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Não cumprimos a Lei, não há Livre-arbítrio | M. Lutero

Mortos não têm Livre-arbítrio | C. H. Spurgeon

O Livre Arbítrio é Falso | M. Lutero

O Livre-arbítrio é uma Tolice | C. H. Spurgeon

Todos pecaram, não há livre-arbítrio | Martinho Lutero

A Ilusão do Livre-arbítrio



Soberania de Deus e a Liberdade Humana na perspectiva calvinista

1 Introdução

Ao analisarmos a história, tanto do pensamento religioso como do pensamento filosófico, perceberemos que existe certo modelo cíclico na abordagem de grandes temas da humanidade e não uma linearidade absoluta, que preconizaria a existência de temas totalmente novos e de número praticamente incontável. Mas, certamente, não é isso que ocorre. As mesmas questões são objeto de investigação nas mais variadas culturas e gerações. Essa recorrência acaba estabelecendo um número extremamente limitado do que podemos chamar de “os grandes problemas da humanidade”.

Segundo Wright, fazem parte dessa lista:

A relação da unidade do mundo com a diversidade de nossa experiência individual, como podemos estar certos do conhecimento que temos, se há Deus ou não, a natureza da “substância” de que o mundo é feito e como devemos navegar nas questões éticas (WRIGHT, 1998, p.19).

Kayper trata esse assunto de forma ainda mais sintética e apresenta a seguinte lista: “Nossa relação com Deus, nossa relação com o homem e nossa relação com o mundo” (KUYPER, 2002. p, 28).

Todas as outras discussões são derivadas, direta ou indiretamente, dessas grandes abordagens. Um dos mais persistentes desses problemas e que tem ocupado a mente dos mais importantes pensadores, é o que trata sobre a liberdade das ações humanas em contrapartida com a causalidade.

É nossa vontade realmente livre de causas e influências, ou são todas as nossas ações “predeterminadas” de algum modo?

Na filosofia, o debate reaparece no binômio paradoxal entre autonomia versus determinismo. A máxima da antropologia socrática: “conhece-te a ti mesmo”, apresenta uma consciência humana autônoma, de forma que o caminho da verdade suprema deve ser encontrado “dentro” do próprio homem. Coube a Nietzsche, entretanto, a libertação absoluta de toda e qualquer forma de transcendência. O criador do “super-homem” chega a “matar” Deus em busca do diploma da liberdade absoluta, para outorgá-lo ao homem:

Eu vos apresento o Super-homem! O Super-homem é o sentido da terra. Diga a vossa vontade: seja o Super-homem, o sentido da terra. Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar em que vos fala de esperanças supraterrestres. São envenenadores, quer o saibam ou não. Não dão o menor valor à vida, moribundos que estão, por sua vez envenenados, seres de que a terra se encontra fatigada; vão se por uma vez! (NIETZSCHE, 1994, p.30).

E ainda:

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda história até hoje! (NIETZSCHE. Fredrich. A Gaia Ciência, §125).

A ciência(2), por sua vez, toma emprestado, da filosofia, o termo determinismo e o transforma na principal base do conhecimento científico da natureza, para afirmar a existência de relações fixas e necessárias entre os seres e os fenômenos naturais, isto é, o que acontece não poderia deixar de acontecer porque são conseqüências de causas anteriores.

Nosso maior enfoque, porém, neste ensaio, será teológico. O problema é tratado, primordialmente, entre as culturas religiosas, como sendo a relação entre a vontade humana e a soberania divina, ou ainda, mais especificamente, como a relação entre livre-arbítrio e predestinação ou predeterminação.

Não é raro encontrarmos posturas extremadas, ora beneficiando a total soberania divina e a negação total da liberdade humana, o que faria de Deus o autor do pecado e do mal ora evidenciando a total liberdade humana, o que não só nega a soberania de Deus como o reduz a um mero “registrador” da vontade do homem.

Um dos principais exemplos da negação total da vontade humana pode ser encontrado no Hinduísmo. Considerada a mais velha religião ainda existente no mundo, tem no conceito de estratificação social das casta(3) o exemplo máximo da aceitação do condicionamento, por fatores externos, da vida. Um indivíduo que nasce em uma determinada casta, julgada inferior, jamais pode ascender para uma casta superior, e, isso, determinará todo o seu futuro.

Os mulçumanos(4) também figuram entre os principais exemplos de negação da vontade humana. Para eles, não há espaço para a atuação “livre” do homem, uma vez que professam um determinismo absoluto, que não deixa lugar no mundo para as verdadeiras relações de causa e efeito, já que todas as ações, boas e más, foram “criadas” pelo insondável decreto de Alá.

Não podemos deixar de citar aqui também, entre aqueles que negam completamente qualquer tipo de liberdade humana, o hipercalvinismo(5).

Em contrapartida à negação total da liberdade do homem, temos o outro extremo: as tendências religiosas que intensificam o livre-arbítrio de tal forma que chegam a ofuscar a soberania de Deus, como o pelagianismo romano e, principalmente, o arminianismo da maioria das igrejas evangélicas pós-reforma protestante. Nesse sentido, Wright denuncia a “manipulação genética” que essas igrejas estão fazendo em Deus, retirando-lhe atributos que são próprios e exclusivos de sua natureza divina, simplesmente para “acomodar a suposição da autonomia humana” (WRIGHT, 1998, p.14).

Como pudemos perceber acima, a busca cíclica do homem por novas respostas a antigos problemas – ora beneficiando a liberdade do homem ora excluindo-a por completo, em nome da soberania divina, tende a continuar. O homem só se fixará em um sistema de resposta convincente quando entender, como afirma A.W.Pink, em seu famoso livro “Deus é Soberano”, que as duas sentenças são verdadeiras, em certo sentido: O homem é livre e responsável pelos seus atos e, ao mesmo tempo, Deus é Soberano.

O Calvinismo é esse poderoso sistema, não somente teológico, mas de vida. Hermeticamente fechado, atende aos interesses mais profundos da humanidade, tanto da alma quanto da racionalidade. O Calvinismo reconhece Deus como Deus, soberano, acima de tudo e de todos; ao mesmo tempo em que entende o homem, na sua situação pré-queda, como livre e pós-queda, como uma criatura decaída. O Calvinismo entende o homem e o próprio Deus, pelo prisma das Sagradas Escrituras; ao mesmo tempo que se distancia do misticismo, abrindo, com isso, uma importante janela para o desenvolvimento e a racionalidade, aproxima-se, de forma profunda e coerente, com a antropologia e teologia da revelação escrita.

Kuyper, comentando sobre o sistema de vida calvinista, faz a seguinte afirmação:

Não há dúvida, então, de que o Cristianismo está exposto a grandes e sérios perigos. Dois sistemas de vida estão em combate mortal. O Modernismo está comprometido em construir um mundo próprio a partir de elementos do homem natural, e a construir o próprio homem a partir de elementos da natureza; enquanto que, por outro lado, todos aqueles que reverentemente humilham-se diante de Cristo e o adoram como o Filho do Deus vivo, e o próprio Deus, estão resolvidos a salvar a “herança cristã”. Esta é a luta na Europa, esta é a luta na América, e esta também é a luta por princípios em que meu próprio país está engajado, e na qual eu mesmo tenho gasto todas as minhas energias por quase quarenta anos.Nessa luta apologética não temos avançado um único passo. Os apologistas invariavelmente começam abandonando a defesa assaltada, a fim de entrincheirarem-se covardemente um revelim atrás deles. Desde o início, portanto, tenho sempre dito a mim mesmo, -“Se o combate deve ser travado com honra e com esperança de vitória, então, princípio deve ser ordenado contra princípio. A seguir, deve ser sentido que no Modernismo, a imensa energia de um abrangente sistema de vida nos ataca; depois também, deve ser entendido que temos de assumir nossa posição em um sistema de vida de poder, igualmente abrangente e extenso. E este poderoso sistema de vida não deve ser inventado nem formulado por nós mesmos, mas deve ser tomado e aplicado como se apresenta na História. Quando assim fiz, encontrei e confessei, e ainda sustento, que esta manifestação do princípio cristão nos é dada no Calvinismo (KUYPER, 2002, p.19).

Certamente uma análise cuidadosa dos princípios calvinistas acerca da Soberania de Deus e da liberdade humana trará grande luz, capaz de iluminar os recantos mais obscuros desse antigo problema da humanidade.

2 Soberania que cria liberdade

O famoso filme do diretor Stevan Spilberg, “inteligência artificial”, aborda a idéia de um robô criado para ter uma relação de perfeição com seu “dono”. Programado para ter um amor incondicional, o menino-robô surge como um ser “absolutamente perfeito”; criado para fazer tão somente aquilo que agrada aos seus compradores/familiares.

Baseados na idéia do filme, levantamos a seguinte questão: acaso Deus não poderia ter criado o homem com tal nível de programação a ponto de ter como “único” desejo o serviço a seu criador, da maneira como este estabelecesse, previamente, em sua própria programação? É claro que sim.

O fato é que aprouve a Deus, em Sua soberania, diferentemente de Spilberg, criar não somente o homem, mas criar também sua própria liberdade e autonomia. Aprouve a Deus criar o homem livre.

Essa liberdade, porém, outorgada por Deus ao homem, precisa, à luz do calvinismo, ser entendida dentro do contexto histórico-temporal de “antes-queda” e “pós-queda”. Diferentemente da visão pelagiana/arminiana, para o calvinismo a inserção do pecado, via “escolha-livre-do-homem”, que resolveu, pelo seu próprio arbítrio e vontade, transgredir as expressas ordens do seu criador (direito concedido por Ele mesmo), trouxe para si mesmo uma drástica mudança em sua natureza. Mesmo tendo sido solenemente alertado sobre essa conseqüência, pelo seu criador, “decidiu”, sozinho, ser agente ativo e consciente dessa mudança.

2.1 Liberdade que decide não ter liberdade

2.1.1. Situação Pré-queda do homem

Agostinho costuma dizer que a antropologia bíblica poderia ser dividida em três fazes. Na primeira delas, antes da queda, “o homem podia não pecar”. É seguindo esses mesmos passos que o calvinismo entende a situação de liberdade do homem, antes da queda.

Passaremos a analisar os principais documentos calvinistas que tratam da criação da liberdade do homem.

A confissão de Fé de Westminster, formulada no século XVII por cerca de 121 teólogos calvinistas, faz a seguinte afirmação, no capítulo que trata sobre a criação:

Depois de haver feito as outras criaturas, Deus criou o homem, macho e fêmea, com almas racionais e imortais, e dotou-as de inteligência, retidão e perfeita santidade, segundo a sua própria imagem, tendo a lei de Deus escrita em seus corações, e o poder de cumpri-la, mas com a possibilidade de transgredi-la, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, que era mutável (WESTMINSTER, 1999, IV.II).

Um importante teólogo calvinista comentando sobre o que possibilitou que Adão e Eva pecassem apresenta o seguinte motivo:

Deus os deixou à liberdade da sua própria vontade, em vez de usar da sua onipotência para impedi-los de pecar. Por ser onipotente, Deus com certeza poderia ter impedido a raça humana de cair em pecado. Mas em Sua sabedoria não escolheu impedir a queda. Como Deus conteve a Sua onipotência e deixou Adão e Eva à própria vontade deles, foi-lhes plenamente possível optarem por cometer o pecado (GEERBARDUS, 2007, p.87).

Um importante teólogo calvinista comentando sobre o que possibilitou que Adão e Eva pecassem apresenta o seguinte motivo:

Deus os deixou à liberdade da sua própria vontade, em vez de usar da sua onipotência para impedi-los de pecar. Por ser onipotente, Deus com certeza poderia ter impedido a raça humana de cair em pecado. Mas em Sua sabedoria não escolheu impedir a queda. Como Deus conteve a Sua onipotência e deixou Adão e Eva à própria vontade deles, foi-lhes plenamente possível optarem por cometer o pecado (GEERBARDUS, 2007, p.87).

Ainda sobre a criação da liberdade do homem:

O homem é a única das criaturas dentre as que Deus criou que é consciente de si mesma. Deus fez o homem à sua imagem mental e moral. O Dr.Albertus Pieters diz: “isso compreende o poder autoconsciente de raciocinar, a capacidade da autodeterminação e o senso moral. Em outras palavras, ser uma criatura que pode dizer “Eu sou”, eu devo, eu irei” – isso é o que significa ser feito à imagem de Deus (VAN HORN, 2000, p.25).

Outro importante teólogo calvinista, o holandês Berkhof, ainda comentando sobre a criação da liberdade, afirma:

Sua condição era preliminar e temporária, podendo levar a maior perfeição e glória ou acabar numa queda. Foi por natureza dotado daquela justiça original que é a glória máxima da imagem de Deus e, consequentemente, vivia num estado de santidade positiva. A perda daquela justiça significaria a perda de uma coisa que pertencia à própria natureza do homem em seu estado ideal. O homem podia perdê-la e ainda continuar sendo homem, mas podia não perdê-la e continuar sendo o homem no sentido ideal da palavra (BERKHOF, 1990, p.209).

Cremos que já ficou claro o suficiente que o calvinismo entende que o homem, em seu estado natural, possuía o que costumeiramente é chamado de livre-arbítrio. No entanto, não podemos encerrar essa cessão sem antes verificarmos o capítulo da Confissão de Westminster que trata especificamente sobre a criação da liberdade ou do livre-arbítrio do homem:

Deus dotou a vontade do homem de tal liberdade, que ele nem é forçado para o bem ou para o mal, nem a isso é determinado por qualquer necessidade absoluta da sua natureza. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7. O homem, em seu estado de inocência, tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder. Ec. 7:29; Col. 3: 10; Gen. 1:26 e 2:16-17 e 3:6 (WESTMINSTER, 1999, IX. I, II).

2.1.2 Situação Pós-queda do homem

Precisamente neste ponto começam as divergências sobre a antropologia Bíblica. Que o homem (em sua situação pré-queda) era livre em seu arbítrio, agostinianos e pelagianos, calvinistas e arminianos, andam juntos. A bifurcação teológica, entretanto, perpassa pelas conseqüências dessa “escolha consciente” em não obedecer e não levar em conta as ameaças solenes de Deus.

Para Pelágio essas conseqüências foram graves mas, apesar disso, ela não afetou a “natureza do homem”. Para ele, “a liberdade é o bem supremo, a honra e a glória do homem, o bonum naturae, que não pode ser perdido [...]. Essa habilidade é dada ao homem por Deus na criação, e é um aspecto essencial da natureza constitutiva do homem” (SPROUL, 2001, p.32). Ele acreditava que a natureza do homem continuou sendo livre e boa, da mesma forma como foi integralmente criada.

Armínius, não concordava com Pelágio, relativamente às conseqüências da queda para a natureza do homem e entendia, em certo sentido, ser necessário o auxílio da graça divina para o homem voltar a obedecer. No entanto, em sua opinião, essa graça não é um fim em si mesma e que a regeneração é gradativa e não instantânea, depende, inclusive, da santificação enquanto processo. “Ele declara que esta obra da regeneração e iluminação não é completada num momento; mas [...] é elevada e promovida de tempos em tempos, pelo crescimento diário” (SPROUL, 2001, p141).

Em última instância e para finalizar aqui essa exposição da antítese do calvinismo, Armínius acreditava que, de alguma forma, havia restado, mesmo depois da queda, algum tipo de liberdade no homem; uma porção de livre-arbítrio o que, indiscutivelmente, o aproxima de Pelágio, conforme demonstra Sproul, citando Armínius:

Todas as pessoas não-regeneradas tem liberdade de vontade e uma capacidade para resistir ao Espírito Santo, para rejeitar a oferta da graça de Deus, para rejeitar a oferta da graça de Deus, para desprezar o evangelho e para não abrir àquele que bate à porta do coração; e essas coisas eles realmente podem fazer sem qualquer diferença entre o eleito e o répobro (SPROUL, 2001, p.143).

Diferentemente de Pelágio e Armínius a visão calvinista entende que, com a queda, o homem torna-se “totalmente depravado” em todas as suas instâncias e assim como Agostinho, nessa nova realidade o homem “não pode não pecar”.

Sobre os efeitos da queda, afirma a Confissão de Fé de Westminster:

Por este pecado eles decaíram da sua retidão original e da comunhão com Deus, e assim se tornaram mortos em pecado e inteiramente corrompidos em todas as suas faculdades e partes do corpo e da alma. Gen. 3:6-8; Rom. 3:23; Gen. 2:17; Ef. 2:1-3; Rom. 5:12; Gen. 6:5; Jer. 17:9; Tito 1:15; Rom.3:10-18. IV. Desta corrupção original pela qual ficamos totalmente indispostos, adversos a todo o bem e inteiramente inclinados a todo o mal, é que procedem todas as transgressões atuais. Rom. 5:6, 7:18 e 5:7; Col. 1:21; Gen. 6:5 e 8:21; Rom. 3:10-12; Tiago 1:14-15; Ef. 2:2-3; Mat. 15-19 (WESTMINSTER, 1999, VI.II).

O mesmo documento ainda expõe de forma clara que o homem, que antes era detentor do “livre-arbítrio”, com a queda perde-o inteira e totalmente, nada restando.

O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu pr6prio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Rom. 5:6 e 8:7-8; João 15:5; Rom. 3:9-10, 12, 23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; João 6:44, 65; I Cor. 2:14; Tito 3:3-5. (WESTMINSTER, 1999, IX.III).

E ainda:

Todo o pecado, tanto o original como o atual, sendo transgressão da justa lei de Deus e a ela contrária, torna, pela sua própria natureza, culpado o pecador e por essa culpa está ele sujeito à ira de Deus e à maldição da lei e, portanto, exposto à morte, com todas as misérias espirituais, temporais e eternas. I João 3:4; Rom. 2: 15; Rom. 3:9, 19; Ef. 2:3; Gal. 3:10; Rom. 6:23; Ef. 6:18; Lam, 3:39; Mat. 25:41; II Tess. 1:9 (WESTMINSTER, 1999, VI.VI).

Os Cânones de Dort, outro documento calvinista, elaborado em 1618 em contra-argumentação ao documento apresentado pelos seguidores de Armínius em 1609, na Holanda, que ficou conhecido como “Remonstrance”, faz a seguinte afirmação acerca da situação pós-queda do homem:

Sua vontade e seu coração eram retos, todos os seus afetos puros [...]. Mas, desviando-se de Deus [...] Pela sua própria livre vontade, ele se privou destes dons excelentes. Em lugar disso trouxe sobre si cegueira, trevas terríveis, leviano e perverso juízo em seu entendimento; malícia, rebeldia e dureza em sua vontade e seu coração; também impureza em todos os seus afetos (DORT, 1996, III.I).

Lutero também subscrevia integralmente o pensamento de Calvino quanto à situação pós-queda. Em sua obra “Nascido Escravo”, um famoso debate com Erasmo de Roterdan, faz a seguinte afirmação:

Erasmo [...] você assevera que o “livre-arbítrio” é a capacidade que a vontade humana tem, por si mesma, de decidir [...]. Os pelagianos também fizeram isso. Mas você os ultrapassa! [...]. Prefiro até mesmo o ensinamento de alguns dos antigos filósofos aos seus. Eles diziam que um homem entregue a si mesmo só faria o errado. O homem só poderia escolher o bom com a ajuda da graça divina. Eles diziam que os homens são livres para decair, mas que precisam de ajuda para elevarem-se! Porém, é motivo de riso chamar a isso de “livre-arbítrio”. Com base em tais conceitos, eu poderia afirmar que uma pedra tem “livre-arbítrio”, pois só pode cair, a menos que seja erguida por alguém! O ensino daqueles filósofos, põem, ainda é melhor do que o seu. A sua pedra, Erasmo, pode escolher se sobe ou desce! (LUTERO, 1988, p.41).

O Catecismo Maior de Westminster dá a seguinte resposta à pergunta de n° 23: Em que estado a queda deixou a humanidade?: “A humanidade por causa da queda foi deixada em estado de pecado e de miséria” (CATECISMO MAIOR, 2007. 23).

Comentando sobre os resultados imediatos da queda e a situação em que ficou o homem, Berkhof faz a seguinte afirmação:

O concomitante imediato do primeiro pecado e, portanto, dificilmente um resultado dele no sentido estrito da palavra, foi a depravação total da natureza humana. C contágio do seu pecado espalhou-se imediatamente pelo homem todo, não ficando sem ser tocada nenhuma parte da natureza, mas contaminando todos os poderes e faculdades do corpo e da alma [...]. Esta mudança da condição real do homem refletiu-se também em sua consciência [...]. Não somente a morte espiritual, mas também a morte física resultou do primeiro pecado do homem (BERKHOF, 1990.p.227).

2.1.2.1 A decisão que afeta a posteridade

Os principais documentos calvinistas reconhecem que, em Adão, toda a sua descendência pereceu e que as mesmas conseqüências advindas sobre Adão passaram também, numa espécie de “transmissão hereditária”, para sua descendência: “Sendo eles o tronco de toda a humanidade, o delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e a mesma morte em pecado, bem como a sua natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua posteridade, que deles procede por geração ordinária”. At. 17:26; Gen. 2:17; Rom. 5:17, 15-19; I Cor. 15:21-22,45, 49; Sal.51:5; Gen.5:3; João3:6 (WESTMISNTER, 1999, VI.III).

Os Cânones de Dort afirmam o seguinte, sobre esse assunto:

Depois da queda, o homem corrompido gerou filhos corrompidos. Então a corrupção, de acordo com o justo julgamento de Deus, passou de Adão até todos os seus descendentes, com exceção de Cristo somente. Não passou por imitação, como os antigos pelagianos afirmavam, mas por procriação da natureza corrompida. Portanto, todos os homens são concebidos em pecado e nascem como filhos da ira, incapazes de qualquer ação que o salve, inclinados para o mal, mortos em pecados e escravos do pecado. Sem a graça do Espírito Santo regenerador nem desejam nem tampouco podem retornar a Deus, corrigir suas naturezas corrompidas ou ao menos estar dispostos para esta correção. (DORT, 1996, III.II, III).

O Breve Catecismo de Westminster responde da seguinte forma à pergunta 16: Todo o gênero caiu pela transgressão de Adão? “Visto que o pacto foi feito com Adão, não só para ele, mas também para a sua posteridade, todo gênero humano, que procede por geração ordinária, pecou nele e caiu com ele na sua primeira transgressão” (BREVE CATECISMO, 2000. 16).

3 A soberania que resgata a liberdade

Como vimos, os principais representantes da doutrina calvinista são unânimes em afirmar a situação do homem pós-queda como uma situação de morte espiritual e total depravação de todo o seu ser.

A expulsão do homem do paraíso, registrada em Gêneses, como uma das conseqüências de seu pecado, tem sido entendida “simplesmente” como um ato punitivo de Deus e de fato foi; mas não só. Esse ato pode ser entendido também como uma providência benevolente de Deus para que o homem, agora decaído, não permanecesse eternamente nessa situação. Nesse sentido, o Breve Catecismo de Westminster responde da seguinte forma à indagação n° 20: Deixou Deus todo gênero humano perecer no estado de pecado e miséria?: “Tendo Deus, unicamente pela sua boa vontade, desde toda a eternidade escolhido alguns para a vida eterna, entrou com eles em um pacto de graça, para livrá-los do estado de pecado e miséria e os levar a um estado de salvação por meio de um redentor” (BREVE CATECISMO, 2000. 20).

Geerbardus, teólogo calvinista, comentando sobre essa questão faz a seguinte afirmação:

Deus salva os seus eleitos tão somente por causa de seu amor e misericórdia. Isso é, nada obriga Deus salvar nenhuma parte da raça humana, mas Ele, na verdade, por causa do Seu amor e misericórdia, desejou e planejou a salvação de alguns deles [...]. E não há parcialidade nem injustiça nisso, pois Deus não deve a salvação a ninguém. Todos pecaram contra ele, perderam todo o direito e Ele nada deve a ninguém senão condenação (GEERBARDUS, 2007. p.110).

Na visão calvinista, para essa situação pós-queda em que o homem se meteu, só há uma esperança de reversão desse tenebroso quadro: uma intervenção externa e soberana que só Deus pode realizar, dando-lhe vida novamente, tirando-lhe do estado de miséria e morte espiritual, devolvendo a vida e com ela a liberdade:

Segundo o seu eterno e imutável propósito e segundo o santo conselho e beneplácito da sua vontade, Deus antes que fosse o mundo criado, escolheu em Cristo para a glória eterna os homens que são predestinados para a vida; para o louvor da sua gloriosa graça, ele os escolheu de sua mera e livre graça e amor, e não por previsão de fé, ou de boas obras e perseverança nelas, ou de qualquer outra coisa na criatura que a isso o movesse, como condição ou causa. Ref. Ef. 1:4, 9, 11; Rom. 8:30; II Tim. 1:9; I Tess, 5:9; Rom. 9:11-16; Ef. 1: 19: e 2:8-9 (WESTMINSTER, 1999, III, V).

E ainda:

Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça. Ref. João 15:16; At. 13:48; Rom. 8:28-30 e 11:7; Ef. 1:5,10; I Tess. 5:9; 11 Tess. 2:13-14; IICor.3:3,6; Tiago 1:18; I Cor. 2:12; Rom. 5:2; II Tim. 1:9-10; At. 26:18; I Cor. 2:10, 12: Ef. 1:17-18; II Cor. 4:6; Ezeq. 36:26, e 11:19; Deut. 30:6; João 3:5; Gal. 6:15; Tito 3:5; I Ped. 1:23; João 6:44-45; Sal. 90;3; João 9:3; João6:37; Mat. 11:28; Apoc. 22:17 (WESTMINSTER, 1999, X,I).

Para maiores esclarecimentos sobre esse tópico recomendamos uma análise mais detalhada sobre o segundo e terceiro pontos da sistematização doutrinária do calvinismo: Eleição Incondicional e Expiação Limitada, respectivamente, o que não faremos aqui por motivo de delimitação dessa abordagem.

3.1 A mudança no conceito de liberdade em benefício do homem

Diferentemente da liberdade que dispunha o homem, antes da queda – não tendia nem para o bem nem para o mal -, de forma que essa liberdade não sofria nenhuma pressão de natureza, a liberdade que Deus devolve, tão somente aos eleitos, é uma liberdade segundo sua nova natureza.

Agostinho resumia essa terceira fase de sua antropologia dizendo que após a operação da graça de Deus que Re-vivifica o homem, tirando-o do estado de perdição para o estado de salvação, “o homem não pode pecar”.

Interessante notarmos que no capítulo que trata sobre o livre-arbítrio, a Confissão de Fé de Westminster descreve um novo tipo de liberdade: uma liberdade que conduz o homem, devido à nova semente de vida plantada no seu coração, pelo próprio Deus, a decidir e a querer apenas o bem e às coisas que o conduz cada vez mais próximo de Deus. Contudo, isso não deve ser traduzido como uma “nova escravidão da vontade” e sim como uma Re-criação de uma vontade que agora se coaduna com a sua nova natureza. Essa vontade, no entanto, ainda está condicionada pelas contingências desse mundo, de forma que pode em algum momento variar para o que é mau, mas não de forma “natural” e essencial. Essa espécie de “vontade livre para o bem”, que denota também uma espécie de “homem ideal”, ocorrerá definitivamente tão somente nos céus – habitação final e eterna dos eleitos – mas, ocorrerá. Vejamos textualmente o documento calvinista:

Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau. Col.1: 13; João 8:34, 36; Fil. 2:13; Rom. 6:18, 22; Gal.5:17; Rom. 7:15, 21-23; I João 1:8, 10. É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só. f. 4:13; Judas, 24; I João 3:2 (WESTMINSTER, 1999, IX, IV, V).

No capítulo que trata especificamente da liberdade cristã (dos eleitos, agora regenerados) o mesmo documento anteriormente citado faz a seguinte afirmação:

A liberdade que Cristo, sob o Evangelho, comprou para os crentes consiste em serem eles libertos do delito do pecado, da ira condenatória de Deus, da maldição da lei moral e em serem livres do poder deste mundo. do cativeiro de Satanás, do domínio do pecado, do mal das aflições, do aguilhão da morte, da vitória da sepultura e da condenação eterna: como também em terem livre acesso a Deus, em lhe prestarem obediência, não movidos de um medo servil, mas de amor filial e espírito voluntário. Todos estes privilégios eram comuns também aos crentes debaixo da lei, mas sob o Evangelho, a liberdade dos cristãos está mais ampliada, achando-se eles isentos do jugo da lei cerimonial a que estava sujeita a Igreja Judaica, e tendo maior confiança de acesso ao trono da graça e mais abundantes comunicações do Espírito de Deus, do que os crentes debaixo da lei ordinariamente alcançavam. Tito 2:14; I Tess. 1: 10; Gal. 3:13; Rom. 8: 1; Gal. 1:4; At. 26:18; Rom. 6:14; I João 1:7; Sal. 119:71; Rom. 8:28; I Cor, 15:54-57; Rom. 5l: 1-2; Ef. 2:18 e 3:12; Heb. 10: 19; Rom. 8:14. 15; Gal. 6:6; I João 6:18; Gal. 3:9, 14, e 5: 1; At. 15: 10; Heb. 4:14, 16, e 10: 19-22; João 7:38-39; Rom. 5:5 (WESTMINSTER, 1999, XX.I).

A garantia de que essa liberdade jamais terá fim (diferentemente do estado transitório da liberdade inicial) está sintetizada no último ponto da antítese calvinista à Remostrance, sob o título Perseverança dos Santos.

Conclusão

O Calvinismo não só é uma resposta convincente ao grande problema da humanidade, sintetizada no binômio Soberania de Deus versus Liberdade humana, ou ainda, como trata a filosofia: Liberdade versus necessidade.

Ele é um poderoso sistema de vida, hermeticamente fechado, capaz de responder às questões mais difíceis em todos os níveis e áreas do conhecimento humano. O calvinismo é um dos poucos sistemas que evidencia na prática seus pressupostos teóricos: a humanidade caminha a passos largos em direção à maldade, chegando cada vez mais próximo da perfeição, evidenciando, de forma inconteste a sua “depravação total”.

Os eleitos, em contrapartida, (calvinistas e não calvinistas), demonstram com suas vidas uma atitude diferenciada; fruto da inclusão, por amor, de sua “nova vontade” – livre para o bem – no seu coração, pela graça de Deus. Os eleitos calvinistas, por sua vez, desenvolvem uma ética tão peculiar que pode ser vista e não negada, mesmo por aqueles que, intrinsecamente, estão distanciados desse sistema, como bem observa Weber:

O Deus de Calvino exigia de seus crentes não boas ações isoladas, mas uma vida de boas ações combinadas em um sistema unificado. Mas no curso de seu desenvolvimento, o calvinismo acrescentou algo de positivo a isso tudo, ou seja, a idéia de comprovar a fé do indivíduo pelas atitudes seculares. [...] consideramos apenas o calvinismo e adotamos a doutrina da predestinação como arcabouço dogmático da moralidade puritana, no sentido de racionalização metódica da conduta ética.(WEBER, 2004. p.91,94,96).

BIBLIOGRAFIA

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BÍBLIA. Português. Bíblia de estudos de Genebra. Trad. de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Cultura Cristã, 1999. 1710 p.
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CATECISMO MAIOR. Westminster. São Paulo: CEP, 2007, 115p
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HORN VAN. Leonard. Estudos no Breve Catecismo. São Paulo: Puritanos, 2000, 198p
WEBER. Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo-SP: Martin Claret, 2002. 230p
WESTMINSTER. Confissão de Fé. São Paulo: CEP: 1999, 96p

Notas:

Fábio Correia - Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco -UFPE, Graduado em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP. Licenciado em Educação Religiosa pelo Seminário Presbiteriano do Norte – SPN. Atualmente é professor de Introdução à Filosofia e Ética da Faculdade Decisão – FADE.

2 O determinismo constitui um princípio da ciência experimental que se fundamenta pela possibilidade da busca das relações constantes entre os fenômenos. Essa teoria afirma que o comportamento humano é condicionado por três fatores: genética, meio e momento. Os deterministas pensam que todos os acontecimentos do universo estão de acordo com as leis naturais, ou seja, que todo fenômeno é condicionado pelo que precede e acompanha. Não crêem no acaso, nem no sobrenatural, propondo sempre uma investigação na causa dos fenômenos, sem aceitar que aconteceu porque tinha de acontecer. Uma bola de bilhar arremessada com determinada força e direção só poderá percorrer um único caminho que poderá ser traçado com perfeição se todas as variáveis puderem ser levadas em conta, portanto, seu comportamento é determinado pela acção que a causou. Assim, segundo o determinismo, você não pode optar por um sorvete de chocolate ou baunilha, o que ocorre é a ilusão de escolha. Seja qual for a opção que tomar, ela já estaria pré-determinada por toda a sua trajetória de vida e de toda a humanidade antes dela. O que acontece é que as variáveis ocorridas no ato tendem ao infinito, causando, assim, a ilusão de livre-arbítrio ou escolha, conforme: http://pt.wikipedia.org/wiki/Determinismo.

3 A sociedade de castas é marcada pela rigidez na hierarquização. Baseia-se na hereditariedade, na profissão, na etnia, na religião, determinando uma situação de respeitabilidade. A definição desses critérios ocorre a partir de um conjunto de valores, hábitos e costumes definidos pela tradição. O sistema de castas assenta-se numa relação de privilégios que alguns indivíduos possuem em detrimento dos demais. Esse tipo de organização social parte do pressuposto de que os direitos são desiguais por natureza, uma vez que os elementos que os caracterizam são definidos fora dos indivíduos - por exemplo, o critério para a definição de cargos e profissões se dava pela hereditariedade (o guerreiro, o sacerdote fariam os seus filhos também guerreiros e sacerdotes). Pode-se dizer que, nas sociedades antigas, a organização social baseava-se no sistema de castas. As desigualdades políticas, jurídicas, religiosas, etc. expressavam-se através do lugar que o indivíduo ocupava na estrutura de cargos e profissões, definidos pela hereditariedade, em primeiro plano. Ainda hoje existe na Índia o sistema de castas, embora modificado, pois coexiste com um sistema de classes sociais; mesmo assim, o estudo dessa sociedade pode nos oferecer vários elementos para a compreensão dessa ordem social. Uma das características que marcaram a estratificação social hindu foi a hereditariedade; o nascimento era a condição básica para se definir uma dada posição na ordem social Os pertencentes à casta inferior eram considerados impuros e não podiam nem sequer prestar serviços aos membros das outras castas superiores. A idéia era de que tudo o que os impuros tocassem ficava contaminado, seja alimento, água ou roupa. Apenas as castas puras (superiores) eram consideradas aptas a desempenhar funções públicas e a participar de determinadas atividades religiosas. As castas impuras eram praticamente segregadas, a elas não sendo permitido freqüentar escolas, templos etc. De forma absolutamente generalizada, é possível dizer que as quatro castas principais na Índia, durante muito tempo, foram: brâmane (casta superior a todas), chátria (casta intermediária formada pelos guerreiros), vaixiá (casta intermediária, mas abaixo da chátria, formada pelos comerciantes, agricultores e pastores) e a sudra ou pária (casta mais inferior), conforme: http://ialexandria.sites.uol.com.br/textos/israel_textos/conceito.htm.

4 Os muçulmanos acreditam no qadar, uma palavra geralmente traduzida como predestinação, mas cujo sentido mais preciso é "medir" ou "decidir quantidade ou qualidade". Uma vez que para o islão Deus foi o criador de tudo, incluindo dos seres humanos, e sendo uma das suas características a onisciência, ele já sabia quando procedeu à criação as características de cada elemento da sua obra teria. Assim sendo, cada coisa que acontece a uma pessoa foi determinada por Deus, confome: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mul%C3%A7umano#Apredestina.

5 Posição extremada dos argumentos teológicos do calvinismo. Como o próprio sufixo denota, não se trata da posição doutrinária calvinista. Os calvinistas, inclusive, reputam como não bíblicas as argumentações dos hipercalvinistas, que negam qualquer possibilidade de causa e contingência, e afirmam que o homem jamais possuiu livre-arbítrio, nem mesmo antes da queda, e que foi predestinado para cair.

Vontade: Autonomia ou causalidade?



Vontade: é a causa imediata de todas as ações. É a faculdade de escolha. Em cada ato da vontade existe uma preferência. Quando não há preferência (mas indiferença), então não pode haver volição. Querer é escolher, e escolher é decidir entre alternativas. Mas há algo que influencia a escolha, algo que determina a decisão.

Se "algo" induz a vontade a fazer uma escolha, então esse "algo" tem de ser o agente causal. Quando a vontade "escolhe", ela leva em conta certas considerações, influências. Então, a volição nada mais é do que o efeito dessas considerações/influências.

Se a vontade é "serva" de tais considerações/influências, já não é soberana. E se não é soberana, não podemos atribuir "liberdade" absoluta e nem relativa. Os atos da vontade não podem se auto-produzirem. Não podem se produzir por si mesmos. Caso contrário, estaríamos assumindo um efeito sem causa

Sempre há algo que leva a vontade a fazer uma escolha. Sendo a vontade determinada, quem a determina? O que determina a vontade é uma poderosa força motivadora que se faz sentir sobre ela. Que motivação é essa? Ora, podem ser várias: a lógica do raciocínio, o impulso das emoções, a voz da consciência, o sussurro do tentador, o poder do Espírito Santo. Então, será a maior influência que impulsionará a vontade a agir. Portanto, nós sempre agimos influenciados ou pelo mundo, ou pela carne, ou pelo diabo, ou por Senhor Deus.

Se negarmos a causalidade, então assumiremos que a vontade é indeterminada. Sendo indeterminada, o que faz ela determinar uma ação? Como pode uma vontade ser espontânea começar uma ação? Se a vontade é neutra e não predeterminada para agir de um modo ou de outro, então o que faz com que ela aja? Se a vontade parte do neutro, como pode ela sair desse ponto morto? Se insistirmos que a vontade age livremente, mesmo com considerações/influências, então porque as considerações/influências são ainda necessárias? Seria melhor deixar a vontade autônoma decidir por si mesma, sem ser influenciado por alguém.

A vontade pode agir de modo totalmente livre ao dar expressão ao caráter interior. Ela é livre na medida em que ela expressa livremente nossa natureza sem ser autônoma. A vontade age de acordo com nossa personalidade. A vontade nunca é forçada a agir contra sua propria natureza. A isso chamamos de livre agência, a vontade externando quem nós somos. Ela jamais externaria algo que fosse estranho à nossa natureza.

Ora, a Bíblia nos informa que o coração é o centro dominante do ser. "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida" (Pv 4.23). "Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios..." (Mc 7.21). Ora, os atos pecaminosos dos homens têm origem, não na vontade, mas no coração. Quando a vontade age, ela age por uma determinação. Neste caso, quem a determina é o coração. Logo, a vontade sendo serva do coração, jamais agirá diferente.

Falamos do "coração" como o âmago do ser humano. Isso tem a ver com o caráter do homem. O caráter do homem determina sua vontade. Imaginemos um pecador. Diante dele colocamos uma vida de piedade e uma vida de prazeres pecaminosos. Qual das alternativas ele escolherá? Respondo, a segunda. Ele a escolheu porque quis escolher ou foi influenciado? Se respondermos a primeira opção, então assumirem que ele igualmente poderia ter escolhido a segunda. Aí temos um problema: o pecador pode escolher ter uma vida de piedade? A Bíblia diz que não há quem faça o bem, nem um sequer!

Concluo esta parte dizendo que a vontade do homem age de acordo com a influência mais forte do momento. Ele não pode agir diferentemente.

Fonte: http://blogdoseleitos.blogspot.com

Livre-arbítrio: Afinal, temos ou não temos? - Rev. Waldemar Alves da Silva Filho

Introdução:

Neste estudo, iremos procurar entender a questão que envolve o termo “Livre-arbítrio”.

Trata-se de um tema que trouxe grande discussão durante alguns períodos da História. O entendimento diferente acerca deste tema, ou seja a defesa da existência de um “livre-arbítrio” ou a sua negação, tem divido pessoas até hoje.

Mas, afinal temos ou não temos livre-arbítrio? É isto mesmo que iremos verificar, não só analisando as posições teológicas acerca do assunto, mas, buscando luz da Bíblia para clarear nosso entendimento.

Antes de mais nada precisamos definir o que seja esse tal “Livre-arbítrio”:

1. Livre-arbítrio

“Livre-arbítrio”, tem sido definido, como a capacidade dada ao homem, por ocasião de sua criação, para escolher entre o bem e o mal, entre agradar a Deus ou desobedecê-Lo. Seria o “livre poder de eleger o bem ou o mal”.2

Héber Carlos de Campos também a define como tendo sido a capacidade que o homem teve, “de escolher as coisas que combinavam com a sua natureza santa, mas que, mutavelmente, pudesse escolher aquilo que era contrário à sua natureza santa”.3

Vejam que tais definições, estão de acordo com o que prescreve a nossa Confissão de Fé:

      O homem em seu estado de inocência , tinha a liberdade e o poder de querer e fazer aquilo que é bom e agradável a Deus, mas mudavelmente, de sorte que pudesse decair dessa liberdade e poder.4

É importante dizermos que quanto a definição, não existe dificuldade. O problema todo que envolve o tema, é se o homem hoje, depois da queda , possui ou não esse tal de livre-arbítrio.

Antes mesmo de entrar propriamente na discussão, se o homem ainda dispõe dessa capacidade, precisamos dizer algo acerca de uma faculdade natural e inalterada no homem, mesmo depois da queda, chamada de “livre agência” ou “capacidade de escolha”.

2. Livre Agência ou Capacidade de Escolha

Existe no homem uma capacidade tal que lhe dá condições de fazer escolhas, de acordo com o que lhe é agradável. O homem sempre e em qualquer condição, faz as suas escolhas, de tal forma que ele é responsabilizado por elas. “Essa capacidade ou aptidão é um aspecto inalienável da natureza humana normal”.5 Ele é livre para escolher o que lhe agrada, de acordo com suas inclinações.

Sobre este aspecto da existência humana a CFW diz o seguinte:

      Deus dotou a vontade do homem com tal liberdade natural, que ela nem é forçada para o bem nem para o mal, nem a isso determinada por qualquer necessidade absoluta de sua natureza. Ref. Tiago 1:14; Deut. 30:19; João 5:40; Mat. 17:12; At.7:51; Tiago 4:7.6

Comentando acerca desta seção da CFW, A. A. Hodge diz o seguinte:

      ...que a alma humana, inclusive todos os seus instintos, idéias, juízos, emoções e tendências, tem o poder de decidir por si mesma; isto é, a alma decide em cada caso como geralmente lhe agrade.7

O homem é livre para escolher, sendo que nada externamente pode forçar suas escolhas. Isto é essencial no homem, faz parte da sua criação a imagem e semelhança de Deus. “À parte dela, não pode haver qualquer responsabilidade, confiança ou planejamento. À parte dela, não pode haver educação, religião ou adoração. À parte dela, não pode haver qualquer arte, ciência ou cultura. A capacidade de escolher é uma condição sine qua non de toda a vida humana”.8

A definição de Campos sobre este assunto é também esclarecedora:

      Livre Agência, por outro lado, poderia ser definida como a capacidade que todos os seres racionais têm de agir espontaneamente, sem serem coagidos de fora, a caminharem para qualquer lado, fazendo o que querem e o que lhes agrada, sendo, contudo, levados a fazer aquilo que combina com a natureza deles.9

Campos ainda falando sobre este aspecto, enfatizando a responsabilidade humana em suas escolhas diz:

      É importante que o ser racional que ele aja sempre movido pelo seu ego. A responsabilidade dele sempre estará diretamente ligada à voluntariedade do seu ato. Todos os atos dele devem ser auto-inclinados e auto-determinados.

      Portanto, para que haja responsabilidade, não é necessário que haja o poder de escolha contrária, mas sim, que haja o poder de auto-determinação, que a ação seja nascida nas inclinações do ser racional.10

Pelo que ficou demonstrado, em qualquer época o homem é livre para agir conforme sua condição, sua natureza, ou seja, ele sempre faz o que quer conforme a sua inclinação.

3. A queda do homem: O que aconteceu ao livre-arbítrio?

Como dissemos acima, na criação o homem recebeu a capacidade de fazer escolhas e possuía também a liberdade de fazer escolhas certas, ou seja podia escolher agradar a Deus, de tal forma que pudesse cair desse estado em que foi criado. O homem foi criado totalmente santo, integro, contudo podia escolher algo que fosse contrário a essa sua natureza. E foi isso o que aconteceu, ou seja, escolheu pecar. “No princípio, portanto, o homem não era um ser neutro, nem bom nem mau, mas um ser bom que era capaz de, com a ajuda de Deus, viver uma vida totalmente agradável a Deus”.11 Como dizia Agostinho, o homem tinha a “capacidade de não pecar” (posse non peccare).12

Neste sentido, até antes de sua queda podemos dizer, o homem possuía o livre-arbítrio, contudo com a desobediência, ele perdeu tal capacidade, sendo que não mais consegue fazer escolhas certas, não consegue agradar a Deus. Suas escolhas serão sempre determinadas pelo estado em que caiu. Suas escolhas serão de acordo com a sua natureza.

É neste ponto que surgem então discussões, pois, diferente da posição Reformada Calvinista, os Arminianos irão afirmar que o homem ainda possui o livre-arbítrio. Ele pode sem a intervenção de Deus, em seu estado natural, fazer escolhas espirituais acertadas.

Para os arminianos a queda do homem, embora tenha trazido algum prejuízo não afetou totalmente o homem, sendo que, continua em seu estado natural a ter habilidades para escolher a salvação, para escolher agradar a Deus. Desta forma, a depravação não foi total.

Vejam mais detalhadamente a posição dos arminianos13 quanto a depravação do homem:

      Embora a natureza humana tenha sido seriamente afetada pela queda, o homem não ficou reduzido a um estado de incapacidade total. Deus, graciosamente, capacita todo e qualquer pecador a arrepender-se e crer, mas o faz sem interferir na liberdade do homem. Todo pecador possui uma vontade livre (livre arbítrio), e seu destino eterno depende do modo como ele usa esse livre arbítrio. A liberdade do homem consiste em sua habilidade de escolher entre o bem e o mal, em assuntos espirituais. Sua vontade não está escravizada pela sua natureza pecaminosa.. O pecador tem o poder de cooperar com o Espírito de Deus e ser regenerado ou resistir à graça de Deus e perecer. O pecador perdido precisa da assistência do Espírito, mas não precisa ser regenerado pelo Espírito antes de poder crer, pois a fé é um ato deliberado do homem e precede o novo nascimento. A fé é o dom do pecador a Deus, é a contribuição do homem para a salvação.14

O ensino arminiano segue o raciocínio de Pelágio, com diferença apenas no fato de que este, dizia que a queda não afetou em nada a humanidade, de tal forma que “o homem continua nascendo na mesma condição em que Adão estava antes da queda. Esta isento não só de culpa, como também de polução.”15 Por isso, os arminianos são considerados semi-pelagianos, pois pensam que o homem depois da queda tenha capacidade para fazer escolhas certas.

Os reformados calvinistas, em contra partida, afirmam que a queda incapacitou totalmente o homem, afetando todas as suas faculdades. O homem após a queda perdeu tal liberdade, sendo agora escravo do pecado, morto espiritualmente.

Vejam mais detalhadamente o pensamento calvinista sobre a depravação total

      Devido à queda, o homem é incapaz de, por si mesmo, crer de modo salvador no Evangelho. O pecador está morto, cego e surdo para as coisas de Deus. Seu coração é enganoso e desesperadamente corrupto. Sua vontade não é livre, pois está escravizada à sua natureza má; por isso ele não irá - e não poderá jamais - escolher o bem e não o mal em assuntos espirituais. Por conseguinte, é preciso mais do que simples assistência do Espírito para se trazer um pecador a Cristo. É preciso a regeneração, pela qual o Espírito vivifica o pecador e lhe dá uma nova natureza. A fé não é algo que o homem dá (contribui) para a salvação, mas é ela própria parte do dom divino da salvação. É o dom de Deus para o pecador e não o dom do pecador para Deus.16

Os calvinistas neste sentido, seguem os ensinos de Agostinho, que por sua vez combateu os ensinamentos de Pelágio. Agostinho ensinou que quando os seres humanos “pecaram, embora não perdessem a sua capacidade de fazer escolhas, perderam a sua capacidade de servir a Deus sem o pecado – em outras palavras, a sua verdadeira liberdade. O homem tornou-se, então, um escarvo do pecado; ele passou ao estado de ‘não ser capaz de não pecar’ (non posse non peccare).”17

A CFW afirma o seguinte acerca disso:

      O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. Ref. Rom. 5:6 e 8:7-8; João 15:5; Rom. 3:9-10, 12, 23; Ef.2:1, 5; Col. 2:13; João 6:44, 65; I Cor. 2:14; Tito 3:3-5.18

Calvino também disse o seguinte acerca desta situação do homem:

      As Escrituras atestam que o homem é escravo do pecado; o que significa que seu espírito é tão estranho à justiça de Deus que não concebe, deseja, nem empreende coisa alguma que não seja má, perversa, iníqua e impura; pois o coração, completamente cheio do veneno do pecado, não pode produzir senão os frutos do pecado.19

O homem, após a queda não possui mais o livre-arbítrio, não pode mais escolher algo que é contrário a sua natureza pecaminosa. Ele está morto, cego, é escravo do pecado.

Esta doutrina defendida pelos calvinistas, pelos reformados, que por sua vez é negada pelos arminianos, não se trata apenas de uma posição teológica diferente, e sim de afirmação bíblica. Nega-la é o mesmo que renunciar a Palavra de Deus neste assunto.

São inúmeros os textos que afirmam tal verdade, falando que o homem está incapacitado totalmente de atender ao convite de salvação, de atender as exigências divinas. Isto acontece por seu próprio pecado, por sua própria inclinação e desejo. À parte da graça de Deus o homem, por sua própria iniciativa não pode salvar-se, ou escolher isto.

Vejamos textos que servem de base para a doutrina calvinista:

    1. O homem está morto, incapaz de qualquer bem, precisando da intervenção divina: Jr 13.23; Ef. 2.1-10; Rm 3.9-18, 23; Cl 2.13; Tt 3.3-5.
    2. O homem não consegue ir até Jesus, senão com a ajuda somente de Deus: Jo 6.44, 65; Rm 9.16.
    3. O homem precisa nascer de novo, contudo, isto só aconteça através da atuação do Espírito Santo, que age soberanamente: Jo 3.1-15.
    4. O homem não pode compreender as coisas espirituais, senão pelo Espírito: I Co 2.14-16.
    5. A Bíblia declara que o homem está cego, é escarvo do pecado. Não pode fazer outra coisa senão pecar, a não ser que Deus mude seu estado: Ef. 4.18; Jo 8.31-36; Jo 9.35-41; Rm 6.15-23; 2 Tm 2.26.
    6. O homem não pode apresentar um fruto diferente daquilo que ele é: Mt 7.16-18; Tg 1.16-18.

Percebam que, afirmar que o homem tem o livre-arbítrio, é o mesmo que ignorar tais textos da Bíblia.

É importante enfatizar que, o homem mesmo neste estado, continua ser um agente livre, ou seja, ele exerce “a livre agência”. Isto quer dizer que continua a fazer as suas escolhas, contudo, não escolhe nada que seja contrário a sua natureza pecaminosa (Jo 5.40; Tg 1.14; Mt 17.12; At 7.51; Ef 2.3). O homem nunca é forçado a fazer algo que não deseja. Faz sempre aquilo que lhe traz prazer.

Sobre isto, diz Calvino:

      Não pensemos, entretanto, que o homem peca como que impelido por uma necessidade incontrolável; pois peca com o consentimento de sua própria vontade continuamente e segundo sua inclinação. Mas, visto que, por causa da corrupção de seu coração, odeia profundamente a justiça de Deus; e, por outro lado, atrai para si toda sorte de maldade, por isso afirmamos que não tem o livre poder de eleger o bem ou o mal – que é o que chamamos livre-arbítrio.20

Campos diz também o mesmo:

      Originalmente, antes da queda, o homem teve tanto o livre arbítrio como a livre agência. Depois da queda o homem ficou somente com a livre agência, pois perdeu tanto o desejo quanto a capacidade de fazer o bem, isto é, o poder de agir contrariamente à sua natureza.21

Assim, é o homem quem escolhe continuar no pecado, contudo, não tem capacidade, por causa do seu próprio pecado e maldade, para escolher coisa diferente a não ser que suas inclinações e vontade sejam transformadas por Deus, recebendo habilidade para escolher o que é bom e reto. Por isso o homem é sempre responsabilizado por seus atos, pois, sempre escolhe o que lhe agrada.

4. Na Redenção do Homem: O que acontece ao livre-arbítrio?

Quando Deus em sua livre graça, resolvendo salvar o homem, age em seu coração, pela ação do Espirito lhe implanta vida, o que acontece é que o homem recebe habilidade para escolher o que é reto e bom. A Bíblia descreve este ato, como o da libertação de um escravo, dando-lhe liberdade para escolher o que é agradável a Deus, contudo, muito embora liberto, pode ainda inclinar-se para o pecado. O homem passa a desejar o que é bom. Isto não significa que não deseje o pecado, pois, ainda permanece nele a imperfeição.

Sobre isto diz a CFW:

      Quando Deus converte um pecador e o transfere para o estado de graça, ele o liberta da sua natural escravidão ao pecado e, somente pela sua graça, o habilita a querer e fazer com toda a liberdade o que é espiritualmente bom, mas isso de tal modo que, por causa da corrupção, ainda nele existente, o pecador não faz o bem perfeitamente, nem deseja somente o que é bom, mas também o que é mau. Ref. Col.1: 13; João 8:34, 36; Fil. 2:13; Rom. 6:18, 22; Gal.5:17; Rom. 7:15, 21-23; I João 1:8, 10.22

Estaria o homem regenerado na mesma condição de Adão antes da queda, ou seja, teria ele agora novamente o livre-arbítrio? Não, pois, não voltamos a ser como era Adão. Ele era perfeitamente reto, santo, e podia escolher algo que fosse contrário ao que era a sua natureza. O homem regenerado, recebe liberdade para escolher o que é bom, contudo, não tem o livre arbítrio, pois não escolhe algo contrário ao que ele é. Ou seja, quando escolhe o que é bom, faz isso de acordo com a sua nova natureza criada em Cristo e quando escolhe pecar, faz isso, conforme a sua natureza carnal. Esta é a luta que reside dentro do homem restaurado. Ele não pode dar lugar ao velho homem (Ef 4.17-24; Cl 3.1-11).

É importante ressaltar que, sendo regenerado o homem recebe habilidade, que antes não tinha, para escolher a Deus. Conforme Agostinho, o homem recebe a capacidade de não pecar (posse non peccare).23 Por isso, e somente assim, pode atender ao convite do Evangelho para a sua salvação. O homem na regeneração, continua a exercer a sua “livre agência”.

Vejam como a CFW, fala da condição que o homem para fazer escolhas espirituais, como um ser ativo:

      Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça. Ref. João 15:16; At. 13:48; Rom. 8:28-30 e 11:7; Ef. 1:5,10; I Tess. 5:9; 11 Tess. 2:13-14; IICor.3:3,6; Tiago 1:18; I Cor. 2:12; Rom. 5:2; II Tim. 1:9-10; At. 26:18; I Cor. 2:10, 12: Ef. 1:17-18; II Cor. 4:6; Ezeq. 36:26, e 11:19; Deut. 30:6; João 3:5; Gal. 6:15; Tito 3:5; I Ped. 1:23; João 6:44-45; Sal. 90;3; João 9:3; João6:37; Mat. 11:28; Apoc. 22:17.

      Esta vocação eficaz é só da livre e especial graça de Deus e não provem de qualquer coisa prevista no homem; na vocação o homem é inteiramente passivo, até que, vivificado e renovado pelo Espírito Santo, fica habilitado a corresponder a ela e a receber a graça nela oferecida e comunicada.

      Ref. II Tim. 1:9; Tito 3:4-5; Rom. 9:11; I Cor. 2:14; Rom. 8:7-9; Ef. 2:5; João 6:37; Ezeq. 36:27; João5:25. 24

É o homem que diz sim a Deus, que diz sim ao chamado do Evangelho, depois de Ter sido habilitado, libertado do pecado. O abrir do olhos, a nova criação, o nascer de novo, é obra da livre graça de Deus e se não for assim, ninguém poderá crer em Cristo. Se não recebermos a fé que vem do Senhor, nunca poderemos crer. Maravilhosa graça!

5. Na glorificação do Homem: Terá o livre-arbítrio?

Quando formos glorificados, por ocasião da vinda de Cristo e completação de nossa salvação, teremos de volta o livre-arbítrio? Não, na glorificação, não voltaremos a ser como Adão, estaremos à frente dele, pois, ele quando criado não gozava de uma perfeição permanente, ou seja, podia cair de tal estado. Ele podia escolher algo contrário a sua natureza, contudo, se tivesse sido obediente poderia Ter alcançado a perfeição permanente. Os crente glorificados alcançarão o que Adão não pode alcançar. Teremos perfeita liberdade para servir a Deus. Continuaremos a ser agentes livres, pois, escolheremos o que estará de acordo com a nossa natureza perfeita. Nunca escolheremos pecar, pois, não haverá tal possibilidade, então, nunca mais teremos o livre-arbítrio.

Desta forma, como disse Agostinho, alcançaremos o estado “não posso pecar” (non posse peccare).25

Diz a CFW:

      É no estado de glória que a vontade do homem se torna perfeita e imutavelmente livre para o bem só. Ref. Ef. 4:13; Judas, 24; I João 3:2.26

Comentando a CFW, Hodge diz:

      Quanto ao estado dos homens glorificados no céu, nossa Confissão ensina que continuam, como antes, agentes livres; contudo, os restos de suas velhas tendências morais corruptas, sendo extirpadas para sempre, e as graciosas disposições implantadas na regeneração, sendo aperfeiçoadas, e o homem todo, sendo conduzido à medida da estatura do varão perfeito, à semelhança da humanidade glorifica de Cristo, permanecem para sempre perfeitamente livres e imutavelmente dispostos à perfeita santidade. Adão era santo e instável. Os homens não regenerados são impuros e estáveis; isto é, são permanentes na impureza. Os homens regenerados possuem duas tendências morais opostas, digladiando-se pelo domínio em seus corações. São lançadas entre elas, contudo a tendência graciosamente implantada gradualmente por fim prevalece perfeitamente. Os homens glorificados são santos e estáveis. São todos livres e, portanto, responsáveis.27

Portanto na glorificação, seremos para sempre livres, sem também o livre-arbítrio para sempre.

Conclusão

Os reformados, os calvinistas crêem no livre-arbítrio, como tendo sido uma habilidade concedida a Adão e perdida na queda. Desde então o homem ficou desprovido de qualquer habilidade para fazer escolhas santas, agradáveis a Deus. Não lhe resta outro desejo senão o de pecar, conforme as inclinações de seu próprio coração, sendo assim, um agente livre e responsável.

Cremos que, nunca mais tal habilidade fará parte da existência humana. O fato de Deus nos libertar do pecado nos habilitando a fazer escolhas acertadas, não é o mesmo que dizer que temos o livre-arbítrio. As escolhas sempre estarão de acordo com a nossa natureza, ou naturezas.

Nem antes, nem depois, voltaremos a ser como era Adão. Na glorificação estaremos à frente dele, num estado em que o pecado não será possível.

Dizermos que existe um tal de livre-arbítrio, seria o mesmo que dizer que Deus não é soberano sobre a salvação do pecador, que Ele está sujeito ao querer do homem.

Se não fosse Deus, sua graça o que seria de nós, nunca escolheríamos a Ele.

Que o estudo acerca desse tema, possa-nos motivar a glorificar a Deus por causa da sua graça que, agindo em nós mudou nos inclinações e vontade, fazendo-nos querer, desejar, o que não queríamos nem desejávamos.

Sola Gratia!

Soli Deo Gloria!



[1] Estudo apresentado na 2ª Igreja Presbiteriana de Juiz de Fora em 29/03/2003.

[2] Juan Calvino, Breve Instruccion Cristiana, Felire, Barcelona, pg. 13.

[3] Héber Carlos de Campos, Antropologia Bíblica, Apostila, JMC, São Paulo, pg.9.

[3] CFW, IX, II.

[5] Anthony Hoekema , Criados a Imagem de Deus, CEP, São Paulo, 1999, pg. 252.

[6] CFW, IX, I.

[7] A. A. Hodge, Confissão de Fé de Westminster Comentada, Os Puritanos, 1999, pg. 220.

[8] Hoekema, pg. 253.

[9] Campos, pg. 10.

[10] Idem.

[11] Hoekema, pg. 255.

[12] Citado por Hoekema, pg. 255.

[13] O nome “arminiano”, se aplica aos seguidores de James Arminius (um professor de seminário holandês), que, em 1610 apresentaram um protesto ao “Estado da Holanda”, “um ano após a morte de seu líder. O protesto consistia de ‘cinco artigos de fé’, baseados nos ensinos de Armínio, e ficou conhecido na história como a ‘Remonstrance’, ou seja, ‘O Protesto’. O partido arminiano insistia que os símbolos oficiais de doutrina das Igrejas da Holanda (Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg) fossem mudados para se conformar com os pontos de vista doutrinários contidos no Protesto. As doutrinas às quais os arminianos fizeram objeção eram as relacionadas com a soberania divina, a inabilidade humana, a eleição incondicional ou predestinação, a redenção particular (ou expiação limitada), a graça irresistível (chamada eficaz) e a perseverança dos santos. Essas são doutrinas ensinadas nesses símbolos da Igreja Holandesa, e os arminianos queriam que elas fossem revistas.” Estas informações forma citadas da tradução livre e adaptada do livro The Five Points of Calvinism - Defined, Defended, Documented, de David N. Steele e Curtis C. Thomas, Partes I e II, [Presbyterian & Reformed Publishing Co, Phillipsburg, NJ, USA.], feita por João Alves dos Santos.

[14] Idem.

[15] Louis Berkhof, A História das Doutrinas Cristãs, PES, São Paulo, pg. 120.

[16] A formulação de tais idéias, foram apresentadas pelos calvinistas combatendo as idéias arminianas, apresentas no protesto ao Estado da Holanda. Tais idéias fazem parte do conhecido, “Os Cinco Pontos do Calvinismo”.

[17] Hoekema, pg. 255.

[18] CFW, IX, III.

[19] Citação extraída de Paulo Anglada, As Doutrinas da Graça, Puritanos, 2000, pg. 17.

[20] Idem.

[21] Campos, pg. 11

[22] CFW, IX, IV.

[23] Citação extraída de Hoekema, pg. 258.

[24] CFW, capítulo X; I, II, Da Vocação Eficaz.

[25] Hoekema, pg. 267.

[26] CFW, IX; V.

[27] Hodge, pg. 227.


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