhe o nome de não-meu-povo, porque vós não sois meu povo, nem eu serei vosso Deus.'(Os.1:9). Israel foi rejeitado pelo Senhor por sua descrença. Mas Oséias ainda vê um dia de arrependimento no futuro, quando um povo desobediente se tornará obediente. Ele vê um grande remanescente, como a areia do mar. 'E no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus Vivo'(Os.1:10). Isso se refere a uma futura conversão dos judeus. O mesmo pode ser dito da segunda profecia: 'Compadecer-me-ei da desfavorecida; a não-meu-povo direi: Tu és o meu povo; e ele dirá: Tu és o meu Deus!'(Os.2:23). Novamente o que se vê é uma salvação futura do Israel literal quando o povo, rejeitado por Deus, novamente se tornará povo de Deus.
"Paulo toma deliberadamente estas duas profecias acerca da salvação futura de Israel e as aplica à Igreja. A Igreja, formada de judeus e gentios, tornou-se o povo de Deus. As profecias de Oséias se cumprem na igreja cristã. Se esta é uma 'hermenêutica espiritualizante', que seja. É claramente isto que o Novo Testamento faz às profecias do Antigo Testamento.
"A idéia da Igreja como Israel espiritual aparece em outras passagens. Abraão é chamado 'o pai de todos os que crêem'(Rm.4:11); é 'o pai de todos nós que somos da fé que teve Abraão'(Rm.4:16); são ós da fé' que são 'filhos de Abraão'(Cl.3:7); é. se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão, e herdeiros segundo a promessa'(Cl.3:29). Se Abraão é o pai de um povo espiritual, e se todos os crentes são filhos de Abraão, seus descendentes, segue-se então que são Israel espiritualmente falando.
"É isto que leva Paulo a dizer: 'Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra (Rm.2:28,29)".3
Ladd continua a sua argumentação dizendo que outra profecia dada a Israel foi aplicada à Igreja. Segundo Ladd o profeta Jeremias antevê um dia quando Deus fará uma nova aliança com o Israel rebelde (Jr.31:33,34). Para Ladd o livro de Hebreus aplicou esta profecia à nova aliança feita no sangue de Cristo (Hb.8:8-12).
Loraine Boettner, fazendo apologia do pós-milenismo, interpreta o Israel de Deus como sendo a Igreja neo-testamentária. Ele diz que "Cristo derrubou 'a parede de separação que estava no meio, a inimizade entre judeus e gentios, para que 'reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz"(Ef.2:14-16)." Para Boettner o ensino de Paulo é que "em assuntos de fé, o relacionamento espiritual tem precedência sobre o físico e que todos os crentes são filhos de Abraão. E vice-versa... a velha distinção entre judeu e gentios foi aniquilada. Na igreja não há promessas ou privilégios dados a qualquer grupo ou nacionalidade que não se apliquem também igualmente a todos os outros."
Boettner prossegue dizendo que quando Cristo veio e foi rejeitado pela nação de Israel, "Ele depôs os líderes do judaísmo apóstata, fariseus e anciãos, e indicou um novo conjunto de oficiais, os apóstolos, através dos quais estabeleceria a sua igreja. Aos líderes do judaísmo ele disse: 'O reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo a igreja que lhe produza os respectivos frutos.'(Mt.23:43). De conformidade com isto todo o sistema religioso do judaísmo foi abolido, terminou. E em seu lugar, a Nova Aliança tornou-se o instrumento oficial e autorizado para Deus lidar com seu povo, a igreja."4
CAPÍTULO VI - PRÉ-MILENISMO DISPENSACIONALISTA
1. ORIGEM:
O pré-milenismo tem suas origens na Igreja Primitiva. Durante os séculos I a III o pré-milenismo era a interpretação da Igreja Primitiva. O pré-milenismo contava também com o apoio da autoridade patrística, pois muitos pais da Igreja defenderam o pré-milenismo: Papias, Irineu(170), Justino Mártir(150), Tertuliano, Hipólito, Metódio, Comodiano e Lactâncio.
A Igreja Primitiva acreditava que os mil anos de Apocalipse seria introduzido de modo escatológico e futurista. Este reino era retratado de modo bastante vívido, o que deu origem ao quiliasmo1, uma doutrina intensamente imaginativa sobre o milênio. "O quiliasmo foi bastante popular durante o período de perseguição da Igreja, quando parecia improvável que a igreja fosse bem sucedida no seu esfôrço de ganhar o mundo para Cristo mediante a pregação do evangelho. Se a igreja deveria ser vitoriosa, teria que ocorrer alguma reviravolta dramática, cataclísmica e sobrenatural do curso dos eventos".2
A esperança da volta de Cristo para o estabelecimento do seu reino, deu aos cristãos dos primeiros séculos força suficiente para resistirem as perseguições. Apesar disso, muitos estavam esmorecendo, por isso Deus deu à João as revelações do apocalipse, para que lhes servisse de conforto e esperança. Que esperança teriam se as profecias apocalípticas fossem entendidas apenas espiritualmente, excluindo o fato de que Cristo voltaria para por fim as perseguições? Interpretando Apocalipse de forma literal, não teriam os cristãos incorrido em êrro, e Deus não estaria dando esperanças falsas? É evidente que o milênio foi corretamente interpretado pelos cristãos primitivos, e com tal esperança fizeram resistência ao Império. Tal resistência fez com que o cristianismo fosse finalmente aceito por Constantivo no século IV. A suposta conversão de Constantino e o término das perseguições fizeram os cristãos reverem seus conceitos sobre o milênio. É claro que muitos cristãos se mantiveram fiéis à interpretação literal do milênio, recusando a interpretação da Igreja oficial baseada no método alegórico de Orígenes.
Somente após a reforma o pré-milenismo voltou a ganhar força, isto porque os reformadores voltaram a enfatizar o método literal de interpretação das Escrituras, embora eles próprios tenham recusado a crença em um milênio literal. Entretanto o pré-milenismo nunca deixou de existir. Em toda a história da Igreja cristã sempre houveram homens que defenderam com suas vidas essa doutrina.
Recentemente o pré-milenismo tem recebido a atenção de homens de reconhecido saber teológico, autoridades bíblicas e comentaristas de renome. Homens como o calvinista Johann Heinrich Alsted (1588-1638), o anglicano Joseph Mede (1586-1638), J. H. Bengel, Issac Newton, Joseph Priestley, Edward Irving(1782-1834), J.N. Darby(1800-1882)3,W. E. Blackstone, James Hall Brooks, G. Campbell Morgan, H. A. Ironside, Henry Moorhouse, D. L. Moody (1837-1899), A. C. Gaebelein, C. I. Scofiel, C. H. Mackintosh, William Kelly, F. W. Grant e muitos outros.
2.DESCRIÇÃO:
A volta de Cristo está dividida em duas fases, sendo a 1ª de forma secreta - o arrebatamento da Igreja - e a segunda de forma visível "porque todo olho o verá"(Ap.1:7). Na 1ª vinda Jesus também veio em duas fases: na primeira Ele veio de forma visível para o seu povo Israel (Jo.1:11); na segunda Ele veio de forma secreta para a Igreja, através do Espírito Consolador (Jo.14:18-23). Na 2ª vinda ocorre uma inversão, pois primeiro o Senhor se manifestará secretamente apenas para a Igreja (na 1ª fase), e depois se manifestará visivelmente à Israel (Is.52:8; Mt.23:39; 24:27,30; Zc.12:10; At.1:11; Zc.14:4,9).
Desse modo os pré-milenistas crêem que a volta de Cristo (2ª fase) será precedida de certos sinais, como a pregação do evangelho à todas as nações (Mt.24:14; Ap.7:4; 14:1; 11:3; 14:6; Is.66:19; Veja Cl.1:6; 1:23; ITs.1:8) no período entre a 1ª e a 2ª fase da 2ª vinda, o qual a Bíblia chama de tribulação (Mt.24:21). Também haverá apostasia, guerras (Zc.14:13; Ap.6:3,4), fome (Ap.6:5), terremotos (Mt.24:29; At.2:19,20) e a manifestação do Anticristo (Mt.24:24; Ap.13:1-10) e do Falso Profeta (Ap.13:11-18), os quais juntamente com Satanás (o Dragão - Ap.12:9), formarão a "trindade satânica" (Ap.16:13), que enganarão as nações (Ap.13:13,14; IITs.2:9,10). Somente depois da manifestação do Anticristo, o "Homem da Iniquidade"(IITs.2:3) é que Jesus voltará, juntamente com os seus santos (Zc.14:5; Jd.14) para estabelecer o seu reino(Ap.11:15-18; Zc.14:9; Mt.25:34; 26:29). Durante a tribulação o evangelho será anunciado, mas a salvação será concedida com muitas tribulações, pois os santos que estiverem na terra serão perseguidos (Mt.24:13,22; Ap.13:7-10).
A volta de Cristo será seguida de um período de paz e justiça antes do fim do mundo. Jesus reinará na terra(Jr.23:5; Zc.14:9) pessoalmente como Rei dos reis (Ap.19:16; Sf.3:15; Zc.14:16). Ele estabelecerá um reino judaico, no qual Davi será Co-regente (Mq.5:2; Is.24:21-23; veja Ap.12:7; Ez.37:24-28; compare 20:33-35 com Ap.12:6,13,14). Neste tempo o tabernáculo de Davi será restaurado (At.15:16; Zc.6:13), e o próprio Jesus será ao mesmo tempo Rei, Sacerdote e Profeta (Mq.5:2; Zc.6:13).
Este reino não será estabelecido pela conversão de indivíduos durante um longo período de tempo, mas virá subitamente e com irresistível poder (IITs.1:7,8; Is.66:15,16). Os judeus que ficarem vivos, o Israel remanescente (Rm.11:5,26; Mq.5:7,8; Mq.2:12,13 Sf.3:13; Zc.13:1,8,9) se converterão e se tornarão sacerdotes do reino (Ex.19:6; Mq.4:1,2; Ob.21). A natureza participará das bençãos mileniais produzindo abundantemente (Is.30:23-26; 66:25). Este reino durará mil anos, e durante este tempo Satanás será aprisionado. Os salvos serão ressuscitados para reinarem com Cristo (Ap.20:1-4,6). Depois dos mil anos os mortos não crentes serão ressuscitados(a 2ª ressurreição) para serem julgados e condenados (Ap.20:5).
Este tipo de milenismo é chamado de dispensacionalista porque considera a era do milênio como sendo a última dispensação4 criada por Deus, e faz nítida distinção entre Israel e Igreja. Atualmente vivemos na Dispensação da Graça ou a Era da Igreja. No milênio teremos a Dispensação do Reino ou a Era do Milênio.
3. AS DUAS RESSURREIÇÕES:
O pré-milenismo defende que haverá duas ressurreições em etapas diferentes. A 1ª ressurreição ocorrerá antes do milênio, e esta tem várias fases; a 2ª acontecerá depois do milênio, e será apenas para os perdidos. Essa maneira de interpretar exige que o verbo grego ezhsan (ezêsan = viveram) usado em Ap.20:4,5 seja entendido no sentido literal. Interpretar o primeiro "viveram"(v.4) como sendo espiritual (novo nascimento), e o segundo "viveram"(v.5) como sendo literal (ressurreição corporal) é algo que foge à boa hermenêutica.
Ladd também refuta a interpretação espiritual, citando as palavras de Henry Alford: "Se, numa passagem onde duas ressurreições são mencionadas, onde algumas psychai ezêsan primeiro, e o resto dos nekroi ezêsan só no final de um período específico depois dos primeiros, se uma passagem como essa a primeira ressurreição pode ser entendida como uma ressurreição espiritual com Cristo, enquanto que a segunda significa ressurreição literal, dos sepulcros, então acabou-se toda a significação da linguagem, e a Escritura é anulada como testemunho definitivo sobre qualquer coisa".5
A interpretação literal deve ser adotada para as duas ocorrências do verbo. O grego ezhsan (ezêsan = viveram), pode de fato ser interpretado no sentido espiritual, como em Jo.5:25 e Ef.2:1-6, mas também é usado nas Escrituras com o sentido literal. Em Ap.2:8 e 13:14 o mesmo verbo é empregado para se referir à ressurreição corporal de Cristo e da besta. Portanto Ap.20:4,5 não deve ser interpretada de forma análoga a Jo.5:25, de modo nenhum.
Há ainda outras referências bíblicas que tratam da ressurreição, que, examinadas acuradamente, hão de demonstrar a existências de duas ressurreições literais. O Dr. Pentecost, em seu livro Eventos do Porvir argumenta a este respeito com incrível habilidade. Vejamos o que ele tem a dizer sobre o assunto:
3.1 A Ressurreição para a Vida:
"A ressurreição para a vida. Há um número de passagens que ensinam esta parte distintiva do programa da ressurreição.
"'...e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos'(Lc.14:14).
"'Para o conhecer e o poder da sua ressurreição e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para de algum modo alcançar a ressurreição dentre os mortos' (literalmente: a ressurreição, a dentre os mortos) (Fp.3:10,11).
"'Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição'(Hb.11:35).
"'Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele os mil anos'(Ap.20:6).
"Estas referências mostram que há uma parte do programa da ressurreição que se chama 'a ressurreição dos justos', 'a ressurreição de entre os mortos', 'uma ressurreição superior', 'a ressurreição da vida', e a 'primeira ressurreição'. Estas frases sugerem uma separação; uma ressurreição de uma parte daqueles que estão mortos, ressurreição que deixa alguns mortos... Blackstone disse:
'Agora, se Cristo vem ressuscitar os justos mil anos antes que os ímpios, seria natural e imperativo, chamar a primeira ressurreição uma ressurreição de, ou dentre os mortos, visto que o resto dos mortos ficaram para trás... isto é exatamente o que cuidadosamente se faz na Palavra... Consiste no uso que se faz, no texto grego, das palavras... (ek nekron)'.
"'A ressurreição ...nekron (...dos mortos), se aplica a ambas as classes, porque todos serão ressuscitados. Mas a ressurreição ...ek nekron (...de entre os mortos), nenhuma vez se aplica aos ímpios. Esta última expressão se usa 49 vezes, a saber: 34 vezes para expressar a ressurreição de Cristo, de quem sabemos que foi ressuscitado dentre os mortos; 3 vezes para expressar a suposta ressurreição de João, que, como cria Heródes, foi assim ressuscitado dentre os mortos; 3 vezes para expressar a ressurreição de Lázaro, que também foi ressuscitado dentre os mortos; 3 vezes se usa figuradamente, para expressar vida espiritual dentre os mortos por causa do pecado (Rm.6:13; 11:15; Ef.5:14). Se usa em Lc.16:31 'ainda que ressuscite alguém dentre os mortos'; e em Hb.11:19, a fé de Abraão em que Deus podia ressuscitar a Isaque 'dentre os mortos'.
"'E as restantes 4 vezes se usa para expressar uma ressurreição futura dentre os mortos, a saber, Mc.12:25 '...quando ressuscitarem de entre os mortos...'', Lc.20:35,36 '...a ressurreição dentre os mortos...', At.4:1,2 '...a ressurreição dentre os mortos...'
"'E em Fl.3:11 ... a tradução literal é a ressurreição para fora de entre os mortos, construção peculiar da linguagem que inclui a idéia de que esta é uma ressurreição de entre os mortos.
"'Estas passagens claramente mostram que está por efetuar-se uma ressurreição de entre os mortos; isto é, que parte dos mortos serão ressuscitados, antes que todos sejam ressuscitados. Olshausen declara que a 'a expressão seria inexplicável se não se derivasse da idéia de que de entre a massa dos mortos alguns se ressuscitarão primeiro'.6
"Esta ressurreição, geralmente chamada a primeira ressurreição, também pode ser chamada a ressurreição da vida... (Jo.5:29)".7
3.2 A Ressurreição para a Condenação:
"A ressurreição para condenação. A Escritura prediz outra parte do programa de ressurreição que trata com os perdidos. É a segunda ressurreição, ou a ressurreição da condenação.
"'...e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juizo'(Jo.5:29).
"'Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos...'(Ap.20:5).
"'Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono... Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o além entregaram os mortos que neles havia...'(Ap.20:11,12,13).
"Porquanto a primeira ressurreição se efetua antes que comece o reinado de mil anos (Ap.20:5), 'os mortos' a que se refere Ap.20:11,12 só podem ser aqueles que ficaram para trás na ressurreição de entre os mortos e são aqueles que serão ressuscitados para a condenação. A segunda ressurreição, melhor definida como a ressurreição da condenação, inclui a todos os que serão ressuscitados para a condenação eterna. Não é a cronologia o que determina quem está incluído na segunda ressurreição, mas sim o destino dos ressuscitados".8
3.3 O Tempo das Ressurreições:
"Há várias passagens que geralmente se usam para ensinar a falsa doutrina de uma ressurreição geral. A primeira destas está em Dn.12:2,3, onde o profeta escreve:
"Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno. Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem à justiça, como as estrelas sempre e eternamente.
"Nenhuma distinção quanto ao tempo parece haver aqui e, portanto, se conclui que se ensina uma ressurreição geral. Tregelles habilmente comenta sobre esta passagem:
"'Eu não duvido que a tradução correta deste versículo é... E muitos dentre os que dormem no pó da terra ressuscitarão, estes ressuscitarão para a vida eterna, mas os outros (o resto dos que dormem, aqueles que não ressuscitam neste tempo) para vergonha e horror eterno. A palavra que na Versão Autorizada em Ingles traduz duas vezes alguns, nunca se repete em nenhuma outra passagem da Bíblia Hebraica, no sentido de tornar distributivamente qualquer classe geral que haja sido previamente mencionada; isto é suficiente, eu creio, como garantia para que apliquemos a primeira vez a todos os que ressuscitam, e a segunda, a massa dos que dormem, àqueles que não ressuscitam neste tempo. É claro que não é uma ressurreição geral, mas sim muitos dentre; e só tomando as palavras neste sentido, obteremos alguma informação acerca do que sucederá aos que continuam dormindo no pó da terra'.
"Esta passagem tem sido entendida pelos comentaristas judaicos no sentido que se há mencionado. Claro que estes homens, que têem o véu em seus corações, não são guia algum quanto ao uso do Antigo Testamento, mas são uma ajuda quanto ao valor gramatical e lexicográfigo de orações e palavras. Dois dos rabinos que comentaram sobre este profeta foram Saadiah Haggaon (no século X de nossa era), e Aben Ezra (no século XII); este último foi um escritor de habilidades peculiares e precisão mental. Ele explica este versículo da seguinte maneira:
"'...sua interpretação é: aqueles que ressuscitam serão para a vida eterna, e aqueles que não ressuscitam serão para vergonha e horror eterno...'9
"Deve-se concluir que o profeta está afirmando o fato da ressurreição e a universalidade da ressurreição, sem afirmar o tempo específico no qual terão lugar as partes da ressurreição.
"Uma segunda passagem frequentemente usada para sustentar a idéia de uma ressurreição geral é Jo.5:28,29. O Senhor disse:
"Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que tiverem feito o bem para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juizo.
"Se afirma que o uso que fez o Senhor da palavra 'hora' requer uma ressurreição geral tanto dos salvos como dos não salvos. Sem dúvida, esta palavra não implica necessariamente tal programa geral de ressurreição. Harrison escreve:
"'Deve-se admitir, sem dúvida, que a linguagem não demanda coincidência nas ressurreições. O uso da palavra (hora) em Jo.5:25 permite sua extensão a um largo período. O mesmo é verdade em Jo.4:21,23. Jesus está falando no estilo dos profetas do Antigo Testamento, que agrupavam, sem diferenciação de tempo, os eventos que eles vislumbravam no distante horizonte da história. O mesmo método se encontra nos discursos escatológicos de Jesus, nos Evangelhos Sinópticos, onde a predição da queda de Jerusalém com suas consequências, dificilmente pode desarrolar-se da descrição do mui distante evento que está relacionado com a Grande Tribulação. Algo paralelo, ainda que em uma categoria diferente, é a maneira inclusiva em que Jesus fala da vivificação espiritual e física em uma só declaração. Um exemplo é Jo.5:21'.10
"O Senhor, nesta passagem, está ensinando a universalidade do programa da ressurreição e as distinções dentro deste programa, mas não está ensinando o tempo no qual as várias ressurreições terão lugar. Achar que esta passagem assim não ensina é perverter sua intenção original.
"Em Apocalipse 20:4-6 se declara mui bem que as duas partes do programa da ressurreição estão separadas por um intervalo de mil anos. (...) Se observa que a primeira parte deste versículo 5, mas os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos, é uma declaração entre parêntesis, que explica o que sucede aos que são deixados nos domínios da morte quando se cumpre a primeira ressurreição na segunda vinda de Cristo. Esta passagem ensina que transcorrerão mil anos entre a primeira ressurreição, a ressurreição da vida, e a ressurreição do resto dos mortos, a qual, segundo Apocalipse 20:11-13, é a ressurreição da condenação. A única maneira de se olvidar do evidente ensino desta passagem, é espiritualizando-a, de modo que a passagem não fale de ressurreição física, mas sim da bem-aventurança das almas que estão na presença do Senhor. Acerca desta interpretação, escreve Alford:
"'...não posso consentir que se tergiversem a estas palavras seu claro sentido e lugar cronológico na profecia, devido a qualquer considerações de dificuldade, ou qualquer risco de abusos que a doutrina do milênio pode trazer consigo. Os que viveram próximo dos apóstolos, e toda a Igreja, durante trezentos anos, a entenderam em seu claro sentido literal... Se a primeira ressurreição é espiritual, então a segunda também é, na qual eu suponho que ninguém será tão tolo para sustent e muitos dos melhores expositores modernos, eu em verdade sustento e recebe como um artigo de fé e esperança.11
"Deve-se concluir que, ainda que não há nenhuma revelação clara no Antigo Testamento com respeito a relação de tempo das duas partes do programa de ressurreição, o Novo declara que a ressurreição da vida e a ressurreição do juizo estão separadas por um lapso de mil anos."12
3.4 O Programa da Ressurreição:
"O apóstolo Paulo nos dá uma amostra dos eventos do programa da ressurreição em I Co. 15:
"'Porque assim como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo. Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua vinda. E então virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo o principado, bem como toda potestade e poder.'(ICo.15:22-24).
"Que há uma divisão no programa da ressurreição se sugere na frase, 'cada um, porém, por sua própria ordem (v.23). A palavra ordem (tagma = tagma), de acordo com Robertson e Plummer 'é uma metáfora militar: companhia, tropa, patrulha ou bando. Devemos pensar em cada corps ou corpo de tropa que vem em sua própria posição e devida ordem...'13 As partes da ressurreição são como os batalhões em marcha em um desfile de triunfo bem organizado...'
"Nesta ordem de sucessões do desfile da ressurreição, Cristo é reconhecido como o líder da batalha ou 'primícias' da colheita, que promete uma grande abundância de frutos semelhantes que seguirão no tempo designado da colheita. Esta fase do programa da ressurreição se cumpriu no tempo da ressurreição de Cristo, e marca o começo de todo este programa da ressurreição.
"Um segundo grupo se introduz com a palavra 'logo'. Esta palavra (epeita = epeita) significa um lapso de tempo de duração não designada. Edwards comenta: 'Ele não disse que um evento segue ao outro imediatamente... Há uma amplitude aqui para cobrir o lapso de tempo entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição dos que são de Cristo na sua vinda'.
"Tem havido diferença de opiniões quanto a quem são os do segundo grupo. alguns tomam a expressão os que são de Cristo (oi tou cristou = hoi tou Christou) e a fazem sinônimo da expressão em Cristo (en to cristo = en to Christo) do versículo 22. Este último seria a expressão técnica que declara a relação dos santos com Cristo nesta era presente. Portanto, se conclui que esta é uma ressurreição da Igreja que se menciona em I Ts.4:16. Este ponto de vista se apóia em referência à palavra vinda (parousia), que com frequência se aplica ao arrebatamento da Igreja. Paulo estaria assim declarando que o segundo grande grupo do desfile da ressurreição seria o daqueles que hão de ressuscitar nesta era presente, no arrebatamento da Igreja. Podem declarar, ademais, os que sustentam este ponto de vista, que Paulo não menciona aqui a ressurreição dos santos da tribulação, nem dos santos do Antigo Testamento. Sem dúvida, porquanto Paulo está dissertando sobre o programa da ressurreição, pareceria estranho que aqueles grupos importantes fossem omitidos. Seria melhor tomar o ponto de vista alternativo da que a expressão os que são de Cristo é uma referência técnica a todos os redimidos, tanto da Igreja, como do período do antigo Testamento, e o período da tribulação, todos os quais serão levantados na vinda de Cristo. A palavra vinda, pois, seria tomada em seu mais amplo sentido, que é aplicado ao segundo advento com todo o seu programa, e não ao arrebatamento somente. Desta maneira Paulo estaria dizendo que o segundo grande grupo seriam os santos de todos os tempos, que serão ressuscitados, porque pertencem a Cristo e que isto se cumpriria no tempo da segunda vinda.
"Há um vigoroso debate entre os expositores quanto ao significado da expressão então virá o fim (v.24). Alguns crêem que a palavra ressurreição deve agregar-se à ela (então virá o fim da ressurreição), de maneira que Paulo está falando do cumprimento do programa da ressurreição, com aressurreição de todos os mortos não salvos ao final dos mil anos. Outros crêem que aqui não há nenhuma referência aos não salvos, mas sim que Paulo ensina que a ressurreição será seguida do fim desta era presente (então virá o fim desta era), como em Mateus 24:6,14; Lucas 21:9. O problema se resolve mediante a interpretação da relação entre os dois usos da palavra 'todos' no versículo 22. São coextensivos ou não?
O primeiro ponto sobre a questão sustêm que o 'todos' que em Adão morrem não são os mesmos 'todos' que em Cristo serão vivificados. Os defensores desta posição interpretam que o versículo ensina que todos os que estão em Adão morrem, a ressurreição que se descreve aqui inclui somente os salvos que estão 'em Cristo', e 'o fim', portanto, deve referir-se ao fim desta era. Harrison resume os argumentos sobre esta posição quando escreve:
"'A interpretação do versículo 22, que geralmente se cita para sustentar esta construção, considera que o segundo (pantes = todos) é coextensivo com o primeiro. O todos é universal em ambos os casos. É precisamente neste ponto onde começam as dificuldades para obstruir este ponto de vista. Como temos observado... a palavra zwopoihqhsontai (zoopoiethesontai ) é um termo demasiado forte, demasiado complexo espiritualmente, para aplicá-lo a todos os homens. O termo natural para uma classe de ressurreição que incluiria a todos seria (eghrestai = egeresthai). As palavras em Cristo não podem ter uma significação menor do que têem as palavras em outras partes. Se refere a mais íntima e potente relação de salvação com Cristo. Os incrédulos não estão classificados como tais. Meyer e Godet estão no caminho errado ao supôr que (em Cristo) tem aqui um sentido diluído que permite sua aplicação a todos os incrédulos. Tal aplicação requereria (dia christou) em vez de (en christo). Uma segunda dificuldade é o fato de que toda a discussão ao largo do capítulo tem em mente somente os crentes. Pelo menos nada se disse definitivamente sobre qualquer outro. Em terceiro lugar, o contexto imediato não é favorável. Paulo concentra a atenção de seus leitores em Cristo como as Primícias dos mortos cristãos. Tanto a palavra (aparch = aparche = primícias) como o verbo (koimaw = koimao = dormir) correspondem só aos crentes. Cristo não é as primícias dos outros, já que necessariamente teriam que ser completamente semelhantes a Ele em sua ressurreição. Logo, também, os mortos não cristãos não dormem. Eles morrem. Uma quarta dificuldade se apresenta no uso não natural e sem precedentes de (telo = télos), que esta construção requer. A palavra significa fim no sentido absoluto de terminação. Ocasionalmente se usa no sentido de propósito ou finalidade. Mas seu uso como o equivalente de um adjetivo (fim da ressurreição)'.
"Este mesmo ponto de vista é o que sustenta Vine, o qual disse:
"'...como Adão é a cabeça da raça natural e, em virtude desta relação natural com ele, a morte é a sorte comum dos homens, assim também pela razão de que Cristo é a Cabeça da raça espiritual, todos os que possuem relação espiritual com Ele serão vivificados. Não há idéia alguma sobre a universalidade da raça humana, em comparação da segunda declaração com a primeira. Que os incrédulos estão em Cristo é algo completamente contrário ao ensino da Escritura... portanto, só os que chegam a ser novas criaturas e possuem vida espiritual, e estão assim em Cristo, em sua experiência de vida presente, estão incluídos no todos da segunda declaração, e serão vivificados'.
"Desta maneira, de acordo com este ponto de vista, Paulo tem em mente duas grandes etapas no programa da ressurreição: a ressurreição de Cristo, e a ressurreição de todos os que são de Cristo, que incluiria os santos da igrjea, os santos da tribulação, e os santos do Antigo Testamento, que serão levantados no tempo da segunda vinda, ressurreição que seria seguida do fim desta era.
"Há, ainda, alguns que, ao interpretar esta passagem, entendem que Paulo está incluindo o fim do programa da ressurreição em seu ensino. Por conseguinte a expressão 'em Cristo', se entenderia como instrumental, por Cristo. Robertson e Plummer dizem:
"'Paulo estava pensando em uma terceira ordem (tagma), aqueles que não são de Cristo, que seriam ressuscitados dos mortos num tempo antes do fim...''.
"Feinberg escreve: 'O contexto nos fala de ressurreição, e se refere a ressurreição final segundo um número de comentaristas. Com estes últimos estamos de acordo. O apóstolo está mostrando que haverá várias etapas definidas na ressurreição dos mortos. Primeiro Cristo, as primícias; segundo os que são de Cristo em sua vinda; terceiro a ressurreição final de todos os incrédulos'.
"Pridham declara a ordem assim: '...o apóstolo está distribuindo a grande obra da ressurreição, como uma manifestação do poder divino, em três atos grandemente definidos e separados: 1. A ressurreição do Senhor Jesus; 2. O despertamento de todos os santos em sua vinda; 3. A desocupação final de todos os sepulcros ao término da administração do Reino do Filho, quando os mortos não incluidos na primeira ressurreição serão ressuscitados, tanto pequenos como grandes, para juízo diante de Deus'.
"Porquanto a palavra fim (télos), em seu uso básico, se refere ao fim de um ato ou de um estado e tem a ver com a terminação de um programa seria preferível entender que Paulo está incluindo a ressurreição final, no desfile dos grupos que aqui se descrevem.
"Deve-se observar uma vez mais que Paulo está prevendo um intervalo de tempo entre a ressurreição dos que são de Cristo e o fim, seja este o fim da era ou o fim do programa da ressurreição. Vine disse: '...a palavra que se traduz então não é (tote = tóte), imediatamente logo, mas sim (eita =eita = depois), que indica ordem cronológica, logo, depois de um intervalo, como por exemplo em Mc.4:17,28 e os versículos 5 e 7 de ICo.15. O intervalo que se indica aqui, no versículo 24, é aquele durante o qual o Senhor reinará em seu Reino Milenário de justiça e paz.''"
4. PROFECIAS DO ANTIGO TESTAMENTO:
O método de interpretação utilizado no pré-milenismo dispensacionalista é o histórico-gramatical. Isto significa que as palavras devem ser entendidas em seu sentido histórico e gramatical; devem ser entendidas literalmente. Se este método é empregado na interpretação de doutrina, história e outras partes da Bíblia, porque às profecias deveriam ser entendidas alegoricamente? O método de interpretação literal simplifica e facilita o entendimento das Escrituras, além de incorporar toda a Bíblia à elaboração de um sistema de teologia.
A literalidade das Escrituras deve ser sustentada como único e mais legível método de interpretação bíblica. Quando a Bíblia usa "pedra" ela quer dizer pedra e não "pau". Se Deus quisesse dizer "pau" teria usado este termo, ou um sinônimo (madeira), mas não o fez porque Deus não é Deus de confusão e, portanto, disse exatamente aquilo que pretendia dizer. Portanto a literalidade deve ser sustentada em todos os textos onde sua aplicação for possível, inclusive às profecias. Deve-se excluir a interpretação literal somente em casos absurdos, como por exemplo João 10:9. É claro que Jesus não é uma porta, com ferrolhos e fechadura, mas sim o Mediador que oferece aos homens o acesso a Deus. Esta passagem, portanto, deve ser entendida alegóricamente ou espiritualmente.
Se o alegorismo for sustentado, cria-se uma amplitude de possíveis interpretações, e a Escritura perde a sua autênticidade. Por exemplo, "pedra" pode ser interpretado de diferentes maneiras, se à ela for aplicado o método alegórico. Pedra pode ser "pau", como pode ser "ferro", e assim por diante.
É claro que não excluimos a existência da interpretação espiritual, mas ressaltamos a predominância da interpretação literal sobre o espiritual.
4.1 Cumprimento Pleno:
Como se explicam aquelas profecias do Antigo Testamento que foram aplicadas com sentido espiritual pelo Novo Testamento? Deve-se proclamar, em alto e bom som, que todas elas, com excessão de uma, tiveram seu cumprimento literal no tempo do Antigo Testamento. É o caso, por exemplo de Isaías 7:14 que predisse o nascimento de uma criança que serviria como sinal para o rei Acaz. Esta profecia cumpriu-se no século VIII antes de Cristo. "Mateus, porém, achando um sentido mais completo e profundo no versículo e também ajudado pelas traduções do grego parthenos ou virgem na LXX (versão grega do A.T.), como também o nome Emmanuel, argumenta que o nascimento de Jesus é o cumprimento daquilo que o profeta havia dito (Mt.1:23)".
Um estudo meticuloso das profecias nos mostrará que não são poucas as ocorrências desse tipo. Este fenômeno da interpretação profética recebe o nome de "sensus plenior (sentido mais completo além do literal), no qual o N.T. vê um cumprimento básico e mais profundo que Deus queria comunicar".
É óbvio que somente aos escritores do N.T., que foram movidos pelo Espírito Santo, foi dada a autoridade de fazer tais "reinterpretações" do texto literal do A.T. O que se verifica hoje, entre os defensores da interpretação alegórica, é um verdadeiro abuso do uso do sensus plenior, quando aplicam profecias do A.T. que dizem respeito ao Israel literal, à Igreja, no sentido espiritual. É o caso, por exemplo de Os.11:1, que históricamente se refere ao povo de Israel no Egito, mas no N.T. foi aplicado a Jesus Cristo (Mt.2:15).
Um outro exemplo de sensus plenior é encontrado em Ml.4:5 referente a vinda de Elias. O Senhor aplicou esta profecia a João Batista (Mt.17:10-13). Entretanto, se considerarmos a literalidade das profecias, então devemos entender que o profeta Elias deverá vir pessoalmente antes do retorno de Jesus. Observe que Jesus afirma isto ao aplicar a profecia de Malaquias a João Batista: "Então Jesus respondeu: De fato Elias virá e restaurará todas as cousas."(Mt.17:11). Esta interpretação parece concordar com Ap.11:3-12 onde são mencionadas as duas testemunhas.
Uma passagem bastante interessante encontra-se em Hebreus 7, onde o autor faz a interpretação do nome Melquisedeque. Podemos notar na passagem em aprêço que ele faz primeiramente a interpretação histórico-gramatical: "...para o qual também Abraão separou o dízimo de tudo, primeiramente se interpreta rei de justiça, depois também é rei de Salém, ou seja rei de paz."(Hb.7:2). Conforme Gn.14:18, Melquisedeque era rei de Salém, mas este não é o sentido gramatical do nome hebraico, mas sim a interpretação de um fato histórico, que foi aplicado ao sacerdócio de Jesus Cristo. O que ocorre é uma interpretação secundária do nome Melquisede, porque em Cristo "a justiça e a paz se beijaram" (Sl.85:10).
Melquisedeque era um rei, humano e mortal, que viveu nos tempos de Abraão. Contudo sua figura foi aplicada ao Senhor Jesus. De maneira semelhante a Bíblia aplica o nome de Israel - o povo de Deus - ao Messias (Is.49:3). Esta aplicação é teologicamente compreensível. O que está em foco nesta passagem é a grande doutrina da substituição, ensinada pelo N.T., na qual Jesus substituiu o seu povo, e por quem foi sacrificado(Is.53:4,5,11; Jo.11:50-52; Jo.12:23-28). No que se refere a Israel (Jacó, Is.41:8;48:20) ser chamado de servo, e Jesus igualmente em Is.53:11, deve ser notado e ressaltado que no texto de Isaías o Servo de Jeová é chamado de Justo: "o meu servo, o Justo..."(Is.53:11). Outras profecias que tratam de Jesus como Servo, apresentam também uma ou mais de suas qualidades como Messias. É o caso de Is.42:1.
Outra passagem que nos convém comentar, frequentemente usada pelos defensores do alegorismo, é a de Jeremias 31:33,34. Dizem eles que esta profecia dada à Israel foi interpretada pelo autor de Hebreus como se referindo à Nova aliança promulgada com o sangue de Cristo, a favor da Igreja (Hb.8:8-12). Ora, o que ocorre aqui, é o mesmo fenômeno encontrado, por exemplo, em Os.11:1, cuja passagem bíblica se refere tanto a Israel, no passado, como a Cristo em sua época. A profecia de Jeremias se aplica, no presente, à Igreja (Hb.10:14-18), mas, num tempo ainda vindouro, ao povo de Israel (Hb.8:8-12). Nesse tempo, para a nação de Israel, a ordem de Arão será substituida pela ordem de Melquisedeque (Hb.7:11-19; Hb.9:11-15; Is.66:20-23; Mq.4:2).
Turner apresenta as três interpretações para o Novo Pacto:
"O Dr. J. N. Darby, dos 'Irmãos', ensina que a Igreja tem uma relação com o sangue de Jesus Cristo que é a base para toda a ação de graça da parte de Deus. Mas não vê senão um só 'Novo Pacto' na Bíblia: o de Jeremias e o do Novo Testamento também. Considera que o evangelho não é um pacto, mas uma revelação da salvação de Deus. Que não participamos da letra do Novo Pacto porque é com Israel, e será estabelecido no milênio; porém, como ele é alicerçado no sangue de Cristo, podemos em espírito gozar de bençãos semelhantes, pelo mesmo sangue.
"Outra interpretação é a do Dr. C. I. Scofield, na qual ele ensina que o Novo Pacto em Jeremias é com a casa de Israel, e será cumprido através da sua benção no futuro, mas que também tem uma aplicação em referência aos crentes de hoje. É chamado o conceito da aplicação dupla. Como o sangue de Cristo é o sangue do Novo Pacto, e na comunhão participamos do cálice em memória dele(ICo.11:25), crê-se que nós, crentes, beneficiamo-nos do Novo Pacto, como concidadãos dos santos e membros da família de Deus (Ef.2:19), e não como membros da cidadania de Israel (Ef.2:12).
"A terceira interpretação é a mais simples, chamada a dos dois pactos, e conhecida por ser proposta pelo Dr. L. S. Chafer. Diz que o Novo Pacto de Jeremias 31 é com a casa de Israel, e será estabelecido no porvir. Há também um outro Pacto Novo em o Novo Testamento, que foi celebrado com a Igreja, e se está cumprindo todos os dias. Este conceito demanda uma divisão de todas as passagens neo-testamentárias entre aquelas que se referem ao pacto com Israel, isto é, o de Jeremias, e aquelas que fazem menção ao evangelho e à Igreja. Geralmente classificam-se como segue: Mt.28:26; Mc.14:24; Lc.22:20; ICo.11:25; IICo.3:6; Hb.8:6; Hb.9:15; Hb.10:29 e Hb.13:30 falam do Novo Pacto com a Igreja. Rm.11:26,27; Hb.8:7-13 e Hb.10:16 referem-se ao Novo Pacto com Israel; enquanto que Hebreus 12:24 simplesmente diz que Jesus é o Mediador do novo pacto por meio do seu sangue, que é mais eficaz do que o de Abel, sem designar qual pacto. é razoável considerar que ambos os pactos são mencionados, sendo que os dois dependem do sacrifício expiatório de Jesus Cristo."
4.2 Cumprimento Parentético:
O cumprimento parentético é outro fenômeno que devemos sempre considerar na interpretação das profecias. Algumas profecias agrupam num só conjunto diversas previsões, sendo algumas contemporâneas ao tempo do profeta que as proclamou, ou próximas ao seu tempo, e outras para o tempo futuro. Verifica-se, nesse caso, um lapso de tempo, um parêntesis, entre o cumprimento de uma previsão e outra. A este tipo de cumprimento é dado o nome de parentético.
Encontramos um exemplo de cumprimento parentético em Isaias 61:1,2. No versículo 1 até a primeira parte do versículo 2, até onde lemos "o ano aceitável do Senhor", encontramos uma previsão da 1ª vinda de Jesus, sendo que o restante do versículo, só terá cumprimento por ocasião da 2ª vinda de Jesus. Quando o Senhor leu este trecho na sinagoga de Nazaré, Ele o fez com muita habildade (Lc.4:18,19). Note que Jesus não prosseguiu na leitura do profeta. Ele leu apenas até onde sabia que a profecia iria se cumprir. Depois Ele fechou o livro (Lc.4:20). O restante da profecia de Isaías: "o dia da vingança do nosso Deus"(Is.6l:2b), e a restauração de Sião (Is.6l:3-7), ficaram para o futuro. Aqui temos um caso típico de cumprimento parentético, pois há um parêntesis de tempo mui longo entre o cumprimento da primeira porção da profecia e o da segunda.
Um outro exemplo de cumprimento parentético é encontrado em Joel 2:28-32. O apóstolo Pedro aplicou esta profecia à descida do Espírito Santo, no dia de pentecoste (At.2:16-21). Ao ler o livro de Atos, todos concordam que já estamos vivendo os últimos dias. Porém ninguém é tolo o suficiente par afirmar que a parte desta profecia, onde diz que o sol se converterá em trevas e a lua em sangue, já se cumpriu. Tal previsão está para o futuro (At.2:19-21; Mt.24:29; Ap.6:12).
Uma profecia de grande importância para demonstrar de vez esse ponto de vista, é a profecia das Setenta Semanas de Daniel. Esta profecia será estudada, detalhadamente, em nosso próximo capítulo.
CAPÍTULO VII - AS SETENTA SEMANAS DE DANIEL
1. AS SETENTA SEMANAS DE DANIEL:
Quando Daniel recebeu a profecia das 70 Semanas (Dn.9:20-27) seu povo estava cativo na Babilônia. Nabucodonosor tinha desolado totalmente a Cidade de Jerusalém (IICr.36:17-21). Segundo as profecias essa desolação deveria durar setenta anos (IICr.36:21; Jr.25:11; Dn.9:1,2). Conforme determinava a lei de Moisés (Lv.25:2-7) a terra deveria gozar de um sábado, um descanso, a cada sete anos. Era um período especial de instrução sobre a lei de Deus (Dt.31:10-13). Por desobediência a este preceito da lei, sobreveio à Israel o castigo divino, 70 anos de cativeiro babilônico, período que corresponde aos anos nos quais o povo judaico deixou de observar o ano sabático (IICr.36:21).
O profeta Daniel, percebeu pelo estudo dos livros que os 70 anos estava chegando ao fim (Dn.9:2). O Dr. Ryrie diz que os 70 anos, que teve início em 605 a.C., teve seu fim em 535 A.C.1 Mas Daniel tinha em mente os 70 anos do cativeiro babilônico (Jr. 25:11; Zc.7:5). Ao receber a resposta de sua oração, o anjo Gabriel trouxe-lhe novas revelações sobre as 70 semanas. Disse-lhe o anjo: "Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo..."(Dn.9:24). Esta profecia não tem nenhuma relação com os 70 anos do cativeiro babilônico que já se cumpriram. O cativeiro durou 70 anos, esta profecia acrescenta 490 anos de desolação sobre Israel.
A palavra hebraica traduzida por semanas, aqui em Dn.9:24, é shabua que significa sete. Este sete se refere a sete dias ou sete anos, conforme o calendário judaico, o período de uma semana. Portanto a tradução literal deste texto seria: "setenta setes estão determinadas..." Para os judeus uma semana poderia ser "uma semana de dias" (Dn.10:2,3), ou "uma semana de anos"2 . O Dr. Mc'Clain dissertando sobre o período de jejum de Dainel, escreve: "É significativo que aqui o hebraico lê 'três setes de dias'. Se no nono capítulo o escritor quisesse que entendêssemos os 'setenta setes' como de dias, porque não empregou o mesmo modo de expressão adotado no capítulo dez? A resposta é evidente: Daniel só empregou shabua, quando se referia à bem conhecida 'semana de anos', uso costumeiro, que todo judeu entenderia; mas, no capítulo dez, ao falar das 'três semanas' de jejum, ele as especifica como 'semanas de dias' a fim de distinguí-las das 'semanas de anos' no capítulo nove. E se as 'semanas' do capítulo nove fossem compostas de dias, não haveria nenhuma razão de ele ter mudado a forma hebraica no capítulo dez".3
A idéia de 'semana de anos' soa um tanto estranho aos nossos ouvidos, mas é algo com que os judeus estavam bem familiarizados. Lemos em Gênesis que Jacó trabalhou 7 anos por Lia e, depois, mais sete anos por Raquel (Gn.29:21-30). Note que neste texto Labão fala dos sete anos de trabalho de Jacó como sendo semanas: "Decorrida a semana desta, dar-te-emos também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que ainda me servirás."(Gn.29:27). Outro texto bíblico onde aparece a expressão 'semanas de anos' encontra-se em Levítico: "Contarás sete semanas de anos, sete vezes sete anos; de maneira que os dias das sete semanas de anos te serão quarenta e nove anos."(Lv.25:8). Há ainda uma outra profecia, que nada tem a ver com as setenta semanas, mas serve também para esclarecer esta questão. Trata-se da profecia do exílio proclamada pelo profeta Ezequiel: "Porque eu te dei os anos da sua iniquidade, segundo o número dos dias... Quarenta dias te dei, cada dia por um ano..."(Ez.4:5,7). Notamos aqui que cada dia representa um ano. Se uma semana tem sete dias, então uma semana de anos tem sete anos. Portanto a profecia de Daniel fala de um período de 490 anos (setenta setes, ou seja 70 x 7 = 490).
Essas passagens demonstram claramente que as 70 Semanas de Daniel são semanas de anos. Mas se são semanas de anos, qual será a duração de cada ano? Há evidência suficiente na Bíblia que demonstra que o ano judaico é equivalente a um período de 360 dias, ou doze meses de 30 dias. Mais uma vez citaremos os argumentos apresentados pelo Dr. Mac'Clain:
"O primeiro argumento é histórico. Conforme a narrativa de Gênesis, o dilúvio começou no décimo-sétimo dia do mês segundo (7:11), e terminou no décimo-sétimo dia do mês sétimo (8:4). Isto é precisamente um período de cinco meses e felizmente a duração do mesmo período é dada em dias - 'cento e cinquenta dias' (7:24; 8:3). Assim o primeiro mês conhecido na história bíblica era de 30 dias, e doze meses nos dariam uma ano de 360 dias.
"O segundo argumento é profético e absolutamente conclusivo, porque se baseia numa medida incluída na própria profecia das setenta semanas sob discussão. Dn.9:27 menciona um período de perseguição aos judeus pelo príncipe vindouro que fará uma aliança com eles. Desde que esta perseguição começa 'no meio' da septuagésima semana e continua até o fim da semana, o período é obviamente de três anos e meio. Dn.7:24-25 fala do mesmo príncipe romano e da mesma perseguição, fixando a duração como 'tempo, tempos e metade dum tempo' no aramaico, três tempos e meio. Ap.12:4-7 fala do mesmo grande regente político e sua perseguição aos santos judaicos, durando 'quarenta e dois meses'. Ap.12:13,14 se refere à mesma perseguição, declarando a duração nos mesmos termos exatos de Dn.7:25 como 'tempo, tempos e metade dum tempo'; e este período é ainda mais definido em Ap.12:6 como 'mil duzentos e sessenta dias'. Assim temos o mesmo período de tempo variadamente apresentado como 3 ½ anos, 42 meses, ou 1.260 dias. De onde se vê claramente que a duração do ano nas setenta semanas da profecia é fixado pelas Escrituras como precisamente 360 dias".4
Esclarecendo ainda sobre a expressão "tempo, tempos e metade dum tempo" que aparece em aramaico em Dn.7:25, o Dr. Mac'Clain argumenta: "O livro de Daniel contém uma parte escrita em aramaico (Dn.2:4 - 7:28). Embora a palavra aramaica traduzida 'tempos' em 7:25 não seja dupla mas plural em forma, sem dúvida o plural aqui tem o significado de duplo... Isto é confirmado pela expressão paralela que ocorre em Dn.12:7, 'um tempo, tempos e metade dum tempo', onde a palavra 'tempos' é dupla na forma hebraica original".5
2. A SEXUAGÉSIMA NONA SEMANA:
Quando lemos a profecia de Daniel devemos observar alguns aspectos interessantes: (1) Toda a profecia trata do povo judaico: "Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade..."(v.24). Veja Também Dn.10:14. (2) Dois príncipes são mencionados: o primeiro é o Messias (v.25), o segundo é "um prncipe que há de vir" (v.26). (3) As Setenta Semanas são divididas em três períodos: um período de sete semanas (v.25), outro de sessenta e duas semanas (vv.25,26), e um terceiro período de sete semanas (v.27). O primeiro e o segundo períodos juntos somam sessenta e nove semanas. (4) O início das Setenta Semanas é fixado como "desde a saída da ordem para restaurarar e para edificar Jerusalém" (v.25). (5) Ao fim das sessenta e duas semanas o Messias seria morto6 e Jerusalém destruída (v.26). (6) Após a 69ª semana o outro príncipe que há de vir (o Anticristo) fará uma aliança com a nação de Israel por uma semana. Aqui temos a última das 70 semanas, a septuagésima semana de Daniel (vv.26,27). (7) No meio da sepuagésima semana o príncipe violará a aliança com Israel: "fará cessar o sacrifício..."(v.27). (8) Ao findar as Setentas Semanas haverá um tempo de muitas benção para a nação de Israel (v.24).
2.1) Uma Profecia para Israel:
O texto é bem evidente. A profecia se refere à nação de Israel, o povo de Daniel, e tem relação com a santa cidade, Jerusalém. Os amilenistas e pós-milenistas, que recusam a idéia de uma grande tribulação para o povo de Israel, refutam esta interpretação dizendo que a septuagésima semana se cumpriu nos dias anteriores à destruição de Jerusalém ocorrida no ano 70 de nossa era, ou então interpretam-na espiritualmente, dizendo que ela se cumpriu na 1ª vinda de Jesus. Mas, conforme declara a profecia, as 70 semanas foram dadas: "...para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia, e para ungir o santo dos santos."(v.24). Todas estas benção tem relação com Israel sobre quem vieram as 70 semanas. É claro que nenhuma delas se cumpriram ainda. Quando o Príncipe mencionado no verso 24, o Messias, veio à Israel, Ele foi rejeitado (Jo.1:11; Lc.19:14), e Israel tornou-se ainda mais o alvo dos castigos divinos. A iniquidade de Israel não foi expiada, pois somente o será quando esta nação reconhecer que o Jesus que eles rejeitaram é o Messias prometido. e isso só acontecerá no futuro, quando Jesus voltar (Zc.12:10; Mt.24:30; Os.5:15; Rm.11:25-27; At.2:36; 4:10; Lc.19:15). Portanto cremos que a última semana (a septuagéssima) ainda não se cumpriu. Isto estabelece um intervalo de tempo entre a 69ª e a 70ª semana de Daniel.
2.2) O Cumprimento da 69ª Semana:
Todos igualmente concordam que as sessenta e nove semanas de Daniel já se cumpriram sobre Israel. As 70 semanas tiveram seu início em 14 de março de 445 a.C., que foi a data que o rei Artaxerxes deu a ordem "para restaurar e edificar Jerusalém". Neemias registra o dia no qual essa ordem foi dada: "No mês de Nisã, no ano vigésimo do rei Artaxerxes..."(Ne.2:1). Segundo a Enciclopédia Britânica o rei Artaxerxes subiu ao trono em 465 a.C. Desse modo seu vigésimo ano é 445 a.C. Para encontrar o final das sessenta e nove semanas, temos que reduzí-las a dias. Desde que há 69 semanas de 7 anos cada uma, e cada ano tem 360 dias, a equação à qual chegamos é 69 x 7 x 360 = 173.880 dias. Começando com 14 de março (mês de nisã) de 445 a.C., este total nos leva até 6 de abril de 32 a.D., a data em que Jesus entrou em Jerusalém. Este dia é aquele profetizado no Salmo 118:24-26, que apontava para a entrada triunfal de Jesus, quando os judeus clamavam "Bendito é o rei que vem em nome do Senhor"(Lc.19:38; Sl.118:26). Porque Eles rejeitaram o seu Rei (Lc.19:42), as benção do reino Messiânico que deveria trazer a paz, ficou adiada para o futuro (Is.9:6,7; Zc.9:9,10).
Para provar que os 173.880 dias são equivalentes ao período de 14 de março de 445 a.C. até 6 de abril de 32 a.D., é necessário fazer o cálculo pelo nosso próprio calendário:
445 a.C. até 32 a.D. = 476 anos
476 anos x 365 dias = 173.740 dias
173.740 + 116 dias (aumento de anos bissextos) = 173.856
173.856 + 24 dias (período de 14 de março de 445 a.C. até 6 de abril de 32 A.D.) = 173.880.
Este período de tempo do nosso calendário (476 anos = 173.880 dias) equivale aos 483 anos das 70 Semanas (7 + 62 = 69 e 69 x 7 = 483 anos). A profecia menciona 70 semanas, isto é 490 anos, mas somente 483 anos foram cumpridos. Resta ainda 7 anos (490 - 483 = 7), e este período restante é a septuagésima semana de Daniel, que se cumprirá na Grande Tribulação. Se esta última semana ainda não se cumpriu, então é porque há um intervalo entre a 69ª e a 70ª semanas. Desse modo a interpretação da profecia não é contínua, mas fica estabelecido o fenômeno do cumprimento parentético.
3. O INTERVALO ENTRE A 69ª E A 70ª SEMANA DE DANIEL:
Dois eventos deveriam acontecer após a 69ª semana: a morte do Messias e a destruição de Jerusalém. O segundo evento ocorreu após as sessenta e nove semanas, e não dentro delas: "Depois das sessenta e duas semanas..."(Dn.9:26). A história mostra que a destruição de Jerusalém ocorreu no ano 70 a.D. sob a invasão do general romano Tito. Portanto o segundo evento aconteceu quase 40 anos depois do primeiro, e o primeiro pôs fim a 69ª semana. Aqui há um detalhe interessante que deve ser observado. A profecia coloca a destruição de Jerusalém depois da 69ª semana, bem como a coloca antes da 70ª semana. Com essa evidência, observamos que a septuagésima semana não segue imediatamente à sexuagésima nona. Há pelo menos um intervalo de 38 anos (entre a morte de Cristo em 32 a.D. e a destruição de Jerusalém em 70 a.D.), e se há um intervalo de 38 anos, pode então haver um intervalo ainda maior. O período deste intervalo nós não sabemos quanto tempo durará, mas fica evidente que há esse intervalo de tempo entre as semanas. Até o nosso momento esse intervalo tem durado quase dois mil anos. É o período da dispensação da graça mencionada por Paulo (Ef.3:2,3), ou a dispensação do mistério (Ef.3:9; Rm.16:25; Cl.2:2; 4:2), ou período dos gentios (Ef.3:5,6; Rm.11:25; Lc.21:24; Ap.11:2). Terminando esse tempo, Deus voltará a tratar com Israel, na última das setentas semanas.
4. A SEPTUAGÉSIMA SEMANA:
Sem dúvida nenhuma a septuagésima semana é o período da Grande Tribulação (Mt.24:21), que há de vir sobre o mundo (Ap.3;10) e sobre Israel, para que se cumpra o restante da profecia de Daniel (Dt.4:26-31; Is.13:6-13; 17:4-11; Jr.30:4-9; Ez.20:33-38; Dn.12:1-4; Jl.3;9-11).
É nesse período que o povo de Israel será, através do sofrimento, purificado dos seus pecados. Então cumprir-se-á a profecia de Daniel: "...para fazer cessar a transgressão, para dar um fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia, e para ungir o santo dos santos."(Dn.9:24). É nesse período que Israel sofrerá "dores de parto"7 (Is.66:8), a fim de que o remanescente fiel seja gerado. Alguns intérpretes relacionam isso à Miquéias 5:2,3 e Ap.12:4,5. A nação de Israel será perseguida, mas Deus lhe preparará um caminho de fuga (Zc.14:4,5 Ez.20:35; Ap.12:6). Esta perseguição terá início na metade da septuagésima semana. A profecia de Daniel diz que "o príncipe que há de vir"(Dn.9:27) fará uma aliança com Israel, mas no meio da semana romperá com esta aliança. Portanto para entendermos a tribulação devemos dividí-la em duas partes, como a própria Bíblia o faz.
O período completo da tribulação é de sete anos, divididos em 3 ½ cada parte. Isto fica bem claro nas profecias. O profeta Daniel menciona este período: "um tempo, dois tempos e metade de um tempo"(Dn.7:25). Literalmente temos a seguinte expressão: "um ano, dois anos e metade de um ano", o que equivale a três anos e meio. Esta mesma expressão também é usada em Apocalipse para se referir ao tempo da perseguição de Israel: "...e foram dadas à mulher (Israel) as duas asas da grande águia, para que voasse até o deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante um tempo, tempos, e metade de um tempo, fora da vista da serpente."(Ap.12;14). Este mesmo período é identificado ainda como sendo 42 mêses(Ap.13:5) ou 1.260 dias (Ap.12:6). Este período é a segunda metade da tribulação, quando o Anticristo (o príncipe romano)8 se assentará sobre o trono do Messias "estabelecendo a abominação desoladora"(Dn.12:31; Mt.24:15; IITs.2:3,4).
Deve-se notar que a profecia é clara em afirmar que antes da septuagésima semana "haverá guerra; desolações são determinadas."(Dn.9:26). Isso deixa claro que a septuagésima semana ainda não se cumpriu, pois até agora Israel continua buscando a paz (Sl.122:6-9; Jr.23:5,6; Lc.19:42). A paz só virá quando Jesus o Principe da Paz retornar com poder e glória (Mt.24:29-31).
Na primeira metade, quando haverá uma paz aparente, o evangelho será pregado à todas as nações (Mt.24:14). As duas testemunhas, provavelmente Moisés e Elias, proclamarão a mensagem da salvação (Ap.11;3). Provavelmente os 144.000 serão evangelistas nesse período (Ap.7:9-14: 14:1).
Há muito mais que poderíamos comentar sobre as 70 Semanas de Daniel, mas as passagens que foram aqui examinadas, cremos, são suficientes para demonstrar a veracidade daquilo que chamamos de cumprimento parentético, ou que Delitzsch chama de "apotelesmática, isto é, vê logo em seguida o próximo grande evento da história, a culminância do fim".9
É digno de nota ressaltar que a profecia de Daniel não menciona a Igreja, mas fala apenas do povo de Israel. Isso ocorre porque a Igreja era um mistério oculto em Deus (Ef.3:2,3; Rm.16:25; Cl.2:2; 4:2), que veio a revelar-se neste período de intervalo entre as 69ª e 70ª semanas de Daniel.
CONCLUSÃO
O presente estudo não tem a pretensão de esgotar o assunto, pois quando se trata de profecias não há ninguém neste mundo com autoridade vinda de Deus, para explicar, sem margens de erros, os acontecimentos futuros. A profecia está selada. É verdade que "O Senhor Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas."(Am.3:7; veja também Gn.18:17). Também é verdade que as coisas reveladas "pertencem a nós e a nossos filhos para sempre..."(Dt.29:29b). Porém "...as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus..."(Dt.29:29a), e "Não nos compete conhecer os tempos ou épocas que o Pai reservou para a sua exclusiva autoridade."(At.1:7). Devemos nos lembrar das palavras de Jesus: "...a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai."(Mt.24:36).
Com estas coisas em mente, devemos percorrer o caminho das profecias com muito cuidado e humildade. Porém não devemos nos desanimar, acreditando, como afirmam alguns, que é impossível conhecermos os tempos e épocas profetizadas. É claro que não ousaríamos descrever os detalhes das profecias, pois estes a Deus pertence, mas à nós foi dado o privilégio e também o dever de estudá-las "...para que cumpramos todas as palavras desta lei."(Dt.29:29).
Portanto ao nos dirigirmos às profecias, como crentes, é nosso dever decidir qual sistema hermenêutico vamos adotar; se é amilenismo, pós-milenismo ou pré-milenismo. Entretanto não devemos fazê-lo com arrogância, achando que somos infalíveis. Deus só revela seus segredos àqueles que se humilham perante Ele (I Pe.5:5).
Quando fizermos nossas escolhas não devemos desprezar nossos irmãos em Cristo que adotam sistemas diferentes. Portanto cabe aqui o velho, mas bem apropriado axioma cristão: unidade no essencial, tolerância no secundário, e amor em tudo!
Não devemos contender com nossos irmãos de opiniões diferentes, sobre questões que só a Deus compete decidir. Podemos presumir, mas não somos infalíveis.
É pena que muitos estudiosos não tratam dos pontos polêmicos das Escrituras com este espírito cristão. É o caso, por exemplo, de Cleómines A. de Figueredo, que na ânsia de defender o amilenismo, reportou-se ao pré-milenismo de maneira irônica, fazendo seus defensores parecerem tolos. Só faltou chamá-los de herege. Cleómines escreve: "Este reinado de Cristo na terra, o milênio, fracassado na 1ª tentativa (!), será realizado na terra, como outro reino qualquer, havendo pessoas revoltadas, guerras, conflitos, e o 'Rei' Jesus, com sede em Jerusalém, atendendo telefone (?) dando entrevista por televisão (?), 'tendo audiências marcadas como Presidente' (?) e guerreando com armas, bombas, fuzis (?), mantendo 'a ordem' com os santos (?), mantendo a soberania do Estado de Israel (?)".1
Não devemos tratar dessas coisas neste nível. Elas são sérias demais para usarmos da ironia, seja para defender, seja para refutar. Que o leitor saiba decidir que caminho tomar, mas ao fazê-lo, não caia no mesmo exemplo de muitos daqueles que, com suas apologias, tem mais colaborado para a divisão do corpo de Cristo, do que para a sua edificação.
APÊNDICE I - O ARREBATAMENTO DA IGREJA
A palavra arrebatamento vem do grego arpazw = harpázô = roubar, arrebatar, tomar ou arrancar com força (Mt.12:29; At.8:39; ICo.12:2,4; Ap.12:5; Mt.11:12).1
A doutrina do arrebatamento é particularmente ensinada por Paulo aos tessalonicenses: "...nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares..."(ITs.4:17).
Há uma grande controvérsia entre os expositores bíblicos acerca desta doutrina. Alguns dizem que o arrebatamento da Igreja ocorrerá antes do início da grande tribulação (estes são os pré-milenistas). Esse modo de enxergar a doutrina exige que a Segunda Vinda de Jesus ocorra em duas fases. A primeira fase é secreta, para o encontro da Igreja nos ares (esta é o arrebatamento da Igreja). A segunda fase é visível, quando Jesus colocar os seus pés sobre o Monte das Oliveiras, para restaurar o reino de Israel e julgar as nações (Zc.14:4; At.1:6-11; Ap.1:7; Ap.14:1). Outros há que acreditam que a Segunda Vinda só tem uma fase, e, portanto, o arrebatamento da Igreja acontecerá em sua Segunda Vinda, após a tribulação (amilenistas e pós-milenistas). Há ainda outro grupo; daqueles que acreditam que a Igreja será arrebatada no meio da tribulação. A seguir veremos resumidamente os dois diferentes aspectos do arrebatamento da Igreja (quanto ao tempo e quanto ao modo).
I. O TEMPO DO ARREBATAMENTO DA IGREJA:
Há três diferentes opiniões sobre o tempo do arrebatamento da igreja:
1. ARREBATAMENTO PRÉ-TRIBULACIONAL:
O propósito da tribulação não é purificar a Igreja nem disciplinar os crentes, mas sim purificar a nação de Israel, preparando-a para a restauração do reino. A Igreja será arrebatada antes da tribulação (Lc.21:36; Rm.5:9; ITs.5:9; Ap.3:10). Nesta fase da sua Segunda Vinda, Jesus vem para a Igreja; na segunda fase Jesus vem com a Igreja (Jd.14). Alguns interpretam a "apostasia" ("...isto não acontecerá sem que primeiro venha a remoção..." - IITs.2:3) não em seu sentido negativo "afastar-se" referindo-se ao afastamento da fé (ITm.4:1), mas como sendo a "remoção" ou "partida" da Igreja, como em 2:7 ("...que seja afastado aquele que o detém...").
Nesta ocasião os cristãos serão julgados (IICo.5:10), diante do tribunal de Cristo nos céus. Não é um julgamento para receber ou não receber a vida eterna, mas sim para receber galardões ICo.3:10-15). O crente não entra em juízo (Jo.5:24; Rm.8:1) pois o trono de juízo (o trono branco - Ap.20:11) será estabelecido somente depois da rebelião final da humanidade contra Cristo. No juízo final haverá julgamento das obras, quando o livro da vida será aberto juntamente com o livro das obras (Ap.20:12). Não é assim com os crentes; suas más obras já foram julgadas no sacrifício do Calvário (Rm.6:6,7; Hb.10:14-18).
O pré-tribulacionismo admite uma Segunda Vinda Iminente, isto é, poderá ocorrer a qualquer momento (ICo.1:7; Fp.4:5; Tt.2:13; Tg.5:8,9; Jd.21), e nenhum evento ou profecia necessita ser cumprido para que o arrebatamento ocorra, ao contrário das outras interpretações que exigem a ocorrência da tribulação antes que o arrebatamento se consuma.
Para o pré-tribulacionista a primeira ressurreição terá, pelo menos, três fases: (1) A ressurreição dos justos mortos, no arrebatamento pouco antes da tribulação; (2) A ressurreição, imediatamente após a tribulação, dos santos que morreram durante a tribulação, os mártires; (3) A ressurreição dos santos de Israel, no final da tribulação. Outros admitem cinco fases, acrescentando à estas a ressurreição de Cristo, como "as primícias dos que dormem", e as duas testemunhas que serão ressuscitadas no meio da tribulação (Ap.11:3-12).
2. ARREBATAMENTO MID-TRIBULACIONAL:
Esta interpretação argumenta que os eleitos mencionados por Jesus que passarão pela tribulação (Mt.24:21,22), refere-se aos santos da igreja que estarão presente. O mid-tribulacionista faz diferença entre tribulação e ira de Deus. Crêem que a Igreja não sofrerá a ira de Deus, mas deverá passar pela tribulação. A primeira metade da tribulação, na qual a igreja estará presente, ocorrerá apenas uma tribulação. Depois disso a ira de Deus será derramada: "...logo em seguida à tribulação daqueles dias..."(Mt.24:29). Quando isto estiver para acontecer a Igreja será arrebatada, exatamente no meio da tribulação, para ser poupada da ira de Deus.
3. ARREBATAMENTO PÓS-TRIBULACIONAL:
O pós-tribulacionista argumenta, como o pré-tribulacionista, que a Igreja não ficará exposta à ira de Deus. Eles distinguem entre a grande tribulação e a ira de Deus. As passagens de Rm.5:9 e ITs.5:9, onde aparecem o termo ira, não se referem a grande tribulação, mas sim à ira do juízo final. A Igreja participará da tribulação, mas os santos não serão atingidos pela ira de Deus, serão poupados dela. A passagem de Ap.3:10 não significa que a igreja será excluída da tribulação, mas que ela será preservada na tribulação. Eles dão à esta passagem a seguinte interpretação: "...Eu te guardarei na hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro..."(Ap.3:10). Isto significa que a igreja será preservada na tribulação, e não excluida dela.
Para o pós-tribulacionista a primeira ressurreição só tem uma fase, que ocorrerá no começo do milênio. Já que não há nenhum intervalo entre a vinda de Jesus para a Igreja e a vinda com a Igreja, nenhum santo morre durante este interlúdio e, portanto, não há necessidade de duas fases na ressurreição dos justos.
Para os pós-tribulacionista "aquele que o detém" (IITs.2:7) que será removido, é o Espírito Santo, e sua retirada não acarreta a remoção da igreja, pois o que será removido não é a sua presença, mas a sua ação plena e graciosa. Outros interpretam que nem o Espírito Santo nem a Igreja serão afastados, mas sim o Anticristo. Segundo esta interpretação a passagem ficaria desse modo: "E agora sabeis o que detém (o poder de Deus), para que ele (o Anticristo) seja revelado na sua ocasião própria. Pois o mistério da iniquidade já opera: somente que há um (Deus) que agora o detém até que ele (o Anticristo) seja removido do caminho".2
II. O MODO DO ARREBATAMENTO DA IGREJA:
Há duas escolas de pensamento quanto ao modo do arrebatamento da Igreja. São elas: (1) Arrebatamento Integral; (2) Arrebatamento Parcial.
1. ARREBATAMENTO INTEGRAL:
Esta linha de pensamento ensina que a Igreja será arrebatada integralmente. Nenhum crente ficará de fora, apesar dos seus pecados. As Escrituras ensinam que a Igreja de Jesus, sua Noiva, é "...gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito"(Ef.5:27). Isto significa que nenhum de seus membros poderá faltar, pois seria uma Igreja incompleta, defeituosa. A Escritura diz que a Igreja já foi santificada (Ef.5:26). Portanto, se, na hora do arrebatamento, algum cristão for encontrado em desobediência, ela não será deixado, mas, juntamente com os fiéis, será arrebatado, todavia "sofrerá ele dano"(ICo.3;15), isto é, sofrerá perdas de galardões.
2. ARREBATAMENTO PARCIAL:
Segundo este modo de pensar, vê-se um segmento da Igreja arrebatado antes da tribulação, e o outro segmento permanecendo na terra durante toda a tribulação. Portanto o arrebatamento é pré-tribulacional para alguns e pós-tribulacional para outros. Ira E. David, defensor desta interpretação argumenta: "A base da trasladação deve ser a graça ou a recompensa. Aqueles que esperam que todas as pessoas na Igreja verdadeiramente serão trasladadas de uma só vez, pensam que a trasladação é totalmente pela graça. A salvação é pela graça (Ef.2:8). Depois de as pessoas serem salvas, no entanto, recebem galardão pela sua fidelidade e vigilância. Repetidas vêzes, os crentes são advertidos contra a falta destas. Em I Co.3:14,15, conta-se-nos que há galardões para os crentes. ora, não é a trasladação um galardão? cremos que as frequentes exortações nas Escrituras no sentido de vigiarmos, sermos fiéis, estarmos prontos para a vinda de Cristo, vivermos vidas cheias do Espírito, sugerem, todas elas, que a trasladação é um galardão".3
Aqueles que adotam esta interpretação, entendem a parábola das dez virgens não como sendo a nação de Israel, mas sim a Igreja. Contudo, a distinção entre as cinco virgens prudentes e as cinco néscias, não é entre os crentes verdadeiros e falsos, mas sim entre os fiéis e os infiéis. Govett dá oito razões para esta interpretação: "(1) Todas as dez mulheres são virgens, não meras pretendentes à virgindade. Elas não se chamam de virgens; o Senhor assim as chama. (2) Todas as dez tinham lâmpadas acesas, o que significa que a sua profissão de fé era apoiada por boas obras. (3) Saem com o desejo de encontrar-se com Jesus, indicação esta de um coração verdadeiramente convertido. (4) Suas lâmpadas ficam acesas por algumas horas, o que indica que têm o azeite da graça. O texto não é explícito quanto a algumas das lâmpadas chegarem a apagar-se. (5) São consideradas dignas de chegarem à primeira ressurreição, a ressurreição dentre os mortos, o que é o caso somente dos filhos de Deus. (6) As virgens néscias adormecem juntamente com as prudentes, e acordam juntamente com elas. (7) As virgens néscias estão prontas para entrar se o noivo chegar cedo ao invés de tarde, ou seja, antes de adormecerem. (8) Mesmo no fim continuam sendo virgens, a qualificação interna essencial para as bodas. sua única deficiência está dentro do âmbito da sua capacidade circunstâncial e secundária: falta-lhes uma segunda medida de azeite. Os descrentes, por contraste, deixam de satisfazer as duas qualificações".4
Há ainda muitas outras passagens que são usadas para apoiar o ponto de vista mid-tribulacionaista, tais como Mt.24:40 e Lc.21:36, e, ainda, muitas passagens bíblicas sobre o dever do cristão de estar sempre em vigilância para que a vinda de Cristo não o supreenda.
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